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Um espião sedutor, um bravo capitão e uma sinhazinha aventureira. Pode uma história de amor alterar os rumos de uma guerra? Numa narrativa ágil, onde o passado interage com o presente e a ficção penetra nas brechas da História, o leitor é transportado ao Brasil imperial invadido pelos paraguaios e à expedição militar que irá libertar Mato Grosso. Dos bailes de Campinas ao sertão bruto, p'ra lá das solidões, havia uma distância imensa, uma estrada repleta de buracos e curvas, que Micaela jamais poderia imaginar. Ao retratar o amadurecimento da personagem sob os ecos da guerra mais sangrenta das Américas, o livro beira o universal, já que cunhataís são todas as mulheres, ou foram, ou serão, antes de terem muitos de seus sonhos desfeitos.
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Seitenzahl: 522
Veröffentlichungsjahr: 2023
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EDITORA
Maria Teresa Carrión Carracedo
REVISÃO
Gustavo Dumas
REVISÃO DE TEXTOS EM ESPANHOL
Ricardo Manoel Carracedo Cereijo
REVISÃO DE TEXTOS EM FRANCÊS
Isabelle Allet-Coche
ASSISTENTES NA EDIÇÃO
Manoela Carracedo Ozelame | Rafael Carracedo Ozelame
ARTE-FINALIZAÇÃO E MONTAGEM DE CAPA
Maike Vanni
FOTOS DA CAPA
Composição fotográfica: Detalhe do olhar de uma jovem (Pavel_dp/Shutterstock);Assalto e occupação de Curuzú (recorte), de Huáscar, em 1866 | BNDigital Brasil.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Lepecki, Maria Filomena Bouissou
Cunhatai : um romance da guerra do Paraguai / Maria Filomena Bouissou Lepecki. -- 1. ed. -- Cuiabá : Entrelinhas Editora, 2023.
ISBN 978-85-7992-162-9
1. Guerra do Paraguai, 1864-1870 2. Romance histórico brasileiro I. Título.
23-155729 CDD-B869.3081
Índices para catálogo sistemático:
1. Romance histórico : Literatura brasileira B869.3081
Henrique Ribeiro Soares - Bibliotecário - CRB-8/9314
© 2023 Maria Filomena Bouissou Lepecki
Todos os direitos desta edição reservados para Entrelinhas Editora.
Av. Senador Metelo, 3773 | Jardim Cuiabá – CEP 78030-005 | Cuiabá-MT
Tel.: (65) 3624 5294 / 3624 8711 | [email protected]
www.entrelinhaseditora.com.br
Edição digital: agosto 2023
Arquivo ePub produzido pela Simplíssimo Livros
Prefácio
Parte 1: O Caminho
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
Parte 2: O Território
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
Parte 3: A Guerra
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 37
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
CAPÍTULO 41
CAPÍTULO 42
CAPÍTULO 43
CAPÍTULO 44
CAPÍTULO 45
CAPÍTULO 46
CAPÍTULO 47
CAPÍTULO 48
CAPÍTULO 49
CAPÍTULO 50
CAPÍTULO 51
CAPÍTULO 52
CAPÍTULO 53
CAPÍTULO 54
Nota da autora
IMAGENS DO INTERIOR DO LIVRO
Para minha avó Ayr Novis de Vasconcelos,que soube transmitir o gosto pelas histórias.
Para Henrique, Isabel,Bernardo e Mariana.E para Laís.
Agradeço aos pesquisadores e colaboradores Leila Scalisi, pela acolhida carinhosa em Campo Grande; Akemi Akaishi, Angela Matheus, Ivon Cerha, Ricardo Almeida de Oliveira, Adolpho Legnaro Filho e Paulo Lira e, especialmente, a Laís Lira – pela primeira revisão e pelo fundamental incentivo de todas as horas. Sou grata também ao apoio da historiadora e doutora Maria de Lourdes Viana Lyra, por aceitar seguir o chamado da aventura comigo e pelo lindo prefácio. E, por fim, agradeço ao Exército Brasileiro, especialmente à Quarta Brigada de Cavalaria Mecanizada de Dourados, por ter organizado, em julho de 1999, a marcha a pé da Retirada da Laguna, em Mato Grosso do Sul, na qual pude fazer uma imersão no tema e a pesquisa, in loco.
Donde estás ahora, cuñataí que tu suavecanto no llega a mí, dónde estás ahora,mi ser te añora con frenesí.
Trecho da canção paraguaiaRecuerdos de Ipacaraí, de Ortiz e Merkin
Em julho de 1999, a autora deste livro me convidou para participar com ela da expedição, a pé, que estava sendo organizada pelo comando da Região Militar do Estado de Mato Grosso do Sul, com o propósito de refazer o itinerário da chamada Retirada da Laguna – um dramático episódio da Guerra do Paraguai. Esse recuo dos soldados brasileiros, sempre ameaçados pelos combatentes paraguaios, foi assimilado à historiografia com o mesmo título do livro escrito por um dos participantes da marcha, o Visconde de Taunay. Na época do convite, eu exercia atividade docente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como professora doutora de História do Brasil, e, através de relações familiares, nós nos conhecíamos. Eu percebia o interesse da jovem mato-grossense pelo estudo da história, em especial com relação à Guerra do Paraguai, pela sua ligação com o tema: seu tetravô havia participado da guerra como médico. Essa descoberta a inspirou a escrever um romance calcado no fato histórico, com uma protagonista que utiliza ervas medicinais encontradas pelo caminho para curar os tantos doentes da guerra.
Maria Filomena Bouissou Lepecki havia recorrido a mim confiante de que a professora mais velha lhe asseguraria o apoio da família à realização da sua aventura. Mas, no início, por variadas razões, recusei o convite. Depois, ao perceber o quanto para ela importava conhecer o local dos acontecimentos nos quais seriam desenvolvidas as ações das personagens a serem criados, isso aliado ao fato de considerar ser a Guerra do Paraguai um tema ainda carente de maior amplitude do conhecimento histórico, além dos apelos insistentes para que eu fosse junto, resolvi aceitar.
Devidamente equipadas, enfrentamos uma viagem de avião, de ônibus e um trecho a pé, arrastando as malas até a fronteira entre as duas cidades de Bela Vista: a brasileira e a paraguaia. Entretanto, no terceiro dia, após respirar uma nuvem de poeira no caminho da Fazenda da Laguna, que na época da guerra era propriedade de Solano López, fui acometida por uma bronquite, que evoluiu para uma pneumonia. Quando me vi obrigada a abandonar a marcha por motivos de saúde, Maria Filomena se prontificou a retornar comigo, mas não o permiti. O entusiasmo dela com a experiência e o conhecimento do local era flagrante e não cabia a mim, como cultivadora do conhecimento da história e amante da literatura, impedir o despertar da criação literária da jovem iniciante.
Sua vaga ideia inicial de escrever sobre o tema enfocado evoluiu para a execução de um trabalho de pesquisa minuciosa, por meio de depoimentos diversos, até alcançar a escritura deste romance, que tem como pano de fundo a própria Retirada da Laguna: um livro que vem se tornando referência para quem se interessa pelo estudo da Guerra do Paraguai e/ ou pela literatura sobre o tema da guerra; uma narrativa que transporta o leitor aos locais, datas e personalidades históricas com precisão, por seguir com rigor os dados colhidos na pesquisa documental; uma bela história de amor que se desenrola no meio da guerra internacional mais sangrenta das Américas, que durou cinco anos e envolveu três países do Cone Sul, Brasil, Argentina e Uruguai, contra o Paraguai. Maria Filomena, após caminhar pelos mesmos campos, capões de mata, cruzar os mesmos rios e riachos que o grupo desfalcado de brasileiros famintos cruzou na guerra, descreve com precisão a geografia da região e traça os caminhos nela percorridos. Através dos contatos com especialistas militares que acompanharam a expedição, consegue conhecimento bélico sobre calibres, armas, manobras e canhões da época. E, por ter formação em medicina, a autora pode retratar com propriedade todas as doenças de então, como o beribéri, a cólera e a desnutrição, que na verdade foram as causas do maior número de mortes.
Por fim, realço aqui a capacidade de imaginação da autora de criar personagens tão sedutores quanto a sinhazinha Micaela, o espião Ângelo e o determinado capitão Santa Cruz, que teimam em permanecer na cabeça do leitor mesmo terminada a leitura. Cabe destacar que esta segunda edição ocorre após ter o livro merecido ganhar três prêmios relevantes: Fundação Conrado Wessel de Literatura 2002, Escritor Revelação e Prêmio Orígenes Lessa, para jovens, de 2003, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Além disso, Cunhataí foi objeto de análise em três teses acadêmicas de mestrado em Letras e três artigos acadêmicos, o que comprova a necessidade desta nova edição, à qual desejo sucesso!
Maria de Lourdes Viana Lyra
Historiadora, sócia titular do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)
Poucos desconfiaram do silêncio súbito dos pássaros.
Na manhã de sol fervente, as únicas sombras eram projetadas pelo voo sinistro dos urubus. Onze horas e tudo parecia calmo. Calmo demais. O guia farejou o perigo. Seu cavalo resfolegou, inquieto, mas não houve tempo para alertar o coronel.
De repente, como que saídos das entranhas da terra, surgiram furiosos os paraguaios, avermelhando os campos. Ouviram-se gritos guturais, urros terríveis! Fúria e medos ancestrais se apoderaram dos homens, que teriam de lutar ou morrer. Fugir? Impossível! A cavalaria paraguaia posicionou-se à frente e nos flancos, empurrando os brasileiros para o centro do descampado – comprimindo-os como um abraço gigantesco de tamanduá.
Atrás deles, as águas tranquilas do Apa serpenteavam na planície, indiferentes ao desespero dos homens. Bandeiras imperiais foram fincadas no chão, batalhões organizados às pressas para o combate, carroças e mulheres levadas para o centro. Sem cavalaria e sem possibilidade de obter reforços, formaram rapidamente um quadrado compacto de gente e armas à espera do ataque. Os quatro canhões La Hitte, direcionados para fora dos vértices do quadrado, eram os maiores trunfos da defesa.
O gado, apavorado com o estrondo do canhoneio, estourou. A refrega se fazia também homem a homem e muitos morreram pelos sabres e baionetas. O inimigo não perdeu o brio e lançou-se ao ataque com fúria e ímpeto. Na linha de frente, empilhavam-se corpos guaranis. Em 15 minutos, era uma carnificina. Muitas mulheres esconderam-se embaixo dos carroções. Uma delas, mesmo assustada, dispôs-se a enfrentar a balbúrdia da praça de guerra, expondo-se ao perigo e rasgando as próprias roupas para estancar o sangue dos feridos, que surgiam por todo lado. Desesperou-se ao ver a extensão do ferimento do soldado que caíra a seus pés.
Abaixou-se para ajudá-lo e, por isso, deixou de ser atropelada por uma rês que fugia disparada, saltando sobre eles naquele instante. Mais adiante, outros bravos tombavam, feridos. E era ali, na retaguarda, que as tropas se encontravam mais vulneráveis. A mulher atordoou-se com tanto barulho, gemidos, gritos e súplicas. Nesses momentos, os segundos duram horas e os minutos, uma eternidade. Tudo parecia mover-se em câmara lenta. Percebeu que a cavalaria escarlate, dividida em duas colunas, avançava pelas laterais para uma investida por ali. Para enfrentá-la, havia uma dúzia de soldados combalidos e as mulheres. Seria um massacre!
A mulher invocou a proteção de Deus e de todos os anjos que se haviam esquecido daquele descampado nos confins do país.
Era tarde!
Anos depois, esse episódio ficou conhecido como Batalha do Nhandepá – ou Anhan de Apá –, porque foi o ‘diabo no Apa’.
Coralina S. C. Fernandes
Colaboradora especial da Gazeta Pantaneira
Li o artigo e fiquei curiosa. Mais ainda quando vi o nome da autora: Coralina Fernandes, a velha amiga que me trouxe para este deserto, um lugar onde nada acontece!
Cora virou escritora? Uma colaboradora especial? E que batalha é essa? Que história é essa de que nunca ouvi falar? Curiosidade sempre foi meu maior defeito. A muito custo, saí da cama e do luto para tomar algumas providências.
Coralina. Se não fosse por ela não estaria aqui nesta solidão.
Odeio este lugar! Odeio! Não me peçam para descrever a natureza exuberante ou o lindo canto dos pássaros! Ao meu redor, só vejo macega rala e ridículas torres de cupim. É minha ilha, meu beco, minha prisão. Espaços há. Imensos e intermináveis, riscados de estradas poeirentas, a quilômetros de qualquer lugar.
Sou uma pessoa comum. Ou como uma pessoa comum deveria ser. Sempre gostei de música, de praia, de gente. Até fui uma mulher bonita, hoje sou apenas distinta. É o sol estúpido daqui! O frio cortante das madrugadas, o calor das tardes sem fim. A solidão.
Este lugar roubou meus melhores anos. Vinte e cinco. Desde que Coralina me apresentou ao fazendeiro Inácio Boqueirão. Com Inácio foi bom. Ele me chamava de rainha. Mas rainha de quê? Dos caipiras que preparam a comida? Das vacas prenhas nos pastos? Rainha da bosta de vaca é o que sempre fui!
Resolvi visitar Coralina. De caminhonete a São Miguel, não fica tão longe assim. Preciso saber que história é essa. O jornal fala da Guerra do Paraguai… O que Cora tem a ver com isso? Alguém ainda lembra ou se interessa por isso? Preciso ir. Sair um pouco deste quarto. Preciso conversar com alguém! Vou lá amanhã.
— Rosália, que surpresa maravilhosa! – ela foi logo dizendo, sorridente, ao me abraçar, na chegada. – Fez boa viagem? Como está a estrada? Que bom que você saiu da toca!
Nossa conversa fluiu como se o tempo não tivesse passado, como se fôssemos as mesmas colegas da faculdade de 30 anos antes. Ficou triste quando eu disse que iria vender a fazenda e que já tinha proposta e tudo. Mas compreendeu. Já que eu tinha ficado viúva… Perguntei sobre o artigo do jornal.
— O artigo da batalha? Você leu?
— É claro! Estou de luto, mas ainda leio jornais…
— É uma história comprida. Você tem tempo?
— Todo o tempo do mundo – respondi.
— Então senta na cadeira de palhinha, que é mais fresca. Vou mandar assar um bolo de queijo e trazer um mate gelado. Quer?
— Obrigada. Mas você não vai contar com aquele jeito de primeira da classe, né? – disse eu, lembrando das palavras empoladas que Coralina adorava colocar nos seus discursos e monografias e que eu detestava. Pior ainda se falasse com a entonação exagerada da época do teatro amador…
— Conto a história do jeito que tem de ser contada. É uma história especial. Está mesmo disposta a ouvir?
Claro que concordei. Depois de viajar três horas em estradas esburacadas, não podia fazer outra coisa. Além do mais, não tinha nada melhor para fazer. Ninguém esperava por mim.
— Então vai ter de pernoitar por aqui. O capataz pode se ajeitar no retiro com os vaqueiros. Que bom que você veio, Rosália! Estava mesmo com saudades das nossas conversas! Então, mando um rádio para avisar que voltam amanhã? Ou depois de amanhã?
— Mas que raio de história é essa que precisa tanto tempo?
— Como é? Aviso ou não?
— É claro que sim! Quer me matar de curiosidade?
Ela começou a contar.
Era um 15 de abril. O ano, 1865.
Os dias de outono eram sempre assim: ensolarados, estagnados, previsíveis. Micaela, bem cedo, atravessou a cozinha principal, a varanda dos fundos e desceu a escada de pedras irregulares até o chão de terra batida. Sair da casa-grande pela portinhola dos escravos era o caminho mais rápido para atingir seu refúgio matinal. Evitou a sujeira dos porcos, desviou-se das galinhas que ciscavam por ali até encontrar o caminho de pedriscos que cruzava o pomar e levava aos confins da propriedade da família.
— Que tanto ela faz no quintal? – cochicharam as mucamas.
— Passeá, ora uns! Passeá! E é pecado? – retrucou a cozinheira, enquanto pendurava as linguiças no fumeiro atrás do fogão.
— Pecado num é, mas que num é normal, tamém num é… Ir assim sozinha lá pro fundão… Fazê o quê? E todo dia! Daqui nem se vê quando ela vira pros lado do poço veio. A mãe num deve de sabê…
— Nem de gostá…
— Ocês num sabe de nada. Mió calá as matraca e trabaiá! – finalizou a velha cozinheira, com autoridade.
Alheia ao falatório na cozinha, a moça penetrava mais e mais no quintal até o ponto em que o terreno se alargava para um lado, terminando num muro baixo e bastante arruinado. Perto do poço tampado havia um banco de ferro, esquecido à sombra do bambuzal. Preferia refugiar-se ali com um livro, em meio a sabiás e bem-te-vis, a bordar com a mãe e as irmãs. No entanto, o ar abafado daquele dia não favorecia a leitura do romance. A atmosfera acachapante do início da manhã a incomodava.
Meteu-se pelo arvoredo. Árvores altas, algumas copadas, outras não, refrescavam o bosque. De repente, uma brisa cálida. O vento soprou de leve para, logo depois, encrespar-se. Há pessoas que fogem de uma simples corrente de ar, cerrando todas as janelas. Outras preferem a ventania. Micaela adorava o vento! Acreditava que ele podia varrer todas as tristezas, levando-as embora para longe. Como se marcasse um tempo diferente. Sem minutos ou horas. Simplesmente ventava. E agitavam-se as águas das poças, os galhos, as folhas, os cabelos, as saias, marcando uma espécie de fim e de começo. Vento era sinal de mudança. Depois da ventania, o mundo ficava diferente.
Lufadas passavam descontroladas e com mais força. Permaneceu em pé, com meio-sorriso no rosto, escutando a agitação do ar. Sozinha no meio do arvoredo, fechou os olhos e deixou-se ficar saboreando as rajadas que levantavam seus cabelos. Até o casarão colonial ganhava ares singelos visto assim, com cortinas brancas esvoaçando, projetando-se para fora das janelas. O vento entrava ali sem aviso e sem permissão, remexendo tudo. Na cidade plana, rodeada de campinas suaves, ele encontrava poucos obstáculos. Sem montanhas ou tabiques, varava todas as distâncias, penetrando em todas as trilhas, ruelas e quintais, vindo não se sabe de onde, indo para todo lugar. Onipresente. Desencontrado. Caótico. Um vento fresco e acolhedor. Nem o siroco quente do norte da África, nem o minuano frio vindo do sul. Vento bom. Vento do interior.
Ficou quieta e prestou atenção aos barulhos a sua volta. Em meio aos ruídos, atentou a que, naquele instante, os pássaros calavam e eram as árvores que cantavam. Galhos fortes, açoitados pelo vento, balançavam folhas e frutos, ora como simples chocalhos, ora como delicados guizos ou melodiosas cítaras. Os bambus, mais flexíveis, rangiam de forma lenta e melancólica, graciosos, determinando a marcação de um ritmo imaginário. As folhas secas alçavam voo a esmo, indo depressa formar rodamoinhos no ar. Então, nesse momento, ela compreendeu que as árvores não eram feitas apenas para darem sombras e frutos; estavam ali para serem regidas pelo vento. Fechou os olhos e escutou, nota a nota, toda uma sinfonia!
Após um tempo que ela não se ocupou em medir, o vento cessou, tão de repente como viera. Micaela abriu os olhos quando os pássaros recomeçaram a cantar. As árvores eram apenas árvores, novamente. Ao longe, ouviu alguém chamando por ela. Distinguiu a voz estridente de Ritinha gritando que a mãe a chamava para as compras da semana. Retornou cheia de energia para enfrentar a monotonia da vida e o enfado da rotina.
Naquela manhã fora tocada pelo vento! Vento de mudança.
Um céu despido de nuvens. O sol fustigando, inclemente. E o Paraguai ainda estava muito, muito longe…
Alpendres frescos: era o desejo da tropa, naquela manhã. Vindos da Vila de Jundiaí, marchando sob o sol forte do outono paulista, estavam cansados. Apenas quatro dias se haviam passado desde o início da viagem por terra, a partir de São Paulo. Vários soldados possuíam pouca ou nenhuma instrução de guerra. A maioria dos jovens oficiais provinha de turmas recém-saídas da Escola Militar da Praia Vermelha. Excetuando-se os comandantes e os oficiais mais graduados, oriundos em grande parte da Guarda Nacional e do Corpo de Polícia da Corte, a inexperiência predominava naquele grupo que partia rumo ao interior.
Fatigantes se tornavam as manobras mais simples. Intermináveis, as manobras do dia a dia, como encontrar lenha para o fogo, armar e desarmar barracas, lidar com animais de carga, preparar refeições, atos que o tempo e a repetição tornariam habituais. Por ora, apenas treinavam.
Bem diferente da viagem marítima no vapor Santa Maria, no primeiro dia. O trajeto Rio-Santos fora impregnado da despedida no cais. A presença do imperador D. Pedro II, acompanhado de seus dois genros, o Conde D’Eu e o Duque de Saxe, sob os acordes perfeitos da Traviata executada pela banda do Corpo Policial, às 2 horas da tarde, transformara a partida num acontecimento memorável. Chegaram, na manhã seguinte, a Santos e almoçaram no Hotel Millon. Subiram a Serra de Cubatão para o acampamento de São Paulo, entre quaresmas e cássias, sob o frescor de cascatas, nos vagões improvisados da ferrovia em construção. Os dias tranquilos na capital paulista contrastavam desde já com os percalços que ainda estavam por vir.
Na última parada, faltando um quilômetro para a cidade, os soldados aprumaram as fardas, poliram as fivelas e instrumentos musicais. Os uniformes formaram uma paisagem azul entremeada de céu. Aqui e ali, as armas, tubas e cornetas refletiam luz. Os cafezais ficavam para trás, e, entre paineiras cor-de-rosa e frondosos jequitibás, as forças expedicionárias em direção a Mato Grosso entraram em Campinas às 12 horas, com alarde.
A banda atraiu a gente da cidade que, entre surpresa e fascinada, a ela acorreu, aos borbotões. Disputados foram então os passeios e janelas da comprida rua Direita. Desde as primeiras casas da periferia, sem eira nem beira, passando por algumas com molduras em pedra portuguesa, até as adornadas com beiras em relevo e apliques rococós, todas exibiam seus moradores brandindo lenços e gritando vivas ao imperador.
O Exército Brasileiro constituía uma grande novidade. A cadência ritmada das músicas e passadas a todos impressionava. Era a guerra! E, ali, a guerra era um espetáculo!
Os sons da banda e o alvoroço da cidade facilitaram as coisas para o paraguaio. Ângelo esgueirou-se por uma esquina, afastou-se do alinhamento das tropas e da confusão até encontrar uma praça totalmente vazia. Vestiu o casaco de couro que sempre trazia na mochila, para esconder o uniforme imperial. A calça branca não chamaria a atenção. Escondeu a espada e a mochila atrás de uns arbustos, sentou-se no banco de madeira e esperou. Por pouco tempo.
O capitán Roque, seu velho amigo, aproximou-se puxando um tordilho pelo cabresto. Vestido em roupas de couro rústico típicas dos tropeiros, ninguém diria que representava uma das famílias mais antigas do Paraguai.
— ¡Buenos días, coronel mayor! – disse, em voz baixa.
— ¡Buenos, capitán! – Ângelo respondeu no mesmo tom, olhando em volta desconfiado, antes de continuar.
— Acá están las informaciones – e entregou a Roque um papel dobrado.
— ¿Ya llegarán los cañones?
— No. Están llegando. Vienen de Manaos. El calibre, le informaré después.
— El Mariscal espera informaciones con rapidez. Necesita saber cuantos cañones y qué tipo de armas tienen los imperiales. Cuenta con vos.
— Ya sé.
— Yo regreso a nuestra patria ahora. Si tienes más informaciones para hoy, átate el pañuelo rojo al cuello para hacer contacto otra vez.
— Sí, está bien.
— ¿Algún mensaje para tu abuela?
— Sí, que estoy bien.
— ¿Algo más?
— ¡Que Dios proteja nuestras familias, al mariscal y a la República del Paraguay! ¡Que todos cooperen con nuestra patria!
— ¡A sí sea! ¡Adiós, Zavirria! ¡Cuídate, Angelito!
Despediram-se com um discreto cumprimento de cabeças e já se afastavam quando perceberam um vulto levantar-se do chão e perguntar-lhes, em voz arrastada:
— Que história é essa de mariscal, hein? Num conheço nenhum…
Um homem bêbado, provavelmente um mendigo, tinha despertado de uma carraspana a tempo de ouvir trechos da conversa em espanhol. Debaixo de um banco, envolto em galhos baixos e sombras, não fora visto pelos espiões. Os dois paraguaios entreolharam-se, surpresos.
— Vosmicês tão falano ingraçado… É fala do sul? – perguntou o mendigo, enquanto tentava equilibrar-se de pé. – Qui é qui tem no Paraguai? Mariscal? Nome estranho, El Mariscal… – Mal acabou de falar, desabou no chão novamente.
Ângelo teve pena.
— Es solamente un borracho. Nadie le va a creer.
— Lo mismo, es muy arriesgado, coronel.
— Hace lo que sea necesario. Yo tengo que volver a mi puesto. ¡Adiós!
Antes do anoitecer, encontraram o corpo do bêbado entre os arbustos da praça.
Os brasileiros não sabiam, mas a Guerra do Paraguai, que acreditavam estar longe, perdida numa fronteira desconhecida a milhares de quilômetros dali, tinha chegado a Campinas.
Do eirado em que se encontravam, Micaela e a mãe D. Glorinha demoraram para ouvir a fanfarra. Havia um bom quarto de hora se ocupavam em escolher os melhores grãos de feijão e outras favas recém-debulhadas pelos empregados do primo. Desceram os degraus às pressas, lépidas, em direção à porta principal do armazém. Meio espremidas entre a multidão da calçada e os sacos de cereais, vislumbraram a coluna. A filha subiu num caixote e, afastando os salames e as linguiças que pendiam do teto, conseguiu enxergar mais detalhes. As lojas vizinhas ao empório do primo Deodato esvaziaram-se e até os proprietários se acotovelam, do lado de fora. O livreiro, boquiaberto, deixava pender o cachimbo para o lado. Os donos da charutaria e da papelaria confraternizavam, aos gritos, com os soldados. Muitos pareciam assustados, mas ostentavam um semblante altivo, cônscios de serem o alvo das atenções.
Sempre pela rua Direita, os soldados cruzaram o Largo do Rosário, da Matriz Velha, até o Largo de Santa Cruz, onde montaram acampamento. Os oficiais se espalharam pelas pousadas e pequenos hotéis das imediações. Os comandantes Drago e Miranda dos Reis já se encontravam hospedados, com seus ajudantes de ordens, desde a véspera, na casa do fazendeiro Duarte, o Tico, irmão de um major do Corpo de Permanentes da Corte. Em Campinas, esperariam despachos da pagadoria e das repartições fiscais, antes de seguirem viagem.
E assim seriam dois meses de festas!
Dona Glorinha se viu obrigada a puxar Micaela pelo braço. Ela permanecia simplesmente estática, mesmo quando a tropa já ia longe e dos sons da banda se ouviam apenas murmúrios esmaecidos.
— Vamos, minha filha!
— Mas mamãe, a senhora não achou lindo?
— É, lindo… Mas não é a Procissão do Divino e nem a da Coroação. Viste as armas? Feitas para matar! É a guerra, Micaela! E a guerra nunca tem um final feliz.
— Será que não vai haver nenhum baile, nenhuma homenagem?
— Com certeza. Vamos ligeiras para casa. Avisa os escravos para carregarem os mantimentos.
As idas ao empório do primo sempre traziam alguma novidade. A localização da loja, bem no coração de Campinas, como ele dizia com orgulho, e a freguesia variada transformavam o estabelecimento num centro de informações. Além dos mexericos, lá se falava sobre as tendências políticas, as notícias da Corte, os espetáculos do Teatro São Carlos e os falecimentos. Configurava-se como uma gazeta informal, o que o primo, impulsionado pelo aumento das vendas, sagazmente incentivava.
Deodato Pires de Almeida – ou Nhô Dato, como era conhecido pelos escravos –, bonachão e sorridente, sabia dizer exatamente as palavras certas, aos fregueses certos. Proseando, brincando e contando anedotas, tornou-se uma unanimidade em Campinas. Contudo, o que ninguém sabia – e os que o desconfiavam faziam ouvidos moucos – era que o primo, depois da meia-noite, após as lanternas e lampiões com fogo-fátuo se apagarem nas ruas e becos, abria a porta dos fundos do Empório Lusitano, na rua do Rosário, e permitia a entrada de um punhado de homens silenciosos. As reuniões se repetiam a cada dois meses; mas, em vigência de acontecimentos especiais, os participantes se sabiam automaticamente convocados a ali comparecerem.
Nos encontros secretos, o mote principal consistia sempre em críticas ao imperador, execração da escravatura e estratégias de mudanças. A guerra, então em pleno andamento, mobilizando tropas do Brasil inteiro, iria formar naturalmente um poder paralelo. Um exército forte, com generais respeitados e apoio das armas e dos súditos, poderia opor-se ao imperador. Em meio a elucubrações e devaneios, imaginavam uma chance de república. Todavia, mesmo com as aspirações nada monarquistas, naquela noite, no fim da reunião extraordinária, concordaram que, antes de qualquer fato novo, se fazia premente lutar contra o invasor. Era preciso vencer o Paraguai! Afinal, eram, acima de tudo, brasileiros e patriotas!
Nhô Dato consultou o relógio, apesar de os galos já anunciarem um novo dia. Em apenas duas horas seria preciso abrir o estabelecimento. Entrou na casa dos fundos, acordou o empregado Bento, entregou-lhe as chaves e dirigiu-se para o próprio quarto, resolvido a descansar um pouco. Naquelas primeiras horas da manhã, as beatas e os fregueses madrugadores de sempre teriam de se contentar com o ar amofinado de Bentinho, atrás do balcão. Pretendia dormir. Porém, uma inquietação não o deixava. Preferiu divagar e sonhar. Mas não o sonho dos sonos profundos, imaginação sem fundamentos ou consequência, de ideias vãs e incoerentes às quais o espírito se entrega; nem o sonho fútil, inconsistente, inalcançável. Almejava o sonho de opiniões das quais nos orgulhamos e que alimentamos com interesse, seguindo-as com paixão. Era preciso, pois, sonhar acordado e perceber que, apesar de remoto, muito distante mesmo, através do lento desenrolar da história, o futuro poderia ser diferente. Existia a esperança de um Brasil mais justo, imparcial e legítimo. Onde as pessoas adquirissem importância por seus méritos, seu trabalho, seu mourejar. Onde não houvesse a vergonha da escravidão. Nem o privilégio dos baronatos, condados ou ducados. Sonhava com a república e eleições, mesmo enxergando apenas um luzeirinho muito fraco no fim da mina escura.
Mas, enfrentar uma guerra? Como a história é traiçoeira! Que o conflito era inevitável, não havia dúvida. Que o país o lutasse e vencesse, desde que poupasse os seus. Os quase 2 mil quilômetros de distância do entrevero eram convenientes. Não os afetaria. E o sul de Mato Grosso devia ser desabitado. Não havia mapas detalhados, rotas comerciais nem simples trilhas de tropeiros conhecidas. O acesso a Cuiabá era feito por mar e depois pelo estuário e pela Bacia do Prata. O próprio imperador só conseguiu ser notificado da invasão paraguaia 47 dias após o ocorrido. Admitia que conhecia muito pouco a respeito daqueles confins. Mas alguém o conhecia?
As pálpebras pesadas venciam a resistência e, antes do abandono, pensou nas tropas que precisariam comer e beber, calculou os estoques do porão, os ganhos que poderia obter e, finalmente, feliz, adormeceu.
No dia seguinte ao desfile militar, a cidade já se organizava para as festas, com uma sucessão de jantares, piqueniques, partidas e saraus. Havia uma certa eletricidade no ar. As senhoras da sociedade, com suas filhas casadoiras, disputavam a honra de recepcionar a oficialada em seus salões. Vestidos e babados eram engomados, a prataria, polida, e uma incessante atividade reinava nas cozinhas, com o vaivém dos escravos. Os homenageados certamente se desdobrariam para comparecer a todos os eventos.
As autoridades anunciaram um concerto musical no luxuoso Teatro São Carlos. Os fazendeiros da região se dirigiram para Campinas, onde a maioria possuía residência, com o intuito de participar dos acontecimentos. Alguns mais abnegados ofereceriam seus préstimos, seus negros ou doações. Outros seguiriam motivados pela curiosidade pura e simples. Era a história que acontecia ali.
Naquela manhã, no sobrado do coronel Agostinho e dona Glorinha Ferreira Lima, as mulheres, que não eram poucas, sentiam curiosidade no seu mais alto grau. As escravas de quarto e de cozinha se juntaram, meio que de longe, ao falatório. Nesses momentos de balbúrdia verbal, o pai sempre se retirava aborrecido. Sentia-se completamente derrotado. Queriam saber de tudo!
— Micaela, foi bonito? E a banda? – perguntou Augusta.
— Mamãe, os oficiais são jovens? Estavam lá? – inquiriu Augusta.
— Dizem que alguns frequentam a Corte. Uns poucos têm acesso ao imperador! Será verdade? – insistiu Augusta.
— Calma, meninas! Não entendem que a situação é séria? Esses homens irão embrenhar-se por sertões desconhecidos, até os confins do Brasil, para lutar ou morrer. Isso se conseguirem chegar lá! Não é boa hora para mais nada.
— Mas, sinhá, o leiteiro contou hoje cedo que ouviu soldados proseando ontem à noite, lá pelas bandas da rua da Pinga. Eles tão pensando que vão demorar tanto pra chegar lá, que a guerra já vai ter acabado… Num tão com a menor pressa… – retrucou Ritinha.
— Conversas de rua não nos interessam, Ritinha. Todos desejamos que essa triste guerra termine logo, mas só Deus sabe o quanto vai durar. A opinião de alguns não indica a da maioria. Além disso, militar que prefere falar bobagens na rua da Pinga, em vez de se preparar para o combate, é militar morto!
Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela de Orleans Gonzaga e Bragança. O nome completo de Sua Alteza Imperial e herdeira de D. Pedro II inspirou dona Glorinha, e os nomes de suas filhas prestavam homenagens a ela: Maria Isabel, a primogênita já casada; Maria Cristina, que morrera ao nascer; Maria Leopoldina, que entrara para um convento; Maria Augusta, Maria Micaela e Maria Gabriela, ainda solteiras. De homens, havia os caçulas João e Pedro. Oito filhos. Como convinha a uma família católica e monarquista. Marias quase todas eram. O costume e a religião assim o determinavam. A maioria das meninas era consagrada à Virgem Maria. De acordo com a época do nascimento ou a devoção das mães, tornavam-se do Rosário, da Anunciação, da Conceição, das Graças, de Lourdes.
Porém, Maria Micaela Ferreira Lima só havia uma: um nome de princesa… E que ela detestava! Desde criança, demonstrava talento para brincadeiras de meninos. Adorava subir em árvores mais altas, montar a pelo e enfrentar uma boa briga. Tornara-se o filho que o pai desejara e até então não conseguira – só mais tarde os temporões João e Pedro nasceriam. Cresceu ouvindo os comentários das tias, das comadres e até das cozinheiras:
— Micaelinha é um azougue!
— Não há quem ponha arreio!
— Tal qual um sagui!
— Cuidado cu’ela!
— Vai ser difícil de casar…
De tanto ouvir isso e muito mais, ela realmente se comportava assim, porque era isso o que almejava ser. Era isso o que esperavam dela. Para enfurecê-la, bastava a chamarem pelo apelido odiado: Miquinha. Qualquer alusão a primatas desencadeava brigas, choros e sofridos desabafos.
— Mãe, por que escolheu esse nome tão horrível para mim?
— Seu nome é lindo, minha filha! Deriva de São Miguel, que é um dos anjos mais protetores. O mesmo nome de Sua Majestade!
— Não! Não é de princesa! É nome de macaca!
O pai, empertigado e geralmente sério, não convivia muito com os filhos. Micaela, determinada a quebrar-lhe a sisudez, de quando em quando ousava um diálogo.
— Pai, por que o senhor não é o imperador?
— Porque só existe um, D. Pedro II.
— Por que ele?
— Porque herdou o título de seu pai, D. Pedro I.
— Por que tem de haver um?
— Ora, porque é preciso! E chega de perguntas! Vá ajudar suas irmãs com a quitanda!
— Mas já está tudo pronto e armazenado.
— Então vá bordar!
As conversas com o pai, raras e curtas, terminavam sempre com a menção à cozinha ou ao bordado. Sua mãe e irmãs formavam um grupo de exímias bordadeiras. O enxoval confeccionado por elas para o casamento de Isabel igualava-se aos mais luxuosos da Corte. Micaela não sentia satisfação em bordar. Preferia cavalgar ou mesmo tocar piano. Em compensação, aproveitara bem as lições de francês com a professora europeia, numa temporada na cidade.
O tempo passou, a menina cresceu, a alcunha perdeu o sentido e caiu em desuso. Entretanto, por via das dúvidas, ela sempre repelia bananas com aversão…
Otenente de engenharia Ângelo Zavirría de Alencar espantou dois ratos quando abriu a porta do seu quarto no hotel do francês Case. Um cheiro de bolor pronunciado contaminou seu estado de espírito.
— Merde! E daqui para frente só vai piorar! – disse ele em voz alta.
O capelão de meia-idade, que seria seu companheiro de quarto, persignou-se no mesmo instante.
— Perdão, padre, mas este lugar fede e ainda tem ratos enormes! Será melhor acampar com a força no largo da capela.
O religioso, que já dormira em locais bem piores antes, tentou contemporizar:
— É só para dormir, tenente. Um pouco de resignação lhe cairia bem. Ou não gostas da companhia?
Sem desejar criar caso, Ângelo aquiesceu:
— Esse pensamento jamais me ocorreu, padre. O senhor tem razão. Prefere a cama da direita ou da esquerda?
O tenente, sempre que podia optar, escolhia dormir próximo aos padres. Essa atitude demonstrava para a maioria uma grande religiosidade de sua parte, já que as noites eram preenchidas por infindáveis orações. Porém, ele o fazia mais por precaução. Ângelo era um espião. Os frades costumavam ter o sono pesado e nunca o questionavam sobre suas idas e vindas nas madrugadas. Ainda havia os pesadelos, os sonhos aflitivos que o acompanhavam desde criança, uma sensação tão opressiva que o fazia falar, gritar. E, quando despertava, estava sempre molhado de suor. Era esse o maior perigo que corria no Brasil: ele falava durante o sono! E sonhava em guarani…
Seu país era bilíngue. Os costumes dos primeiros habitantes da terra se misturavam de tal forma com os dos colonizadores espanhóis que o idioma indígena, cheio de sonoridade, permanecera vivo como uma segunda identidade paraguaia. Há lindas melodias em guarani! E foram cantigas indígenas que embalaram o berço do tenente Ângelo Zavirría de Alencar, murmuradas pelas amas, assobiadas pelos empregados e cantadas a plenos pulmões nas rodas de violão e mate quente nas noites enluaradas do Paraguai. A língua que ouvira na mais tenra infância, através da qual estabelecera sua primeira ligação com o mundo e na qual balbuciara as primeiras sílabas, fixara-se como a língua mater, no seu coração. Ângelo, habitué das noites parisienses, gostava de xingar e seduzir em francês. Sonhar, só em guarani. E isso poderia ser sua perdição.
Com o avanço das tropas, novas ordens surgiam, novos batalhões se formavam e a tensão aumentava. O medo de ser descoberto, aliado à necessidade de enviar informações importantíssimas para su patria, a dificuldade em estabelecer contato com a cadeia de espionagem e o próprio dia a dia do ambiente militar aumentavam sobremaneira a pressão que sofria. Isso explicava a maior incidência de pesadelos. Ângelo tinha pai brasileiro, de pura linhagem lusitana, e mãe paraguaia, descendente dos espanhóis. Era também fluente nesses dois idiomas e familiarizado com ambas as culturas. Os dois anos em que frequentara a Escola Militar do Rio de Janeiro, sob a batuta do general Polydoro da Fonseca, constituíam um álibi perfeito. Entretanto, toda essa facilidade de penetração no Império o tinha levado a cair na armadilha: tornara-se um espião! Não porque desejasse, não por vocação, mas porque não havia nenhum outro. Maldita guerra! Malditos escravocratas! Malditos pesadelos que não podia controlar!
Da farmacopeia nativa, já havia provado quase tudo. Todos os chás, de todos os capins calmantes conhecidos: capim-limão, erva-doce, erva-cidreira e mais outros tantos ofertados por entendidos, ao longo da jornada paulista. Em Jundiaí, aceitara uma infusão diferente, que a filha mais feia do Barão da Ponte lhe indicara. O chá realmente funcionara. Dormira como uma pedra e tinha sido preciso acordá-lo com gritos e até chutes dos companheiros. Houve ainda uma tentativa de apelidá-lo de Tenente Soneca, devido ao episódio, mas, para alívio do paraguaio, a brincadeira não foi adiante.
Seu objetivo consistia em ouvir sem ser percebido, olhar sem ser visto, interceptar mensagens e observar manobras mantendo sempre um ar casual, desinteressado. Estar no centro das atenções era a última coisa que desejava. Já percebera um certo perigo no ar quando os dois mandões da artilharia começaram a lhe dirigir olhares tortos. Se suspeitavam de algo, ainda não haviam se manifestado. Todavia, o capitão Santa Cruz já o interpelara na ocasião do acampamento de São Paulo, quando, pela segunda vez, atara o lenço vermelho ao pescoço:
— Por que este pano no pescoço num calor desses, tenente? – E, já com uma leve dose de acusação no ar, completou:
— Não vês que não faz parte da farda? A cor rubra nem sequer pertence ao estandarte imperial! Que adereço mais estapafúrdio!
Disfarçando um aperto imediato na garganta e mantendo a continência, tentou ser o mais brejeiro possível:
— É coisa de quebranto, senhor. É simpatia das melhores, descoberta por minha mãe. Desde então uso o lenço vermelho, sempre que a bronquite ataca. Não penso em dar baixa sem ao menos enfrentar o inimigo! Veja, carrego também aqui comigo uns anéis de cascavel com o mesmo intuito. Mas um não faz efeito sem o outro…
Meio enojado com a visão dos restos da cobra, o superior fez ares de vencido e, num dar de ombros, liberou o oficial:
— Só não o deixes tão à mostra, tenente. Por enquanto é só. Dispensado!
Já entardecia quando Ângelo resolveu descer para a sala de entrada, onde também se serviam as refeições. Foi o primeiro a chegar para o jantar. Correu os olhos pelo aposento, examinando as paredes grossas de taipa, coloridas de verde pálido e enfeitadas com guirlandas miúdas, em tom sobre tom. Ao lado do sofá de palhinha trançada, um cesto com papéis impressos chamou sua atenção. Aqueles jornais velhos poderiam conter alguma informação útil. Entretido com a leitura, não percebeu quando os outros membros da Comissão de Engenharia começaram a chegar: primeiro o Fragoso, com um olhar meio perdido, meio sonhador, depois o Barbosa, mais apressado. Em seguida, entraram juntos o Chichorro da Gama e o Taunay. O primeiro, com sua magreza extrema e porte miúdo, e o segundo, com postura aristocrática e argutos olhos de nobre. O jantar era servido numa grande mesa redonda e todos já se encontravam sentados quando os capelães entraram. O cansaço e a má impressão das acomodações foram minimizados pela presença de madame Case, que, nesse momento, vinha da cozinha com um sorriso hospitaleiro, trazendo nos braços uma enorme travessa de ovos fritos na manteiga.
Mais mastigavam que falavam. E como comia o Chichorro! E como bebia água o Taunay! Após o jantar, Ângelo forçou uma tosse seca e retirou-se da mesa. Não pretendia acompanhar os demais ao teatro. Aguardou um pouco até ficar só, tirou o lenço vermelho do bolso, amarrou-o ao pescoço e saiu. Seguiu caminhando pelo Largo da Matriz, quando notou um vulto próximo. Imaginou se a pouca claridade do crepúsculo seria suficiente para o lenço ser visto. Logo obteve a resposta quando ouviu a senha:
— Sabes onde se encontra a mulher mais famosa de Paris?
— Na saleta decorada de um terceiro piso da Rive Gauche – respondeu, aliviado. Como não havia ninguém na praça, trocaram palavras sussurradas em espanhol:
— ¡Saludos, coronel mayor!
— ¿Paraguayo, como están las cosas en Asunción? ¿Sabes algo de mis abuelos? ¿Como están El Mariscal y madame?
— El Mariscal Francisco Solano López está muy bien, con todas las fuerzas a su comando. Nuestro ejercito continua muy fuerte, con los 40 batallones armados. ¡Somos 50 mil hombres ahora, señor! Sus abuelos están bien, creo, señor… Pero no tengo noticias de los últimos meses…
Ângelo notou uma entonação estranha na voz do homem e insistiu numa explicação.
— ¡Habla, hombre! ¿Que clase de peligro podrian pasar? ¡La verdad! ¡Exijo la verdad!
Como o paraguaio ainda hesitasse, ele gritou numa voz baixa, de tom grave, mas carregada de ameaças:
— ¡Hablá! ¡Vamos!
— ¡Los pyragüés, coronel mayor!
— ¿Pyragüés? ¿Que es eso? — Aquí en el imperio, los llaman alcahuetes, señor. ¡Tenemos un ejercito de ellos ahora en Asunción! Están en todas partes. Pueden ser los empleados de las mansiones, los mercadores, cualquiera. En las casas de los ricos, los sirvientes ahora están muy poderosos. ¡Si, denuncian alguna cosa sospechosa a la policía, los patrones pueden acabar siendo acusados de traidores de la patria y ser pasados por las armas! Si no los encuentran, fusilan las esposas, las madres, los hermanos.
— ¿Ya ocurrió algo así?
— Sí, pero en este sentido el gobierno tiene sus razones. ¡Es una guerra! ¡No se toleran traidores a la patria! No creo que sus abuelos estén en peligro. ¡Su importancia es muy grande para El Supremo!
— Muchas gracias, paraguayo. Toma la carta. ¡Y decí siempre a todos los encargados, de esta, que solamente puede ser abierta por las manos d’El Mariscal López! ¡Él mismo! ¿Lo entiendes? ¡Si hay peligro, quémala!
— Sí, señor.
— ¡Adiós!
Zavirría entregou-lhe a carta num movimento rápido e partiu. Já era noite, o que era muito bom. Começavam a acender os lampiões do outro lado da praça. Dirigiu-se ao hotel, subiu ao quarto, retirou as botas e deitou-se. Um dos padres roncava, na cama ao lado.
O que estaria acontecendo no Paraguai? Seis meses fariam tanta diferença? Ao despedir-se de Solano, em novembro de 1864, havia um clima de orgulho nacional em ebulição. Jantaram com a presença de madame Lynch e das crianças à mesa e depois foram degustar um porto, na biblioteca. Ângelo era considerado um membro da família. Sua lealdade jamais seria contestada. Então, por que se afligia? Em meio a baforadas do charuto, Solano lhe participara que estavam prestes a declarar guerra ao Brasil. E que havia uma missão especial para ele no Império. Recordava-se bem do diálogo:
— ¿Que voy a hacer en el país de mi padre, que ahora es nuestro enemigo? ¡Yo quiero vestir los colores del Paraguay!
— Acabo de nombrarte comandante en jefe del Servicio Secreto del país, Coronel Mayor Angelo Zavirría. ¡Vas a ser mi espía!
— Pero…
— Tienes el disfraz perfecto; hablas el idioma, tienes domicilio en la Corte de Pedro y documentos brasileños auténticos. Ahora… ¿Estás seguro que puedes traicionar al país de tu padre?
A Solano não havia a menor possibilidade de dizer não. Nem precisou pensar para responder:
— ¡Yo tengo toda la certeza de que soy y seré siempre leal al país de mi madre y abuelos que me criaron!
— Muy bien, creo en vos. Ahora, Angelito, las instrucciones, que son muy simples: cuando necesites hacer contacto, atas un pañuelo rojo en tu cuello y alguna persona te preguntará: “¿Sabes adonde vive la mujer mas hermosa de París?”. Y vos contestas… “¿Te acuerdas donde conocí a Elisa?”.
— ¿Esa sala pequeña en el tercer piso de la Rive Gauche?
— Sí, sí. Esta será tu contraseña.
A conversa então tomou um rumo mais ameno, à medida que charuto e vinho, num contraste agradável, acordavam o paladar e amorteciam os sentidos. Rememoraram a viagem de 1854 à Europa: Grã-Bretanha, França, Espanha, Prússia e parte da Itália. Era um séquito liderado por Solano, em nome do governo de seu pai, o presidente Carlos Antonio López. Com o respaldo de representarem um país que completava 40 anos de estabilidade interna, sem analfabetos, sendo grande exportador de erva-mate, tabaco e couro, com moeda forte para a compra de manufaturados de toda espécie, as portas da realeza europeia se abriram para eles. Foram recebidos com apreço e deferência e causaram boa impressão, principalmente pela figura engalonada e sedutora de Solano, que transitava pelos salões da Belle Époque expressando-se bem em francês e representando uma mistura exótica de refinamento e latinidade. A Corte de Napoleão III, em Paris, era então o centro mundial de cultura e entretenimento e, cumpridas as tarefas diárias da missão oficial, deleitava-se com banquetes, os melhores vinhos e proezas amorosas. Sem limite de fundos, Solano permitia-se as maiores extravagâncias.
Ângelo assustou-se com a luz do lampião quando o outro religioso, o padre Molina, entrou no quarto.
— Boa noite, meu filho. Não foi ao espetáculo?
— Boa noite, padre. Preferi descansar.
A cama rangeu quando o capelão ajeitou seu corpo pesado para dormir. Rezaram algumas orações. Que diria o padre se soubesse que ele rezava pelo Paraguai? Pelo menos era o mesmo Deus, o que colocava o Criador numa situação incômoda: a quem Ele atenderia, afinal? O que faria o Todo-Poderoso, diante desse impasse? Nessa hora, parecia ouvir a voz firme de sua abuela devota, dizendo: “Diós hace siempre lo mejor, m’hijo, aunque nosotros no logremos nunca entender…”.
A arquitetura do Teatro São Carlos, erguido no Centro, entre as ruas São José e da Constituição, não apresentava tantos adornos como os similares da Corte, mas era a construção mais luxuosa da cidade. Possuía três andares de camarotes equidistantes, com pequenas sacadas arredondadas e entremeadas de colunas gregas que circundavam toda a extensão do teatro até as bordas do palco. Os assentos das cadeiras eram estofados, as cortinas, fartas, em veludo grená, e o assoalho de tábuas largas brilhava. Tudo contribuía para criar uma atmosfera solene e suntuosa em torno da soirrée musical.
Os primeiros acordes do violino silenciaram a plateia, mas ainda se ouvia um leve farfalhar de sedas nos camarotes, onde as últimas damas se preparavam para escutar o concerto. Após a Banda Filorfênica de Campinas, do Juca Músico, outra pequena orquestra executaria trechos de óperas, inclusive alguns extraídos das obras Noite no castelo e Joana de Flandres, compostas pelo jovem e talentoso campineiro Carlos Gomes, então residindo em Milão.
O verdadeiro interesse do público estava na troca de olhares, no abanar frenético dos leques, nos discretos cumprimentos com a cabeça, no altear dos chapéus, em uma excitação contida que antecipava flertes e diversão. O número de mulheres quase se igualava ao de homens e os vestidos de gala produziam um colorido alegre, em tons pastéis. Para os militares, recém-chegados da acolhida um tanto fria dos paulistas, retraídos sobretudo em relação a viajantes, encontrar a efervescência de Campinas tornava tudo mais agradável. Em São Paulo não se viam mulheres nos teatros ou nas ruas. Adivinhavam-nas espreitando atrás de rótulas e gelosias, que no Rio de Janeiro tinham sido abolidas desde os tempos de D. João VI e onde as novas construções, incentivadas pela isenção de impostos, já eram de dois andares: amplos sobrados com janelas livres das fasquias de madeira entrelaçada. Mesmo em dias de procissão, as paulistas caminhavam tentando ocultar os traços, sob recatadas mantilhas negras. As ruas da capital possuíam uma certa melancolia provinciana, mal calçadas e vazias, embora largas e limpas, onde o silêncio só era interrompido pelo trote das montarias e pelo ranger das rodas das carroças. As festas eram poucas e raramente excediam a meia-noite. Era uma cidade que entediava os jovens e os poetas. O comedimento dos paulistas opunha-se à cortesia e comunicabilidade da sociedade de Campinas, cidade próspera, então com mais de 10 mil habitantes e uma atividade comercial em franca expansão. Lá, se fazia festa pelos mais frívolos motivos.
A família Ferreira Lima encontrava-se reunida no seu camarote habitual, no segundo andar, onde poderiam ver e ser vistos, dizia dona Glorinha, esperta e traquejada como era nos assuntos sociais. Estavam todos lá: o Marquês de Três-Rios, o Visconde de Indaiatuba, os Barões de Itapura, Anhumas, Ataliba Nogueira, Ibitinga e Atibaia, que frequentavam regularmente o teatro; e ainda alguns, vindos de outras cidades, atraídos especialmente pela ocasião, como os Viscondes de Itu e do Itaim e alguns nobres ilustres de Pindamonhangaba.
As regras de etiqueta e cortesia eram rígidas, moldando em seus pormenores as atitudes, os costumes e os trajes. As damas solteiras deviam trajar cores claras e com poucos e discretos enfeites, permitindo-se apenas algumas fitas, rendas e ramalhetes de flores frescas. Quando muito, tolerava-se um fio de pérolas, não mais, enfeitadas que já eram pela própria mocidade. Veludos, gorgorões, tafetás-glacês, sedas, cetins e plumas vestiam as casadas, que ostentavam nas grandes festas seus brilhantes e pedrarias. Ficava fácil distinguir as senhoritas. Essas mulheres da sociedade enfrentavam as armações de crinolina que sustentavam as saias-balão e a ditadura dos penteados de cachos. Nucas elegantes sempre deviam estar à mostra, e os cabelos, divididos ao meio e repuxados ao máximo até quase as orelhas, de onde saíam tufos de cachos, em profusão.
Augusta, Micaela e Gabriela ladeavam a mãe enquanto o pai, Isabel e seu marido sentavam-se na fila de trás. Augusta não se conformava com a aparência da irmã e lhe perguntou, em voz baixa:
— Micaela, por que não dormiste com os papelotes a noite passada? Estás horrorosa com este penteado de bandó, como a mamãe! Ainda por cima, esqueceste teu leque!
— Não adianta! Meus cabelos são rebeldes e os cachos não duram nada!
— E não podias passá-los a ferro como eu? Não são teus cabelos que são rebeldes, irmã! Tu és!
— Sossega! És a mais velha e não poso casar-me antes de ti. Tu tens de estar linda para arranjar marido logo, eu não!
— Psiu! – advertiu dona Glorinha, pedindo silêncio. – E olhem a postura!
Micaela, então, concentrou-se na música, que ela tanto apreciava, e distraiu-se, acompanhando a melodia enquanto tamborilava os dedos no veludo da sacada à sua frente. Foi assim que o capitão Ildefonso Santa Cruz a avistou pela primeira vez. Chamou-lhe a atenção a dama sem cachos, que, em vez de se esconder atrás dos abanos de um leque, acompanhava com as mãos a melodia lenta e arrastada que era executada naquele instante. Alheia ao burburinho da plateia, guiava-se por uma partitura invisível e tocava um piano imaginário. Lembrava-lhe as madonas renascentistas das pinturas dos museus europeus que percorrera – “Um quadro de Rafael, talvez? Não! Talvez um de…”. Mas, antes que concluísse o pensamento, a música terminara e ela irrompera em aplausos entusiásticos, de repente, num arrebatamento total e imenso que desfez completamente a imagem de serenidade e candura anterior. Que mulher seria aquela que, num minuto ausente de artifícios, deixava transparecer a mais pura inocência e, no outro, inflamada, aplaudia forte, com olhos aguados de emoção e um sorriso largo, enquanto aclamava os músicos e deixava escapar um grito de Bravo!?
Ficou intrigado. Precisava descobrir quem era ela. Soltar um grito de Bravo! constituía uma atitude eminentemente masculina e o capitão notou logo quando a mãe a repreendeu, obrigando-a a sentar-se. No ambiente fechado do teatro, iluminado apenas pela luz mortiça das velas, que mais escondem que revelam, mesmo assim, sob a pouca claridade em que se encontravam, viu-a enrubescer.
O concerto acabou sem baile, mas bastou para atiçar a curiosidade dos oficiais, ávidos por conhecer as donzelas. O capitão Santa Cruz seguiu caminhando devagar pelas ruas escuras. Ia distraído, alisando os fios do bigode espesso, à Napoleão III, até enrolar as pontas finas como sempre fazia quando se punha a pensar. Na esquina da rua do teatro com a rua Bom Jesus, perguntou ao tenente Gusmão, que caminhava a seu lado:
— Sabes se vai haver algum exercício ou manobra amanhã, tenente?
— Não. Nada. Mas baile vai haver…
— Onde?
— Na residência da família Queiroz. Creio que no Largo do Rosário.
— Só pensam em festas agora. Será que se esqueceram de que Cuiabá, a capital do Mato Grosso, está ameaçada de invasão pelo inimigo? – Antes que o tenente lhe respondesse, completou: – Já estão isolados há um bom tempo desde a tomada do Forte Coimbra e a invasão de Corumbá. Com a selva fechada a norte e a leste, Bolívia, e o próprio Paraguai a oeste, e bloqueados ao sul pelo único acesso que é o da Bacia do Prata, só contam com eles mesmos. Deveríamos estar a caminho para reforçar a defesa!
— De minha parte, capitão, fique tranquilo. Os homens e as armas estarão sempre prontos! Aguardamos a chegada dos canhões.
— As tropas do Amazonas e os 12 canhões devem chegar por estes dias. Reúna os homens amanhã às 9 horas para treinamento, orientação e recontagem da munição. A artilharia nunca ficará ociosa!
— Certo, capitão.
Os dois homens, que caminhavam lado a lado, com postura rígida, passadas largas e uniformes imaculados, conheciam-se de longa data e, apesar da diferença hierárquica, eram, acima de tudo, amigos. Por uma dessas coincidências do destino, haviam estudado juntos na Escola Politécnica de Karlsruhe, na Germânia, durante alguns anos. Como únicos brasileiros em toda aquela região, travaram fortes laços de amizade. Lá, adquiriram também algumas características germânicas, como um imperioso senso de dever, de hierarquia militar, e uma atração por trabalhos que exigiam força, energia, técnica e até uma certa brutalidade. Sem alardear suas ações ou sair gritando ordens a esmo, eles eram do tipo que trabalha ao lado dos subordinados com uma energia inquebrantável, desafiando as intempéries, a força da gravidade e o que mais dificulte o deslocamento dos seus canhões. Essa espécie de líder inspira em seus comandados uma profunda admiração e um sincero respeito. A cada dia que passava, os soldados da artilharia aprendiam que, atrás das ordens duras, mas coerentes; difíceis, mas inteligentes, estavam dois oficiais com quem se podia contar. No afã da batalha, seriam soldados como eles: bravos, com certeza; mas comandantes com razão.
O tenente Gusmão possuía um lado meio brincalhão. Era apreciador dos poetas germânicos e, nas suas tardes de folga, não se esquivava de recitar versos de Goethe, Schiller; ou de entoar canções de Bèranger. Já o capitão Santa Cruz não abria a guarda nem nos momentos de calmaria, quando nada acontecia naquela marcha que parecia a todos interminável, em direção ao Paraguai. A seriedade e a sisudez daquele homem, no início um motivo de troça, bem como o seu avantajado bigode, passaram a ser respeitados e quase compreendidos. Era um orgulho pertencer à artilharia! Entretanto, apesar da postura extremamente militar, Santa Cruz escondia sentimentos nobres, disfarçados atrás da farda e da patente e, a despeito da relutância em demonstrá-los, era capaz das mais gentis fidalguias.
A dupla encontrou uma certa dificuldade para identificar a pousada. A porta sem enfeites já estava fechada. A muito custo, a senhoria acordou para abri-la. Dormiram muito bem, como habitualmente faziam.
Na manhã seguinte ao concerto, já havia no sobrado um convite para uma festa na residência dos Queiroz. Dona Glorinha correu os olhos pela mesa do café da manhã.
— Ritinha! Ainda faltam a coalhada, o bolo de fubá e a gemada do seu senhor! Ande logo! Avie-se, menina!
A mesa era farta, como sempre. Numa época em que a fortuna de um homem se media em arrobas de café, os Ferreiras Limas, apesar de não pertencerem aos mais ricos, eram abastados e frequentavam a melhor sociedade. Na verdade, o pai de Micaela situava-se numa faixa mal definida de proprietários de terras, algo mais que um sitiante e menos que um barão do café. O sobrado de Campinas, na rua das Flores, fora recebido como dote de dona Glorinha, filha de um grande e rico fazendeiro. O dote incluía ainda algumas joias, 20 peças de linho branco, dois pares de castiçais, uma baixela de chá e seis bandejas em boa prata, uma dúzia de escravos e um lustre francês. Terra, não. Porque terra o barão não dava.
— Terra não se divide e não se vende! – ele alardeava. – Porque é dela que vem a força do homem! Terra, só depois de morto!
A família vivia então com os pequenos luxos da mãe e a fazenda modesta do pai. Dona Glorinha possuía talento para administrar as finanças e, pouco a pouco, assumiu esse assunto de vez. O pai cuidava da fazenda e da política. Havia muitas regras e uma hora certa para tudo. Assim, aos 14, 15 anos, as meninas deixavam de ir aos bailes de calças, recebendo um fio de pérolas e vestidos de tarlatana ou linho branco. Na ocasião do casamento, recebiam um broche de diamantes, duas peças de linho e um par de escravos de casa. A cozinha era bem abastecida pelos produtos que vinham da fazenda, e os excedentes eram vendidos para o mercado do primo. Tinham fama de tratar bem os escravos, tolerando os palpites das escravas da casa, permitindo aos do campo plantar o que quisessem para complementar a alimentação e impondo uma jornada de trabalho das mais justas para a época. Prendadas e econômicas, as mulheres da família substituíam as rendas e fitas dos melhores vestidos, na maioria brancos, que eram compartilhados pelas filhas. Dessa forma, mantinham-se sempre elegantes, alternando rendas de Bruxelas, de Chantilly e da Inglaterra ou mudando as cores das fitas de seda e cetim.
Mãe e filhas chegaram atrasadas ao sarau. “Para causar mais impacto”, dizia a matriarca. As danças já estavam a ponto de começar: primeiro, quadrilhas e, depois, contradanças francesas, intercaladas com valsas. As apresentações foram feitas às pressas. Logo, as irmãs Ferreiras Limas foram abordadas por alguns oficiais:
— Tenente Alfredo D’Escragnole Taunay, senhoritas, a vosso dispor!
— Ajudante de ordens Júlio Teixeira de Macedo, encantado!
— Tenente de artilharia Cesário Almeida Nobre de Gusmão, vosso criado!
Ao que as três irmãs responderam quase em uníssono:
— É um prazer conhecê-los, senhores…
As melodias de Donizetti, Rossini e Verdi deixaram de ser executadas e as danças começaram. Quando tocaram a quadrilha de Macbeth, a animação era tanta que já não havia dama disponível no salão. Até as senhoras de mais idade foram requisitadas pelos jovens militares para participarem da brincadeira. Trocando de par a cada instante, Micaela percebeu que apenas dois oficiais mantinham-se rijos e sós, um em cada canto do salão, ambos altos, sérios e parecendo encararem-se friamente. Um deles possuía um vasto bigode, cabelos castanhos e olhos azuis penetrantes, fixos no outro militar. Este, a princípio, sustentou o olhar, mas depois decidiu vaguear os olhos negros pela sala, como a fugir ou fingindo não perceber nada. Seus cabelos eram lisos, pretos e brilhavam sob a luz das arandelas. Micaela percebeu o macio daqueles cabelos de longe, sem nem precisar tocá-los, e sentiu um arrepio. Errou um passo da quadrilha, depois outro e mais outro, até que seu parceiro desistiu. Seguiu, então, para a sala das comidas e passou a observar os dois discretamente, enquanto bebericava um refresco. Entre travessas de fricassés, doces, gelados e sorvetes, examinava-o com olhar atento. Que mistério havia ali? Os dois homens notaram seu olhar persistente quase ao mesmo tempo e passaram a encará-la, curiosos. Enrubescendo intensamente e sem mais saber o que fazer com as mãos, Micaela estava a ponto de sair da sala quando o mais moreno veio em sua direção. Rapidamente, ele se apresentou:
— Tenente de engenharia Ângelo de Alencar, vraîment enchanté!
— Micaela Ferreira Lima, muito prazer.
— A senhorita prefere a rigidez geométrica das quadrilhas ou o lirismo poético das valsas, se me permite indagar?
— Eu, hum… Creio que as valsas.
