Amor Crioulo - Almeida Botelho - E-Book

Amor Crioulo E-Book

Almeida Botelho

0,0
5,99 €

oder
-100%
Sammeln Sie Punkte in unserem Gutscheinprogramm und kaufen Sie E-Books und Hörbücher mit bis zu 100% Rabatt.

Mehr erfahren.
Beschreibung

Abel Botelho nasceu em Tabuaço, pequena vila da Beira Alta, a 23 de Setembro de 1854, e faleceu em Buenos Aires, como ministro da República Portuguesa, em 1917. Frequentou o Colégio Militar. Iniciando-se na carreira das armas como simples soldado raso, foi galgando os mais altos postos do Exército, tendo chegado a coronel. Entre outras funções, exerceu a chefia do Estado-Maior da Primeira Divisão Militar (Lisboa). Pertenceu a várias agremiações (Academia das Ciências, Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses, de Lisboa e do Porto, Associação da Imprensa, Sociedade Geográfica de Lisboa, etc.), e foi como um dos delegados dessa última agremiação que esteve em São Paulo, em 1910, por ocasião de um congresso de Geografia. Em 1911 é nomeado ministro da República (embaixador) em Buenos Aires, onde falece em 1917, cargo de grande importância pois a Argentina foi o primeiro país a reconhecer a República Portuguesa após a instauração republicana em 1910.Sua carreira literária, começou-a em 1885, com um livro de versos chamado Lira Insubmissa.No ano seguinte, lança Germano, drama em cinco actos, em verso. Proposta à direcção do Teatro Nacional, esta peça foi recusada. Originou-se uma polémica, por causa do artigo que Abel Botelho dirigiu aos responsáveis pela sua não aceitação. Daí em diante escreverá outras peças de teatro: Jacunda (comédia em três actos; 1895), Claudina (estudo duma neurótica; comédia em três actos, representada no Teatro do Príncipe Real de Lisboa, na festa artística da actriz Lucinda Simões, a 18 de Março de 1890), Vencidos da Vida (peça satírica, representada a 23 de Março de 1892 no Teatro do Ginásio; três actos), Parnaso (peça lírica, em verso, em um acto, escrita para a récita de estudantes, em benefício da Caixa de Socorros a Estudantes Pobres, realizada no Teatro de São Carlos, em 3 de Maio de 1894), Fruta do Tempo (comédia, escrita para a actriz Lucinda Simões; 1904). Sendo de assunto em geral escabroso, delicado, como pedia o Naturalismo, essas peças causavam agitação, especialmente Imaculável, que terminou em arruaças e apupos, e Vencidos da Vida, que não pôde prosseguir em cena pelo que continha de crítica ao grupo literário com o mesmo nome, e por ser considerada imoral, criando-se uma polémica entre Abel Botelho e os responsáveis pela proibição.Em 1891, Abel Botelho inicia o estudo da sociedade portuguesa na série "Patologia Social", que deveria ser o exame exigente e científico dos males gerais que infestavam Portugal, sobretudo Lisboa, capital e centro urbano de maior prestígio. O primeiro é O Barão de Lavos (1891), supostamente o primeiro romance em português com um enredo homossexual. Seguiu-se-lhe O Livro de Alda (1898), Amanhã (1901), Fatal Dilema (1907), Próspero Fortuna (1910). Além desses, deixou mais três romances: Sem Remédio… (1900), Os Lázaros (1904), e Amor Crioulo (incompleto e póstumo (font:Wikipedia).

Das E-Book können Sie in Legimi-Apps oder einer beliebigen App lesen, die das folgende Format unterstützen:

EPUB

Veröffentlichungsjahr: 2015

Bewertungen
0,0
0
0
0
0
0
Mehr Informationen
Mehr Informationen
Legimi prüft nicht, ob Rezensionen von Nutzern stammen, die den betreffenden Titel tatsächlich gekauft oder gelesen/gehört haben. Wir entfernen aber gefälschte Rezensionen.



Amor Crioulo

Almeida Botelho

I

Naquela tarde mormacenta de fevereiro, João da Silveira embarcára em Lisboa, no Almería, com róta à America do Sul. Considerava-se um sem-pátria, agora, na sua bôa e amorável terra, sôbre cujo manso e carinhoso seio não fumegavam senão escombros; terra perdida e maldita, pelo jacobinismo vermelho do 5 de Outubro abalada nos seus fundamentos e furtada criminosamente ao seu destino. Todo o ambiente tradicional em que havia sido criado, êste parasitário rebento do vélho regímen vira-o derruir de roda de si com estrondo. Crenças, privilégios, isenções, benesses e preferências, tôda essa contrafeita armadura de iniqùidade e obscurantismo que sustinha ainda de pé a combalida ficção monárquica, tudo rolára desfeito, num epilepsiado arranco, numa comoção formidável, enquanto invadia ferozmente o espaço em tôrno um caótico fumo de confusão e de treva... e a visão inquieta do futuro envôlta num tôrvo mistério, como um polvoréu de ruína. Tudo lhe havia quitado descaroávelmente esta estúpida idéa da Rèpublica: os cincoenta mil reisitos que êle, mensalmente, ia ou mandava com tôda a pontualidade receber, a título dum amanuensado hipotético na Junta do Crédito Público; as bôas graças da sua apetecida noiva, a Laurita, filha dum acaudalado burguês e pelo pai abominávelmente educada, a qual agora, com o Afonso Costa no poleiro, já cantava tambêm de papo; e até,—o seu pensamento hipócrita rematava,—e até as nobres, as suavíssimas côres da bandeira de seus avós, êsse azul calmo e êsse branco ingénuo, símbolo irrefragável da alma nacional, ora via suplantadas por um vermelho de açougue e um verde de curral, duas tonalidades irreconciliáveis, duas côres ásperas, irritantes, heréticas, como punhais, como blasfémias. Durante os primeiros meses da Rèpublica, João da Silveira, como tantos outros, conspirou. Aquecia-lhe a alma êste vago sebastianismo solapado no íntimo de todo o bom português, acicatava-lhe o desejo a gulosa lembrança daqueles magros cobres orçamentais que, somados ao activo do seu escasso património, lhe serviam a governar sofrivelmente a vida. Assim, na sua ferina hostilidade contra o novo regímen, concorriam simultâneos a alma e o estômago, uma predilecção ancestral e um instinto devorista. E foi certamente esta dualidade antinómica de inspirações que, embora visando ambas o mesmo fim, cardou a sua actuação de conspirador de todo o carácter excessivo. Porque êste cauto Silveira firmou várias adesões e compromissos, fez nutrida propaganda verbal entre os rústicos, prontificou-se a recrutar gente, enviou mesmo algum dinheiro; mas sem arriscar-se nunca pessoalmente no campo da luta militante. Após a frustrada incursão de Chaves, não quis mais. Os seus 40 anos previsores e calculistas haviam grado em grado esmoitado, na gafa estrutura moral dêste malogrado d'Artagnan, o espírito de aventura. Vendeu a sua reputada vinha do Pinhão, arrendou a linda quinta da Folgosa com o solar «de sete capelas», seu fidalgo berço natal e residência muito em conta quando em apuros de dinheiro; à noiva escreveu «que a sua dignidade, em briga com o seu amor, o forçava àquele exílio doloroso»; e aí o temos agora dobrado com indolência sôbre a amura do Almería em marcha, vergado o busto, as mãos pendentes ao abandôno, evitando olhar o manso deslise da cidade donde sentia que lhe vinha um frio vento de repulsa, com as pálpebras froixas seguindo, em baixo, o rasgar da prôa pela limosa torrente caudal do rio, e os lábios vorazes vagamente encrespados na voluptuosa antevisão do Desconhecido. Primogénito dos três filhos dos Silveiras Lôbo, de Mosteirô, o pequeno João fôra criado com tôdas as mimadas preferências e tôda a jactanciosa despreocupação dos antigos morgados. Todos os perniciosos desvíos lhe havia consentido o dissolvente meio familiar e êste odioso prejuízo educativo, todos: desde o achincalho, o abandôno burlão dos mestres, até ao abuso feudal das raparigas. Daí que, resultando uma organização inadaptável ao trabalho e um carácter voluntarioso e cego, o Silveira havia consumido o melhor da sua vida ou bambochando em saborosas sensualidades, ou luzindo em bárbaras pimponices, porêm um mísero hóspede sempre da pura emoção, sempre refractário às reacções da alquimia ideal do sentimento. Alto, forte, moreno, com uns negros olhos dominadores e uma estrutura apolínea, entretanto no seu belo rosto varonil espatinava-se a tinta de vulgaridade que imprime às fisionomias de hoje a dureza, a ausência do sentir. Pronto sempre e álerte ao galanteio, à volúpia, à brutalidade, ao prazer, nunca até àquele momento se sentira capaz duma paixão que o arrancasse a si mesmo, que montasse o seu egoísmo e as suas ambições tacanhas, que lhe pusesse asas na vontade e lhe espiritualizasse o desejo. Nutria um tédio altaneiro pelos aspectos triviais da vida,—êste tédio que é o triste apanágio das almas sem vôo, dos corações vazios. Jàmais consentira intimidades e votava, pelo geral, aos homens um desdêm cortês, às coisas uma indiferença amável. Podia ser assim na medida do seu critério material, o mais feliz dos homens, de vida rolando e fluindo suavemente como um exercício de patinagem, se não tivera a furuncular-lhe, como uma fatalidade ancestral, a crôsta da alma empedernida, o culto ardoroso, despótico, incessante, bárbaro, da mulher. Era êste o flanco vulnerável do seu

Lesen Sie weiter in der vollständigen Ausgabe!

Lesen Sie weiter in der vollständigen Ausgabe!