Sonata a Kreutzer - Liev Tolstói - E-Book

Sonata a Kreutzer E-Book

Liev Tolstoi

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Beschreibung

Sonata a Kreutzer   es una intensa exploración de la moralidad, las relaciones conyugales y la hipocresía social dentro del marco de la Rusia del siglo XIX. Liev Tolstói cuestiona las convenciones del matrimonio y la represión de los deseos humanos, abordando la tensión entre el amor idealizado y la realidad de las pasiones humanas. A través del monólogo de Pozdnyshev, el protagonista, la novela examina la lucha interna entre la razón y los instintos, revelando las complejidades del deseo, los celos y la culpa. Desde su publicación, La Sonata a Kreutzer ha sido reconocida por su audaz crítica a las normas sociales y su incisiva exploración psicológica. Su análisis de la opresión dentro del matrimonio y la influencia de la moral dominante sigue suscitando debate, consolidando su lugar en la literatura universal. La obra continúa resonando con los lectores por su mirada implacable a los conflictos entre la naturaleza humana y las imposiciones culturales. Su relevancia perdurable radica en su capacidad para exponer las contradicciones de las relaciones humanas y los dilemas éticos que surgen en la búsqueda de la verdad y la libertad personal. Al cuestionar las estructuras que rigen la vida conyugal y la sexualidad, La Sonata a Kreutzer invita a la reflexión sobre las tensiones entre la moralidad, el deseo y la autonomía individual.

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Seitenzahl: 163

Veröffentlichungsjahr: 2025

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Liev Tolstoi

SONATA A KREUTZER

Título original:

“Крейцерова соната”

Primeira edição

Sumário

INTRODUÇÃO

SONATA A KREUTZER

POSFÁCIO

INTRODUÇÃO

Liev Tolstoi

1828 – 1910

Liev Tolstoi foi um escritor e filósofo russo, amplamente considerado um dos maiores romancistas de todos os tempos. Nascido em uma família aristocrática em Tula, na Rússia, Tolstoi é mais conhecido por seus épicos Guerra e Paz (1869) e Anna Kariênina (1877), que retratam com profundidade a complexidade da sociedade russa, da história e da psicologia humana. Suas obras posteriores refletem sua busca moral e espiritual, influenciando movimentos de resistência não violenta e pacifismo em todo o mundo.

Primeiros anos e educação

Liev Tolstoi nasceu na propriedade de Yasnaya Polyana. Órfão desde cedo, foi criado por parentes e recebeu educação formal na Universidade de Kazan, embora tenha abandonado os estudos sem se formar. Após um período de vida boêmia em Moscou e São Petersburgo, serviu no exército russo durante a Guerra da Crimeia (1853-1856). Essas experiências moldaram profundamente sua visão de mundo, levando-o a explorar temas como guerra, destino e moralidade em suas obras.

Carreira e contribuições

Tolstoi iniciou sua carreira literária com Infância, Adolescência e Juventude (1852-1856), obras semiautobiográficas que revelavam sua profunda sensibilidade psicológica. No entanto, foi com Guerra e Paz que consolidou sua grandiosidade, combinando eventos históricos, reflexões filosóficas e narrativas pessoais para criar uma visão panorâmica da sociedade russa durante as Guerras Napoleônicas. Anna Kariênina, outro de seus grandes romances, explora temas como amor, família e os limites impostos pela sociedade, contrastando a trágica queda de Anna com o despertar espiritual de Liévin.

Na década de 1880, Tolstoi passou por uma transformação moral e religiosa radical, renunciando ao luxo da aristocracia e adotando um estilo de vida ascético. Suas obras posteriores, como A Morte de Ivan Ilitch (1886) e Ressurreição (1899), abordam dilemas existenciais e éticos, criticando a religião institucionalizada, a injustiça social e o materialismo.

Impacto e legado

Além da literatura, Tolstoi tornou-se um influente pensador social, defendendo a vida simples, a não violência e o anarquismo cristão. Suas ideias inspiraram líderes como Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr., influenciando movimentos de paz e resistência civil. Seu rompimento com a Igreja Ortodoxa Russa e suas visões radicais levaram à sua excomunhão, mas sua influência moral e intelectual perdurou.

As obras de Tolstoi continuam a ser estudadas por sua profunda investigação da natureza humana, da história e da filosofia. Sua habilidade incomparável de retratar a vida interior de seus personagens, aliada à sua visão histórica abrangente, garante seu lugar como um dos escritores mais importantes da literatura mundial.

Em 1910, em busca de uma vida de solidão e realização espiritual, Tolstoi deixou Yasnaya Polyana. Durante sua jornada, adoeceu e faleceu em uma estação de trem remota em Astápovo. Sua morte marcou o fim de uma era, mas sua influência sobre a literatura, a filosofia e os movimentos sociais permanece imensa. Hoje, Tolstoi é reverenciado como um mestre da narrativa e um pensador visionário, cujas obras continuam a inspirar gerações de leitores e ativistas.

Sobre a obra

A Sonata a Kreutzer é uma intensa exploração do ciúme, da moralidade e da natureza do amor e do casamento. Nesta novela, Liev Tolstói critica a instituição do matrimônio e analisa as consequências destrutivas da paixão descontrolada e da hipocrisia social. Através da confissão de Pozdnyshev, o protagonista, a narrativa mergulha no tormento psicológico causado pela suspeita e pela possessividade, questionando as concepções tradicionais de amor e fidelidade. Inspirada na Sonata a Kreutzer de Beethoven, a obra utiliza a música como símbolo tanto de beleza quanto de turbulência emocional, amplificando a tensão da trajetória trágica do protagonista.

Desde sua publicação, A Sonata a Kreutzer tem gerado intensos debates devido às suas visões controversas sobre relacionamentos, sexualidade e o papel da mulher no casamento. A crítica contundente de Tolstói ao desejo e sua defesa da castidade desafiaram as convenções morais da época, levando à censura do livro em diversos países. Apesar — ou justamente por causa — de seu caráter provocativo, a novela permanece uma obra fundamental da literatura mundial, oferecendo uma análise crua e implacável das emoções humanas e dos dilemas éticos.

O impacto duradouro da obra reside na sua capacidade de confrontar o leitor com verdades desconfortáveis sobre o amor, o poder e a autoilusão. Ao expor os aspectos mais sombrios das relações humanas, A Sonata a Kreutzer convida à reflexão sobre os conflitos entre as expectativas sociais e as convicções individuais, tornando-se uma leitura instigante e atemporal.

SONATA A KREUTZER

I

Estávamos no princípio da Primavera. Havia dois longos dias, e uma não menos longa noite que viajávamos de comboio.

Em todas as estações, passageiros entravam ou saíam do nosso compartimento. Por fim ficaram só três viajantes: uma senhora de meia-idade, feições envelhecidas e feia, de cigarro na boca, gorro na cabeça, e um casacão de corte masculino; um amigo alegre que aparentava quarenta anos, com bagagens novas e elegantes; e, afastado de todos, um homem baixo, de movimentos nervosos; não era velho e os cabelos embranquecidos antes de tempo, ainda se conservavam ondulados. Tinha uns olhos brilhantes e de extrema mobilidade. Vestia um casaco coçado, com gola de cordeiro e com a marca de um bom alfaiate; na cabeça, gorro alto da mesma pele. Sob o casaco, quando o desabotoava, via-se colete comprido e blusa russa bordada.

Tinha ainda outra particularidade. De vez em quando, soltava sons estranhos que se assemelhavam a um soluço ou a um riso abafado.

Durante toda a viagem não dirigiu a palavra a qualquer dos passageiros. Lia, fumava, ou olhava pela janela; bebia chá, comia pão com manteiga que tirava de um saco velho de couro.

Se lhe dirigiam a palavra, as respostas eram breves e secas e o seu olhar ia perder-se na paisagem fugidia. Notei, contudo, que a solidão lhe pesava. Tentei, por várias vezes, falar-lhe.

Parecia adivinhar o meu pensamento, e quando os nossos olhares se encontravam — o que era frequente, pois ocupávamos lugares fronteiros — desviava o olhar e enfronhava-se na leitura. Ao cair da noite o comboio parou numa estação importante. O senhor de cabelos brancos desceu para ir buscar água a ferver e fazer chá novo.

O homem das malas novas e elegantes — um advogado — desceu com a sua companheira para ir ao bufete tomar uma chávena de chá.

Novos passageiros subiram, um velho alto com a barba feita de fresco e a fronte sulcada de rugas, um negociante sem dúvida — envolto numa pelica de lontra, a cabeça coberta por um boné de grande pala. Sentou-se no lugar em frente da companheira do advogado e entabulou imediatamente conversa com um rapaz novo, tipo de caixeiro-viajante, que entrara na mesma carruagem e na mesma estação.

Eu estava perto deles e com o comboio parado pude ouvir alguns trechos da conversa... Falaram da viagem, do comércio, de uma pessoa que ambos conheciam e, por último, de Nijni-Novgorod.

O caixeiro quis contar o casamento de um negociante conhecido de ambos, mas o velho interrompeu-o para descrever as pândegas em que outrora tomara parte em Kounavino. Evocava essas recordações com certo desvanecimento, persuadido de que essas histórias em nada prejudicavam nem o seu brio nem a sua dignidade. Orgulhoso dessas façanhas contava, como um dia, em Kounavino, estando embriagado, se entregara a tal orgia, que só ao ouvido podia ser contada. O caixeiro, ao ouvir a confidência, riu desabaladamente e, o velho, ria também, mostrando dois dentes amarelados.

A conversa não tinha interesse para mim. Desci para desentorpecer as pernas enquanto não dava o sinal da partida.

Na gare encontrei o advogado e a sua companheira, conversando animadamente.

 — Não se demore — disse ele — , o comboio vai partir. Efetivamente, mal eu atingira a cauda do comboio, deram o segundo sinal.

Quando subi para a carruagem, o advogado e a sua cliente prosseguiam a conversa animadíssimos. O velho negociante sentado em frente deles não dizia uma palavra, olhando-os com ar severo e desdenhoso. Quando eu passava, o advogado dizia, sorrindo:

 — Ela então declarou ao marido que não podia, nem queria, continuar a viver com ele, tendo-se dado o caso...

Não ouvi o resto. Passava o revisor e entravam mais passageiros. Restabelecido o silêncio, ouvi novamente a voz do advogado, e pareceu-me que a conversa se desviara, de um caso particular, para considerações gerais. O advogado observava que, a questão do divórcio interessava hoje toda a Europa e que na Rússia, os casos eram cada vez mais frequentes. Sorriu ao notar que era o único a falar e, voltando-se para o comerciante, perguntou-lhe:

 — Era questão que não existia nos bons tempos de outrora, não é verdade?

O comboio pôs-se em movimento. Sem responder, o velho descobriu-se, persignou-se, murmurou uma oração em voz baixa, enterrou o boné até às orelhas e disse:

 — Existia... mas menos. Hoje não pode ser de outro modo. As pessoas instruem-se de mais.

O advogado replicou. Mas o barulho do comboio, que aumentava de velocidade, impediu-me de perceber. Aproximei-me cheio de curiosidade para ouvir a resposta do velho. A conversa parecia interessar também o meu vizinho — o senhor de olhos brilhantes — que prestava toda a atenção, embora não abandonasse o seu lugar.

 — Que culpa tem a instrução? — perguntou a senhora, esboçando um sorriso. — Era melhor o casamento quando os noivos mal se conheciam? — continuou ela, respondendo: — hábito frequente entre as mulheres — não aos argumentos apresentados mas àqueles que podiam ter sido.

 — Amavam-se? Poder-se-iam amar? Não o sabiam. A mulher desposava o primeiro que aparecia e habilitava-se, assim, a uma vida de tormento. Isto era preferível? — concluiu, dirigindo-se, mais ao advogado e a mim, do que ao velho com quem principiara a discussão.

 — Nos nossos dias há demasiada instrução — repetiu o velho, respondendo à pergunta e olhando desdenhosamente.

 — Gostava de ouvi-lo explicar a ligação entre a instrução e as desavenças conjugais — disse o advogado, disfarçando um sorriso.

O comerciante ia responder, mas a senhora interrompeu-o:

 — Esse tempo acabou.

 — Permita que este senhor exponha as suas ideias — disse o advogado.

 — Todas as tolices vêm da instrução — disse o velho em tom categórico.

 — Como podem entender-se pessoas que se não amam? — apressou-se a perguntar a senhora, olhando para o advogado, depois para mim e para o caixeiro que, de pé, encostado ao banco, seguia, sorridente, a discussão.

 — Só os animais se podem acasalar, segundo a vontade do dono; os homens têm as suas inclinações, as suas simpatias — disse ela com a intenção de ferir o negociante.

 — É um erro, minha senhora — disse o velho. — O animal é um animal; ao homem foi dada uma lei.

 — Mas como pode o homem viver sem amor? — replicou a senhora, convencida que emitia ideias originais.

 — Modernismos — teimou o velho. — Outrora não se pensava em tal.

Hoje, à mais leve questão, a mulher moderna declara ao homem que o deixa; e até as camponesas atiram com as camisas e as peúgas ao marido para se lançarem nos braços de outro homem, por ter o cabelo mais frisado... De que servem palavras? O dever da mulher é respeitar o marido, o único sentimento que a mulher deve sentir é o temor.

O caixeiro olhou para o advogado, para a senhora e para mim, reprimindo um sorriso, pronto a ridicularizar ou a aplaudir as palavras do comerciante, segundo a nossa atitude.

 — Mas que temor? — perguntou a senhora.

 — Eu explico... “As mulheres estejam sujeitas a seus maridos".

 — Meu caro senhor, esse tempo já Ia vai...

 — Não tanto como parece, minha senhora. Eva, a primeira mulher, nasceu de uma costela do homem e assim permanecerá até ao fim do mundo.

Disse isto, sacudindo a cabeça, num gesto tão triunfante e tão severo que o caixeiro lhe concedeu os louros da vitória, fazendo ouvir uma sonora gargalhada.

 — Eis a maneira de os homens julgarem — disse a mulher, não querendo dar-se por vencida. — Querem a liberdade para si e a escravidão para a mulher. Aos homens tudo é permitido, não é assim?...

 — O homem é outro caso...

 — É essa a sua opinião?...

 — Ao homem tudo é permitido?...

 — Ninguém diz tal. O mau comportamento do homem não atinge a família. A mulher é frágil como o vidro — continuou ele. O calor das suas palavras convenceu os que o ouviam; mas a senhora não se deu por vencida e continuou: — No entanto a mulher é pessoa humana, tem sentimentos como o homem. Que há-de fazer, se não amar o marido?

 — Não amar o marido?... — gritou o velho. — Aprenderá a amá-lo. Não receie...

Esta conclusão imprevista encantou o caixeiro que teve um murmúrio de aprovação.

 — Engana-se. Nunca aprenderá. O amor não se impõe.

 — E se a mulher enganar o marido? — perguntou o advogado.

 — É questão que se não pode pôr — disse o velho. — Esteja-se atento.

 — Mas se, apesar de tudo, o fato se der? São coisas que podem acontecer...

 — Noutros meios isso pode acontecer; no nosso não — disse o velho.

Todos se calaram. O caixeiro parecia agitado; aproximou-se mais e não querendo deixar de tomar parte na conversa disse com o seu eterno sorriso:

 — Um dos meus amigos foi vítima de um escândalo bem triste. A mulher, leviana, começou a fazer das suas. O marido era instruído e sério. O primeiro amante da mulher foi o caixeiro-viajante O marido tentou levá-la ao bom caminho, admoestando-a brandamente. Ela não fez caso e desceu o máximo; começou a roubar-lhe dinheiro. Ele bateu-lhe. A situação agravou-se. Entregou-se a um judeu e depois a outros... Que podia ele fazer? Expulsou-a de casa, de uma vez para sempre.

Ela agora corre mundo e ele vive solteiro.

 — Era um imbecil — disse o velho. — Se ele tem sabido domá-la desde o princípio ainda hoje a teria em casa. É preciso ter sempre as rédeas altas, em casa, à mulher, na estrada ao cavalo.

Neste momento entrou o revisor para controlar os bilhetes, antes da próxima estação. O velho entregou o seu e continuou:

 — Pode crer, as mulheres devem ser refreadas a tempo, de contrário está tudo perdido.

 — Isso não impede que se divirta com as raparigas bonitas de Kounavino — disse o advogado, com um sorriso irônico.

 — O senhor afasta-se da questão — replicou friamente o comerciante e manteve-se num silêncio absoluto.

Daí a pouco ouviu-se um apito agudo. O comboio parava. O velho ergueu-se, embrulhou-se na pelica, levou a mão ao boné e desceu.

II

Apenas o velho saiu, travou-se animada conversa.

 — Um homem do Velho Testamento — disse o caixeiro.

 — Um verdadeiro Demostoroi — disse a senhora. — Que ideias atrasadas sobre o casamento!...

 — Estamos ainda longe de ter sobre o casamento as ideias do resto da Europa — disse o advogado

 — Não é possível fazer compreender a esta gente — interrompeu a senhora — que só o amor consagra o casamento e, que, só o casamento consagrado pelo amor é realmente legítimo.

O caixeiro sorria atento, desejando reter na memória, quanto possível, estas inteligentes opiniões, para as emitir em ocasião oportuna.

No meio da tirada da senhora, atrás de mim, ouviu-se um som semelhante a uma gargalhada ou a um soluço. Quando me voltei vi o meu vizinho, o senhor solitário de cabelos brancos e de olhar brilhante que, aparentemente interessado, se tinha aproximado, durante a discussão, sem que déssemos por isso.

Estava de pé, apoiando as mãos no estofo do banco, visivelmente comovido, a face congestionada e estremecendo-lhe um dos músculos.

 — Que amor é esse que consagra o casamento? — perguntou.

 — Que amor?... — repetiu a senhora. — O amor conjugal que santifica o casamento. O verdadeiro amor. Se esse amor existe entre o homem e a mulher o casamento é possível.

 — Está bem. Mas o que entende por verdadeiro amor? — disse timidamente o senhor de olhar brilhante, com um sorriso contrafeito

 — Todo o mundo o sabe! — disse a senhora, declaradamente desejosa de interromper a conversa.

 — Pois eu desconheço tal amor — disse o senhor — e gostava que me explicasse o que entende por verdadeiro amor.

 — Como?... É uma coisa bem simples — disse a senhora. E refletindo um instante acrescentou: — O amor é a predileção exclusiva de um homem ou de uma mulher pelo indivíduo de sexo diferente.

 — Por quanto tempo essa predileção? Por um mês? Por dois dias? Por meia hora? — perguntou o senhor de cabelos brancos, desatando a rir.

 — Quer dizer — interveio o advogado, designando a senhora — que o casamento deve ter origem numa afeição, no amor, se você quiser, e, que, se realmente o amor existe, e somente nesse caso, o casamento tem alguma coisa de sagrado. Compreendi o seu pensamento, minha senhora?

A senhora aprovou com a cabeça este esclarecimento.

 — Depois disto... — retomou o advogado, seguindo o curso do seu raciocínio. Mas o primeiro senhor, que tinha agora os olhos brilhantes e se continha com manifesta dificuldade, sem deixar o advogado acabar, começou:

 — Eu falo precisamente dessa predileção de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem entre todos ou todas. Mas pergunto simplesmente: Predileção por quanto tempo?

 — Por quanto tempo? Por muito... por toda a vida... — disse à senhora, sacudindo os ombros.

 — Nos romances, talvez. Na vida real, nunca. É muito raro essa preferência durar anos. Na maioria dos casos, dura meses, semanas, dias, ou mesmo horas.

Ele sabia que estas opiniões, evidentemente, espantavam todos e sentia-se satisfeito.

 — Não, não é verdade — disseram todos. O próprio caixeiro-viajante teve um gesto de aprovação.

 — Eu sei... Os senhores falam do que deveria ser. Eu falo do que realmente é. Todo o homem sente o que os senhores chamam amor, por qualquer mulher bonita.

 — É horrível o que o senhor diz. O amor existe, e dura, não só meses, não só anos, mas toda a vida.

 — Não. Não é verdade. Mesmo admitindo que um homem prefira uma mulher toda a vida, essa mulher preferirá outro. Foi sempre assim e assim continuará a ser.

Pegou na cigarreira, tirou um cigarro e acendeu-o.

 — Mas a reciprocidade existe — disse o advogado.

 — Não. É tão impossível como encontrarem-se num vagão cheio de grãos, dois grãos previamente marcados. Amar um homem, ou amar uma mulher toda a vida é teimar que uma vela acesa pode arder eternamente — concluiu ele, aspirando avidamente o fumo do cigarro.

 — Mas o senhor refere-se somente ao amor carnal. Não admite o amor nascido da comunhão de um mesmo ideal, de afinidades espirituais? — disse a senhora.

 — Afinidades espirituais?... Comunhão de ideal? — repetiu ele, emitindo o gemido que lhe era peculiar. — Ter o mesmo ideal não é razão para ter o mesmo leito.

 — Os fatores provam o contrário — disse o advogado. — O casamento existe, não só entre nós, mas na maioria dos povos, e, muitos casais vivem durante muito tempo unidos e felizes.

O senhor de cabelos brancos riu novamente.

 — Perdão. O senhor afirmou que o amor é a base do casamento. Eu emito a dúvida da existência de outro amor, que não seja o amor sensual e o senhor dá-me como prova que o casamento existe. Mas esse casamento no nosso tempo não é senão uma impostura.

 — Perdão!... — disse o advogado. — Eu disse que houve e há ainda casamentos.

 — De acordo. Mas porquê? Porque há ainda pessoas que consideram o casamento como um ato sacramental, um laço perante Deus. Para aqueles que assim pensam, o casamento existe realmente. Mas só para esses.

Entre nós os homens casam sem considerar o casamento outra coisa que não sejam benefícios materiais ou de ordem sexual; e a ligação tende então ou para a fraude ou para o constrangimento. Quando é fraude é fácil de suportar...

Então o marido e a mulher procuram fazer acreditar aos outros que vivem em monogamia quando, de fato, vivem na poligamia ou poliandria. É repugnante. Mas quando isto acontece, e dá-se muitas vezes, tomam como obrigação exterior viverem juntos toda a vida, quando desde o segundo mês se odeiam, nesse tremendo inferno que leva muitos ao suicídio, à embriaguez, a fazer desaparecer, e envenenar o companheiro ou a companheira — isto disse o senhor de cabelos brancos apressadamente, sem dar tempo a que ninguém abrisse a boca e entusiasmando-se cada vez mais.

Todos se calaram. Ninguém estava à vontade.

 — De fato há momentos de crise na vida conjugal — disse o advogado para interromper uma conversa mais acalorada do que conveniente.

 — Você reconheceu-me, pelo que vejo — disse o senhor de cabelos brancos com uma voz delicada e apaziguadora. — Não. Não tenho esse prazer.

 — Não deve ser grande o prazer. Eu sou Pozdnychev, que atravessou na sua vida conjugal um desses momentos de crise a que você fez referência; momento tão crítico que matei a minha mulher — disse ele, fitando rapidamente cada um de nós.

Ninguém encontrou palavras para responder; todos se calaram.

 — E o mesmo — disse ele, produzindo aquele som mistura de soluço e de gargalhada. — Perdoem-me, não quero incomodá-los!

 — De maneira nenhuma. Esteja a sua vontade!... — disse o advogado sem saber ao certo porque dizia aquele «à vontade".

Mas Pozdnychev virou-se bruscamente e foi de novo sentar-se no seu lugar. O senhor e a senhora começaram a cochichar. Eu estava sentado, ao lado de Pozdnychev e conservava-me calado, sem saber o que havia de dizer.

Havia já pouca luz. Fechei os olhos, fingindo que queria dormir. Chegamos assim à estação seguinte.

Durante a paragem o senhor e a senhora passaram para uma outra carruagem; tinham previamente combinado a mudança com o revisor. O caixeiro instalou-se comodamente e deixou-se dormir...

Quanto a Pozdnychev, não parava de fumar e beber chá, que havia preparado na estação anterior. Quando abri os olhos e olhei para ele, voltou-se subitamente para mim e com um ar ao mesmo tempo resoluto e exasperado perguntou-me:

 — Certamente lhe é muito desagradável ficar sentado ao pé de mim, sabendo quem eu sou. Se você quiser, vou-me embora.