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O quarto poder em rede não tem nada de doutrinário, nem mesmo dessa nova superstição ou religião dos TIC, que se apresenta como uma fraternidade de iguais. Em vez disso, enfrenta as contradições e obstáculos e perigos, como pode ser o de uma nova desigualdade que esgace a sociedade ainda mais. Por isso a de Victor Sampedro, a quem tanto devemos, porque ensina sem dominar, é o olhar da Arce. De nossa Arce. Obrigado. E ande a roda!
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Veröffentlichungsjahr: 2019
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Coleção SOÑOS TEIMOSOS I
© Víctor Sampedro
© do prólogo: José Miguel Sardo
© da edição: Abooksolutions, s. l.
© da tradução ao português (RAG): Vítor Meirinho
© da revisão: Vítor Meirinho
Conceito editorial e design: Niko Alvarellos
Diagramação: José Luis Loureiro e Niko Alvarellos
Coordenação editorial: Uxío Novoneyra Rei
Edita: Abooksolutions, s. l. Abooks® www.abooks.es
Impresso na Galiza por Alvarellos, S.L. Aprint®,
para Abooksolutions, s.l. Abooks®
Interior sobre papel Coral Book white de 90 gr. em interior
Capa sobre cartolina gráfica Carta íntegra de 285 gr
Desenho por meio de Indesign, Illustrator, Photoshop, e as tipografias PT Sans e Serif de Alexandra Korolkova, Olga Umpeleva e Vladimir Yefimov em 2011 para o projeto «Public Types of Russian Federation» de Paratype e Langdom de Steven Bonner para XLN Telecom em 2013
Primeira edição: setembro, 2015
ISBN livro impresso: 978-84-15045-47-2
ISBN epub: 978-84-15045-51-9
Depósito legal: PO- 603-2015
Licença creative Commons de atribuição não comercial
eBook by ePubMATIC.com
Aos meus pais, Juan e Teresa
O ELOGIO DA INDIGNAÇÃO
“Lucidez, desobediência, ironia e obstinação”, em 1939 o escritor francês Albert Camus resumia os quatro “mandamentos” do jornalista, num manifesto contra a censura, nas colunas do jornal Soir Républicain, em Argel. “É difícil hoje em dia evocar a liberdade de imprensa sem ser etiquetado de extravagante, acusado de ser Mata-Hari, ou que alguém tente convencer-nos que somos o sobrinho de Estaline”, afirmava o então chefe de redação do quotidiano, num editorial proibido pela censura e resgatado dos arquivos em 2012 pelo jornal Le Monde1.
A ironia. As palavras de Camus e a respectiva censura parecem ressoar, mais de setenta anos depois, no eco das revelações de Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden. O soldado Manning, cuja “extravagante” mudança de sexo está, no entanto, longe da analogia com Mata-Hari, foi condenado a 35 anos de prisão por traição e espionagem, após ter contribuído para a exposição de alguns dos episódios mais obscuros, no Iraque e no Afeganistão, da era da luta contra o terrorismo iniciada após os atentados de 11 de setembro de 2001. O antigo informático da CIA e da NSA Edward Snowden, ao revelar as consequências da mesma luta contra o terrorismo sobre a privacidade e as liberdades de milhões de internautas, foi obrigado a procurar refúgio em Moscovo, onde recentemente um antigo agente do KGB sugeriu mesmo a possibilidade de que o programador teria trabalhado como agente duplo para a Rússia. Julian Assange, o fundador do sítio Wikileaks, que divulgou as informações de Manning e Snowden, assim como outros documentos secretos norte-americanos (Dossiês da Síria ou das políticas de detenção nos EUA), longe de ser “sobrinho de Estaline”, continua hoje “recluso” sob a proteção da embaixada equatoriana em Londres com o apoio de países como a Venezuela ou Cuba, quando é visado por um mandado de captura europeu por alegados abusos sexuais na Suécia. Os factos revelados pelos “denunciantes” (whistleblowers) acabaram por ser diluídos em polémicas distantes da verdadeira dimensão das suas fugas de informação. Tanto a América como a Rússia parecem querer reduzir as revelações a mais um escândalo de espionagem dos tempos da guerra fria. Uma equipa de cerca de 200 funcionários do Pentágono teria sido mesmo mobilizada para lidar em permanência com as revelações e as pressões contra o Wikileaks, enquanto em Moscovo, Snowden e Assange eram convidados a colaborar com algumas empresas e media nacionais, como se a única contribuição dos programadores informáticos se resumisse a um novo capítulo da luta ideológica contra o “imperialismo” norte-americano.
Nesta visão deformada tanto por apoiantes como por detractores, fenómenos como a plataforma cooperativa de hackers “Anonymous”, criada para proteger o sítio Wikileaks de eventuais ataques, ou a moeda digital inventada para assegurar o financiamento do sítio da internet face ao boicote de vários bancos, o “Bitcoin”, foram igualmente distanciando-se do seu contexto original para terminarem relegadas a esse território da chamada “Internet obscura” –Darknet– onde o activismo se confunde com o banditismo e a denúncia com a teoria da conspiração. Em paralelo, os movimentos sociais desenvolvidos sobre as novas plataformas digitais de debate e partilha de informações a partir de 2010, inspirados pelas denúncias e métodos do Wikileaks, parecem sofrer o mesmo assédio e desgaste. O regresso ao poder dos partidos islamitas e das figuras próximas dos regimes derrubados na Tunísia e no Egito após o entusiasmo em torno das revoluções árabes “seculares”, a ineficácia da revolta na Síria em conseguir derrubar Bashar Al-Assad, os protestos no Bahrain abafados pelo regime apesar da mobilização nas redes sociais ou a forma propagandística como a revolta dos separatistas no leste da Ucrânia foi transformada numa nova luta simbólica contra o fascismo e os “nazis” de Kiev, são alguns dos exemplos que explicam este aparente descrédito da revolta digital como nova ferramenta de cidadania e contra-poder. Os movimentos sociais de “indignados”, do 15M espanhol do início da década, passando pelo movimento italiano de Beppe Grillo, à recente revolta dos guarda-chuvas em Hong Kong contra o controlo de Pequim, mostraram também que a “revolução” pode ser mediatizada, nos velhos e novos media, sem conseguir fazer com que o sistema político se vergue à lógica das multidões digitais. O movimento “ocupa Wall Street”, no seu combate contra as desigualdades sociais concentradas no slogan dos 99%, não conseguiu evitar juntar mais uma décima ao seu estandarte. Anos depois dos primeiros protestos frente à bolsa em Nova Iorque, e apesar da filantropia “redentora” de milionários como Warren Buffet ou Bill Gates, as desigualdades acentuaram-se ainda mais nos EUA quando, segundo alguns estudos, as maiores fortunas do país representam agora apenas 0,01% da população.
A obstinação. É neste contexto de aparente desilusão que o livro de Víctor Sam-pedro se torna de leitura essencial, para recordar que o processo iniciado com as revelações do sítio Wikileaks está longe de estar caduco e que a revolução –“cavalo de Troia” ou “bug” do sistema– pode ainda estar em curso. O professor catedrático de Opinião Pública e Comunicação Política analisa a forma como o chamado “hacktivismo” criou um novo paradigma de “contra-poder”, na rede e em rede, que contribuiu quer para a crise do sistema politico e económico, quer para a crise dos meios de comunicação social. “Os hacktivistas questionaram a raiz do sistema político e informativo do século XX. E mostraram a perversão dos ideais pelos quais deveríamos trabalhar. Propõem-nos que participemos numa esfera pública de acordo com a nossa capacidade para atuar como sujeitos comunicativos e políticos de pleno direito”. Para o autor, a “troika” Manning, Assange e Snowden, representa as três fases simbólicas da lenta degradação de um sistema onde os jornalistas se contentaram em ser meros intérpretes do poder político e económico junto do público, quando as possibilidades oferecidas pelos novos meios digitais parecem dar uma nova oportunidade às massas “adormecidas” do século passado de voltarem a influir na História, pelo seu próprio punho. A revelação dos documentos do Pentágono, dos telegramas diplomáticos das embaixadas norte-americanas, do sistema de espionagem da NSA em colaboração com os gigantes da Internet, ou mais recentemente, dos titulares de contas em paraísos fiscais (Offshoreleaks) e da forma como o Luxemburgo permitiu reduções fiscais a grandes empresas ao mesmo tempo que afirmava combater a fuga ao fisco (Luxleaks), expôs a forma como o segredo de Estado podia servir apenas para camuflar as contradições do poder, distante do interesse público. Recentemente Assange afirmava numa entrevista: “Fundamentalmente acredito que a Internet pode pôr fim à assimetria de informação imposta pelos poderosos ao resto do mundo. Este é o sentido do nosso combate. Inverter a transparência: não cabe ao Estado saber tudo sobre os cidadãos, mas aos cidadãos saber tudo sobre o Estado”2.
Sampedro retrata esta cidadania reencontrada ou recuperada, entre a falência da moral das instituições e as ferramentas tecnológicas que permitem denunciar erros, cruzar dados e verificar as informações de comunicados, sondagens e mesmo artigos de imprensa. Um processo no qual as fugas de informação desmentem as declarações oficiais e onde a citação deu lugar à verificação e ao “fact-checking” (verificação de factos). Neste retrato, os “hackers” que piratearam as verdades oficiais –com a mesma intensidade dos ataques informáticos DDOS que frequentemente bloqueiam sítios Internet de governos, empresas e instituições– são apontados como os navios quebra-gelo que “abriram fissuras numa imprensa congelada, incapaz de exercer o contra-poder”. As máscaras de Guy Fawkes da população anónima pretendem desmascarar os poderosos, enquanto Assange parece carregar a “máscara de ferro” com que se condenavam, em tempos remotos, os mais perigosos opositores do Estado.
A Desobediência. Mas a crítica do autor à forma como os meios de comunicação social tradicionais foram apanhados desprevenidos no turbilhão de revelações que descredibilizou o sistema político, económico e financeiro, parece ignorar a revolução paralela que se operou nos últimos anos em grande parte das redações mundiais, na sombra da chamada crise dos media. É verdade que a combustão lenta do papel de jornal e a transição para o digital, como acontecera antes com o aparecimento da rádio ou da televisão, limitou-se, numa primeira fase, a uma simples transposição das velhas fórmulas para as novas plataformas. O combate de vários meios de comunicação contra o serviço informativo do Google, para lá da questão legítima dos direitos de autor, parecia antes de mais querer evitar uma evidência a cada nova pesquisa no motor de busca: o pluralismo dos media terminava sempre desmentido na longa lista de artigos com títulos semelhantes, a maior parte das vezes com os mesmos telexes de agências de informação. Os comentários dos leitores, único espaço de interatividade, chegavam mesmo a ser suprimidos, na Internet, na ausência de moderadores para filtrar os conteúdos mais ofensivos ou simplesmente conduzir os debates. Mesmo as redes sociais como o Twitter, surgida em 2006, perguntava aos seus utilizadores “o que estás a fazer?” antes de modificar, anos depois, a interrogação para “o que está a acontecer?” Ao fenómeno mais visível dos “cidadãos-jornalistas”, que aparentemente pulverizava o criticado “monopólio” dos jornalistas sobre a informação, sucedia outro fenómeno, dentro das redações: o dos jornalistas que reencontravam ou reatavam a ligação com a comunidade, através das novas plataformas tecnológicas. Uma mudança igualmente geracional, como a que se operava nas ruas contra as medidas de austeridade, contra ditaduras ou contra os esquecidos das promessas da sociedade de consumo. A nova geração de cidadãos e jornalistas que chegava às redações, do início do século ao virar da primeira década, encontrava-se face ao mesmo dilema que os jovens que se manifestavam nas ruas, vítimas de um sistema em transformação, sem conseguirem renovar a “agenda informativa”, impôr os seus pontos de vista, nem alargar as fontes para melhor retratar um mundo de protagonistas até então anónimos. Esta divisão ilustrada pela separação entre os jornalistas “tradicionais” e “nativos digitais” foi celebrizada pelas duas redações do jornal Washington Post, irreconciliáveis até 2009, de cada lado do rio Potomac. O processo de “integração” das redações e gerações distintas de jornalistas representa o início dessa revolução dentro das redações, antes mesmo das primeiras revelações protagonizadas pela equipa e a comunidade formada em torno de Assange.
Mas, como sublinha Víctor Sampedro, o sítio Wikileaks, cujo Wiki remete para um dos primeiros projetos de enciclopédia participativa do século –a Wikipedia, criada em 2001– representa um dos primeiros exemplos de jornalismo comunitário à escala global. Se a comunidade de Assange reunia já “hackers”, “denunciantes” e jornalistas de todo o mundo, desde a sua génese, o modelo acabaria por influenciar quer os seus primeiros parceiros mediáticos –The Guardian, New York Times, El Pais, etc– quer os chamados “pure players”, os novos meios de informação digitais surgidos na viragem da década. O “crowdsourcing”, uma nova forma de apelo a testemunhas e fontes a participarem numa investigação jornalistica –como o projeto lançado pelo jornal The Guardian já em 2009 para analisar as revelações sobre as despesas dos deputados britânicos3– consolidou-se com as revelações do Wikileaks como ferramenta de inclusão do público no processo de construção de uma notícia. O “crowdfunding”, apelo a doações de internautas para custear reportagens ou novos sitios internet de informação, utilizado pelo Wikileaks para garantir a sua sobrevivência e independência, impôs-se igualmente como um modelo de financiamento de novos canais de informação menos dependentes da publicidade “mais próximos da missão de serviço público do que do simples público-alvo”. Um dos exemplos deste novo panorama mediático que melhor integrou a fusão entre jornalismo tradicional (seguindo os mandamentos de Camus) e jornalismo digital é o sítio internet francês Mediapart4. Criado em 2007 pelo antigo diretor do jornal Le Monde, Edwy Plenel, sem publicidade e financiado pelos leitores, o “sítio” francês parece dar resposta à questão levantada por Sampedro: “a crise dos media não corresponde a um problema de procura –nunca se consumiu nem se comentou tanta informação– mas de oferta”. O site, que festejou recentemente os 100.000 assinantes é uma plataforma de colaboração entre leitores, denunciantes, programadores informáticos, jornalistas e especialistas e um reconhecido exemplo desse regresso do jornalismo de investigação que denuncia fraudes, destapa escândalos, em nome do interesse público. Os milhares de documentos secretos revelados em catadupa pelo Wikileaks, de 2010 a 2012, cada um com o seu lote de informações prontas a ser contrastadas com as verdades oficiais, aumentaram a desconfiança e a curiosidade de público e jornalistas, na sombra de Assange. Uma mudança de paradigma e de método de colaboração ilustrada por sítios internet como o norte-americano ProPublica, primeiro meio de comunicação online a vencer o premio Pulitzer em 2011, graças às suas reportagens de investigação. Depois de Assange, o “leaks” de “Wikileaks”, como antes o “gate” do escândalo “Watergate”, tornou-se um novo sufixo para assinalar a supervisão do poder e a defesa dos valores democráticos através da contra-informação, o contra-poder. É assim que assistimos, depois das filtrações do Wikileaks, às revelações de milhares documentos do “Offshoreleaks” ou do “Luxleaks” a partir de 2013, protagonizado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas, que reúne atualmente jornalistas de investigação de mais de 60 países. À frente deste “G60” que reivindica a herança do primeiro sítio de fugas de informação criado por Assange encontra-se o jornalista Gerard Ryle, curiosamente também de origem australiana como o fundador do Wikileaks. A cada nova revelação, o Consórcio reúne-se durante vários dias para analisar os dados recolhidos e ensinar os seus membros a trabalhar com as novas ferramentas digitais que garantem não só a proteção informática das suas informações, mas também a forma de organizar e pesquisar os milhares de ficheiros disponíveis, bem como cruzar informações e as competências de cada um dos seus membros. O Wikileaks como forma de vigiar as derivas dos poderes, com a autoridade, os métodos e a representatividade de um conselho permanente de supervisão ao nível global. A globalização da cidadania em defesa dos direitos humanos universais. Uma nova dinâmica ilustrada igualmente, em Espanha pelos diversos projetos lançados pela Fundação Civio, como o sítio internet “Quién Manda”5, que reúne jornalistas, programadores e cidadãos anónimos para cartografar as relações entre empresários e políticos no país.
As novas ferramentas tecnológicas que permitem pesquisar dados (o chamado “data mining”,) encontrar fontes por geolocalização, organizar e analisar milhares de documentos, assim com o movimento de “Open Data” –que levou governos e instituições a disponibilizarem, ainda que de forma tímida, documentos que permitam avaliar a sua atuação –acabaram por surgir na senda desta revolução Wikileaks. O sítio de Assange, mais do que ter iniciado um processo, parece confirmar a diversidade de um novo ecossistema informativo. Em paralelo às agências de informação tradicionais, que habitualmente monopolizavam a “agenda informativa” sendo o canal privilegiado da comunicação unilateral entre o poder e o público, surgiram novas agências como a Storyful, baseada em Dublin e que graças a complexos algoritmos mas também a colaborações com jornalistas-cidadãos, ativistas, jornalistas, engenheiros informáticos e especialistas no terreno, permitiram identificar, verificar e recuperar imagens, vídeos e informações sobre novos temas até então ignorados pelas agências tradicionais. Curiosamente, a Storyful foi adquirida recentemente pelo grupo News Corp de Rupert Murdoch, pouco depois do escândalo das escutas organizadas pelo jornal “News of the World”. Uma espécie de redenção que não deixa no entanto de levantar algumas dúvidas sobre a transição para esta forma de estar “à escuta” dos cidadãos, por palavras chave, “hashtags” e “trends” (tendências). Desde há uns meses que um novo sítio internet norte-americano ‚Vocativ6, criado por um antigo responsável de segurança informática e recorrendo aos mesmos métodos das agências de espionagem, propõe-se detetar as informações escondidas na “Internet profunda” (deep web), através de complexos algoritmos, antes mesmo que estas atinjam o nível de “trending topic”. Convém também referir a generalização do “fact-checking” como género jornalístico cooperativo, nas pisadas das revelações contidas nos milhares de telegramas diplomáticos expostos pelo Wikileaks. A cimeira do G20 na Austrália, em novembro de 2014, foi palco da primeira “maratona mundial de verificação de informações” ou “Factcheckaton”. Entre as nove organizações de todo o mundo reunidas para verificar as declarações dos líderes mundiais, várias pertencem a meios tradicionais, como o blog “Preto no Branco”7 da brasileira Globo ou o “Washington Post Fact Checker”8 do reconhecido jornal norte-americano, mas também novos atores como o “FactcheckEU”9 que se dedica a passar ao crivo as afirmações dos líderes europeus.
A Lucidez. Mais do que uma simples crítica às derivas do jornalismo no seu papel de contra-poder, o livro de Víctor Sampedro parece convidar a profissão a retomar os mandamentos de “Lucidez, desobediência, ironia e obstinação”, enunciados por Camus para desafiar a censura no início da segunda guerra mundial. Mais de setenta anos depois, Julian Assange pôs em prática os mesmos princípios ao desafiar o segredo militar que ocultava as contradições da guerra contra o terrorismo. Camus remata a sua reflexão sobre a missão de um jornalista face à propaganda, afirmando “formar estes corações e estes espíritos, despertá-los sobretudo, é a tarefa ao mesmo tempo modesta e ambiciosa que incumbe ao homem independente. É necessário defendê-la sem olhar para mais adiante. A história poderá reconhecer ou não estes esforços. Mas o importante é que terão sido feitos”. A história poderá reter ou não o papel do Wikileaks como das “revoluções árabes” ou dos movimentos de indignados, neste despertar coletivo que sobressaltou o jornalismo. Mas a imagem de um Julian Assange “emparedado” numa embaixada em Londres, vítima dos seus esforços para defender a transparência, mostra que os seus objetivos foram concretizados. A “prisão” de Assange é a derradeira revelação do Wikileaks, do temor do poder face à indignação do “homem independente”.
José Miguel SardoJornalista
ÍNDICE
INTRODUÇÃO E ESTRUTURA DO LIVRO
AS PERSONAGENS
I.
SOBRE HERÓIS, TUMBAS E O ARVOREDO PERDIDO
HACKERS E CIDADÃOS DIGITAIS
HACKERS E JORNALISTAS EM GUERRA
TECNOLOGIAS QUE DESTROEM SEGREDOS OFICIAIS E COMPILAM OS NOSSOS
O DESAFIO: VER A FLORESTA
O ARVOREDO PERDIDO
MENOS HERÓIS, MENOS ZOMBIES E MAIS FLORESTA
II.
É A GUERRA. CONTRA TERRORISTAS, DELINQUENTES, ESPIÕES… CONTRA VOCÊ
CIBERTERRORISTAS
CIBERDELINQUENTES
A PROPRIEDADE INTELECTUAL E INDUSTRIAL
GOVERNOS, EMPRESAS E BARÕES DA IMPRENSA QUE NOS ESPIAM
NEGÓCIO E NEUTRALIDADE DIGITAL
ESPIÕES APÓS O DEGELO
III.
A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ UMA REPOSIÇÃO
A CONTRACULTURA QUE DERAM POR ENTERRADA E RENASCE NA MISTURA
UM CRIPTOPUNK ILUSTRADO NO CÍRCULO DE VIENA
HACKEAR O MERCADO DE DINHEIRO E DE VOTOS
DE SEATTLE AO EQUADOR, A PASSAR POR CHIAPAS
DO ANTIBELICISMO À DEFESA DA INTERNET
CONTRADIÇÕES ESTRATÉGICAS E LIMITAÇÕES TEÓRICAS
IV.
UM BUQUE QUEBRA-GELO E O QUARTO PODER EM REDE
O NOVO ECOSSISTEMA INFORMATIVO. DE TUBARÕES, PLÂNCTON E O QUARTO PODER
CRISE? VOCÊS NÃO SABEM BEM
CURSO RÁPIDO DE JORNALISMO
OS TRÊS PODERES RASGADOS DE CIMA A BAIXO
O QUARTO PODER EM REDE AJUSTA CONTAS COM A IMPRENSA
JORNALISMO DE DADOS E CIDADÃO. COMO O PUNK: PASSÍVEL DE SER FEITO POR QUALQUER PESSOA
PECADOS PRIVADOS E O NÉGOCIO DOS SEGREDOS
DOMESTICANDO FILTRAÇÕES SELVAGENS
PERGUNTAS E HIPÓTESES
MEIOS DIGITAIS E GLOBAIS
MEIOS ESTATAIS E SOCIAIS
NEGÓCIOS SECRETOS E O ICEBERGUE DA CENSURA
HACKERS E JORNALISTAS: JUNTOS NAS REDAÇÕES?
V.
O JORNALISMO QUE VEM E QUE VOLTA ÀS SUAS ORIGENS
BEM COMUM, CÓDIGO ABERTO, LIVRE E COLABORATIVO
ROMPENDO A CAMINHAR
O NOVO, NOVO JORNALISMO EM ESPANHOL
DOIS CASOS NA ESTEIRA DO WIKILEAKS: EVASÃO FISCAL E CIBERTURBAS
JORNALISTAS BASTARDOS E FILANTROPOS DIGITAIS
CODA
QUEM ESCREVE. PLAGIA E AGRADECE
BOLAS EXTRA: REAÇÕES À PRIMEIRA EDIÇÃODESTE LIVRO
INTRODUÇÃO E ESTRUTURA DO LIVRO
E, no entanto, apareceu o WikiLeaks em 2010. Libertou 250.000 documentos das guerras no Afeganistão e no Iraque. A seguir, viria publicar-se quase o duplo de cabogramas da diplomacia norte-americana. Assim, entrávamos no tempo da grandes revelações por iniciativa da gente comum, as quais eram tecnicamente impossíveis antes, e cujo alcance era difícil de compreender. Os anónimos entregavam os arquivos à principal média do mundo em troca de nada. Ainda pior, os jornalistas cobravam as notícias e os delatores pagavam um alto preço: acosso, prisão e exílio.
A Imprensa conseguiu que pensássemos que tudo aquilo não tinha nada a ver com nós. Não nos apercebemos de que os hackers estavam a convocar-nos para formarmos juntos o Quarto Poder em Rede. Chamavam-nos para que mobilizássemos corpos, algoritmos e computadores que controlassem quem governa, legisla e julga. Queriam mostrar a nossa capacidade para fazê-lo, e demonstrar que era possível. Mas, quando finalmente nos descobriram que estávamos a ser espiados, em toda a parte, o sonho duma democracia digital tornou-se um pesadelo.
Este ensaio, embora não pareça, é uma viva defesa do jornalismo. Não do jornalismo existente, mas daquele que está por vir. As críticas cá vertidas partem duma chamada à ação, que ocupa o primeiro capítulo. Esta chamada aplica-se a quem escreve e a quem nos lê. Para esclarecer a minha posição de partida, insistirei em que não me dou bem nem com os computadores nem com os hackers (piratas informáticos). Quando criança, nem mesmo jogava Pac-Man. Os meus amigos sempre gostaram muito mais de ler livros e de combinar para debaterem acerca deles. A primeira vez que criei uma conta no Facebook fiquei desconcertado: as minhas «amizades» utilizavam-no para combinarem depois e fazerem coisas juntos. Se calhar, a minha «sociofobia»[1] nada tem a ver com a internet. As minhas dificuldades para relacionar-me e envolver-me socialmente manifestam-se em que não faço parte de nenhum grupo do Whatsapp. Para mim, a internet é um espaço de trabalho mais do que um lugar de socialização. Não sou um nativo, mas um trabalhador digital.
Acho que a maioria dos hacktivistas (hackers que participam de manifestações e de protestos) são demasiado freaks e nerds; e eles também acham o mesmo de mim. Com exceções, certamente. Porém, confessarei que os admiro, muito. Como também admiro outros muitos jornalistas que critico desde sempre. Ou como admiro bastantes colegas da universidade, sejam alunos ou professores. Fustigo-os, tentando assumir a minha parte de responsabilidade, até onde a consciência e o pudor me permitem.
Temos de reconhecer que o WikiLeaks revelou onde é que estávamos. Mostrounos sepultados alguns metros baixo terra. Sem dúvida, mesmo que não fosse no mesmo nível, o nível dos piratas que acabaram por nos retratar em mãos dos vigilantes. De continuarmos desse modo, os profissionais e professores de jornalismo seríamos uns cadáveres. Ou mesmo pior, zombies que arrastariam o seu passado numa cena apocalíptica. De 2008 até 2012, desapareceram quase 200 meios de comunicação e perderam-se 8.000 empregos: 27.443 jornalistas ficaram sem o seu trabalho. Depois de severos Expedientes de Regulación de Empleo (E.R.E.)[a] para todos os setores jornalísticos[2], os graduados em Comunicação tinham ainda menos futuro laboral do que com aqueles com diploma em Línguas Clássicas.
De alguma maneira, era assim. Os jornalistas usavam uma linguagem, um código para se relacionarem com a sociedade, que ficara caduco. Incompreensível para perceber o mundo e irrelevante para quem quiser mudá-lo. Celebravam a missa, oficiavam o rito democrático de costas viradas para a cidadania, como os curas faziam antes do Concílio Vaticano II. O Wikileaks, porém, demonstrou que a média devia ser mudada para podermos retomar o seu propósito. O jornalismo não dava conta da realidade. Contrariamente, criava uma ficção paralela. Defendia os atores sociais mais fortes e abandonava os mais fracos. Estes últimos não figuravam, nem sequer, como vítimas. As suas mortes eram efeitos «colaterais» de «operações humanitárias». Revelações posteriores provariam que se estava a travar uma guerra contra as nossas liberdades civis. A internet tinha deixado de ser uma ferramenta de emancipação para se tornar uma plataforma de controlo. Graças à vigilância maciça, os interesses estatais e corporativos estavam de mãos dadas; e, de passagem, amparavam falsamente a democracia, abafando-a.
Os hacktivistas questionaram de raiz o sistema político e informativo do século XX, e mostraram a perversão dos ideais pelos quais deveríamos trabalhar. Propõem que participemos numa esfera pública acorde com a nossa capacidade para atuarmos como sujeitos comunicativos e políticos de pleno direito. A crise da média não responde a um problema de demanda —nunca antes houve tanta informação, nem foi comentada como é hoje—, mas de oferta. Não estamos interessados em pagar para ler notícias, pois essas notícias não valem o que custam. Aliás, não servem os nossos interesses, não nos representam. Precisamos de representantes que não imponham, mas que nos ajudem, primeiramente, a reconhecer e exprimir os nossos interesses individuais. Depois, a conciliá-los. E, finalmente, a formulá-los em chave coletiva. Essa é a tarefa do jornalismo voltado para o bem comum, que defendemos no primeiro capítulo. Por isso nunca se precisou de tantos jornalistas como hoje, pois são muitas as comunidades que os necessitam para terem presença na esfera pública.
É melhor dar como morto o modelo de negócio o mais rapidamente possível, pois não consegue morrer. A indústria dos média só quer captar a nossa atenção — incrementar a quota de audiência— para vendê-la aos publicitários. Os anunciantes entraram na internet porque este meio identifica e chega melhor aos perfis dos consumidores. Entre 2007 e 2012, as receitas de publicidade desceram, para todos os medios, entre um 42% e um 60% na imprensa[3]. Isto demonstra que os jornalistas já abandonaram os fins que eles diziam servir: agem apenas como mediadores publicitários. Informar o público tornara-se qualquer coisa secundária, e o principal objetivo era mantê-lo parado frente ao televisor. Quando conseguimos encontrar notícias gratuitas e contrastá-las na Rede, o negócio terminou: aproximadamente 20% menos de leitores de imprensa em Espanha em seis anos, e 62% de internautas que somente leem as notícias mediante a internet (50% na Europa)[4].
A média colocara os seus interesses acima do serviço público. Em troca duma cobertura favorável, os centros de poder proporcionavam-lhes ajudas legais e publicidade institucional. E aliás queriam que ficássemos em silêncio, ancorados na função de espectadores que só deixam os ecrãs ou acodem ao quiosque para consumirem estilos de vida e slogans eleitorais. Duas vias para exercermos uma cidadania de baixa intensidade: o consumo de marcas e o voto nas siglas.
Para manter a nossa atenção, o jornalismo convencional apresenta notícias coloridas de espetáculo e interesses espúrios, em boa medida inconfessáveis. Dessa maneira usam um código fechado, linguagens e procedimentos que deixam o cidadão fora. Assim, em lugar de alimentarem o debate público, manipulam-no até nos afogarem. A saturação de mensagens e a impossibilidade de compará-las impede-nos filtrar aquilo que é relevante. De facto, o enorme fluxo de informações sem cruzar funciona ao estilo da maior das censuras. O curto ciclo de atenção eleitoral e dos mercados impede perceber os problemas de fundo. Além disso, estamos a esquecer que não poderemos resolver isto por votarmos periodicamente ou por irmos aos saldos. Também não resolveremos clicando compulsivamente e assinando campanhas digitais.
Nadamos numa hipotética opulência de opções políticas e informativas. Na verdade, afundamos na tentativa de processá-las. São demasiadas e, no fundo, bastante parecidas. Os tópicos a alcançarem máxima difusão costumam coincidir com o mais adulterado e trivial. A podridão sensacionalista —o escândalo de News of the World e do grupo Murdoch— coincidiu com o desafio do WikiLeaks. Fica claro que precisamos de alguém que obvie a banalidade e que denuncie o engano. Necessitamos profissionais com identidade própria, códigos morais e técnicos e que se distingam dos propagandistas políticos e corporativos. Queremos redatores de notícias a trabalharem com dados indiscutíveis e a exporem debates com argumentos lógicos, abertos à sociedade. Exigimos profissionais que saibam alimentar e, ao mesmo tempo, nutrir-se do debate social sustido nas redes digitais e pessoalmente. Trabalhadores que, em resumo, estejam dotados das novas ferramentas e destrezas e saibam pô-las ao serviço dos nossos interesses, que são também os interesses deles, como profissionais e como cidadãos.
Não existem ativistas precedentes que tenham influido tanto na agenda informativa com um alcance tão global, nem que chegaram a dotar-se dum projeto de transformação tão completo do sistema comunicativo (e político). WikiLeaks, Manning e Snowden convocam-nos para que construamos qualquer coisa nova, aqui e agora, tanto no nível local quanto no nível global. Oferecem-no um protótipo do Quarto Poder em Rede, cheio de acertos e erros, como não podia deixar de ser. À frente do poder dos governos, dos parlamentos e dos tribunais, forja-se o contrapoder da Sociedade Civil Transnacional. Dificultosamente e com limitações (das quais devemos aprender muito), desejamos construir uma esfera pública em que os cidadãos sejam o início do qual parta tudo, e o fim que dá sentido. Pois eles, com os seus dispositivos digitais, divulgam informação, processam-na e debatem-na com uma autonomia ainda não reconhecida. Os cidadãos mobilizam-se, e com os seus protestos aplicam sanções políticas inesperadas, de velocidade e alcance imprevisíveis. Os hacktivismo é para a Imprensa o que as cibermultidões para a política; ou o que o 15-M espanhol é para o regime político-informativo da Transição.
O Quarto Poder em Rede age como contrapoder: controla os outros três. A sua expressão informativa, de maior transcendência até agora, é o WikiLeaks e a sua manifestação política, isto é, as revoltas ou (re)voluções na rede surgidas em todo o mundo. Não se passou um ano após as divulgações acerca do Iraque, quando a primavera árabe teve início em 2011. Assim é que começava um ciclo de protesto global, com o 15-M espanhol a desempenhar um papel decisivo, por servir de referência e de ponte. Anos mais tarde, as cibermultidões continuam a convocar-se nas praças do Egito, da Turquia, do Brasil… proclamando-se representantes do 99% da população. Essa mesma percentagem mostra as suas fraquezas: 99% da população não pode ser representada sem cair no populismo, pois a política consiste em repartir custos e benefícios. Por outro lado, o 1% também faz parte desse 99%. Mas, além das críticas (das quais, certamente, não estão isentos outros atores), as populações exigem que aqueles que governam, promulgam e aplicam as leis aceitem a transparência e a participação. Estes são dois objetivos potenciados pelas tecnologias digitais, ou que pelo menos se tornam mais factíveis do que antes.
Como aconteceu sempre durante as mudanças culturais profundas, o sistema de representação está em crise. Os jornalistas convencionais não nos representam porque, antes de representantes, pedimos que sejam os nossos delegados. As assembleias (possíveis, graças à internet, dentro e fora dos ecrãs) demandam delegados que transmitam os consensos ou acordos maioritários sem os alterar. Agora podemos comunicar-nos correntemente com os jornalistas, e, por mesmo, em vez de renunciarmos a eles, deveríamos reconhecê-los e torná-los imprescindíveis. Eles são necessários para aqueles com menos recursos para serem ouvidos, são necessários para aqueles que não têm força para se imporem.
O WikiLeaks, como protótipo que é, tem evoluído. A organização passou de se apresentar como «a CIA do povo», espiões sem estado, para configura-se como uma organização mediática com produções próprias (desde videoclipes até documentários). Contrariamente ao outros nerds da internet, Assange admite que precisamos sair dos ecrãs (ou, por melhor dizer, precisamos utilizá-los) e intervir no mercado da informação e até nas eleições. Estas são as duas tarefas emprendidas pelos revolucionários: criarem novos meios de comunicação e novas maneiras de fazer política. O hacker tornou-se um modelo para o repórter investigativo. Por sua vez, o hacktivista tornou-se o exemplo do militante ou do político. Antes de esta linguagem tão tentadora ficar banalizada, vale a pena assinalar a mudança radical que estes atores promovem. Uma mudança que vai às raízes e tem objetivos muito ambiciosos. Não é fácil de perceber à primeira, e ainda menos de prever os seus resultados. Afeta-nos a todos, embora de forma diferente. Daí a estrutura circular do livro.
Cada capítulo pode ser lido de forma independente. Repito argumentos e repasso factos para achegar evidências, aos poucos, para o leigo. Com estas evidências construiremos algumas teses a respeito de temáticas que, mesmo eu, desconhecia até há pouco tempo. A internet entrou nas nossas vidas e ninguém sabe como é que isso aconteceu. A sua penetração foi tão subtil quanto ágil e intensa. Navegamos a milhares de bytes por segundo, mas ignoramos para onde vamos, e desconhecemos os navios que nos transportam. Estamos a pagar passagens muito caras, sem sabermos a quem, nem o destino final. Este livro procura servir como diário de bordo —tradução do termo blog— duma viagem em que cada um pode escolher a sua tripulação e o porto onde ancorar.
O primeiro capítulo, como já foi referido, define a comunicação como bem comum e convida a gerá-lo entre todos. Explica a verdadeira função das revelações e o problema intrínseco que implica a gestão do segredo dos dados digitais. Por outro lado, também esclarece a ética e o projeto político aderido pelos hacktivistas. O segundo capítulo refuta o arsenal de mentiras, e desmota a a campanha de assédio contra o WikiLeaks. A partir disto, repassamos alguns dos debates centrais acerca da internet. A acusação contra os hackers de serem terroristas revela o grau de militarização imposta na rede. A acusação de serem delinquentes é refutada se atendermos a privatização e a mercantilização do espaço público digital. Finalmente, a acusação de serem espiões inimigos é muito pouco consistente ante a fusão da espionagem estatal e corporativa revelada por Snowden.
O terceiro capítulo do livro realiza uma leitura da trajetória do WikiLeaks e do seu líder, ligando-os às ideologias da Modernidade, à esquerda e aos movimentos sociais. Mas esta interpretação nem sempre é a única nem a mais acertada. De facto, os hackers também são contratados por corporações, governos e exércitos de todo o tipo. Desse modo, baseio-me nas conversações dos hackers com os seus colegas de andanças, com empresários do Google, colaboradores do Departamento de Estado dos EUA e académicos. Misturo aquelas conversas, referenciando as transcrições completas. Procuro deixar claro que os hackers quebra-gelos interpelam, independentemente da nossa ideologia. E, em última instância, ponho em prática o jornalismo que defendo: de código aberto (que desvela todas as suas fontes) e livre (que mistura outras vozes e demanda ser reutilizado). Este capítulo recolhe também as mudanças nas políticas da internet causadas por Snowden; mudanças que publicámos de forma colaborativa no nosso blogue no diário Público, sob o mesmo título que o presente livro.
O quarto capítulo concreta a função do jornalismo de código livre como parte do Quarto Poder na Rede. Apresenta-se o WikiLeaks como um navio quebra-gelo, que abriu fendas numa Imprensa congelada, incapaz de agir como contrapoder. A crónica da viagem é, forçosamente, incompleta. Enquanto estou a escrever, as notícias ou repercussões da sua atividade assaltam-me continuamente. Aliás, a proposta hacker seria inabordável se tiver de ser tratada em toda a sua amplitude. O quinto capítulo reúne conclusões que não podem ser tais: fala sobre o jornalismo pós-industrial que está a emerger, e assinala que não é outro senão o jornalismo convencional, porém levado a sério em tanto que contribuição para o bem comum. Por outro lado, informo de algumas iniciativas que estão a hackear, a abrir o código do sistema político-informativo que sofremos atualmente. Também anoto as oportunidades permitidas pela recente aliança entre filantropos da indústria digital e jornalistas corajosos. O Quarto Poder em Rede é uma realidade para aqueles que investem grandes quantias nele, e mesmo para aqueles que o combatem e colocam em risco as nossas liberdades. O intuito destas páginas é mostrá-lo a quem mais proveito poderia tirar dele em caso de contribuir a torná-lo realidade.
O navio quebra-gelo do WikiLeaks abriu-nos caminho para terras ignotas. Poderíamos criar nelas assentamentos baseados na autodeterminação pessoal e coletiva segundo o estilo dos bucaneiros, que contavam com portos e ilhas para refúgio. O WikiLeaks chamou à defesa da internet como território comunal. Deveríamos ser capazes de (auto)geri-lo para manter a sua autonomia. Está nas nossas mãos legislarmos e utilizarmos a Rede para garantirmos a sua (sempre relativa) independência a respeito do poder político e económico. Se a Rede não estiver censurada, monetizada ou espiada, poderemos controlá-lo. Somente assim conseguiremos tomar aquilo que é nosso, porque teremos colaborado na sua geração. Recuperarmos o nosso, arrebatado pelos (des)governantes, e manter estes afastados.
Os piratas corsários ficam excluídos. Séculos atrás, eles atuavam pagos pela primeira multinacional (a Companhia das Índias) e pelos monarcas eleitos por desígnio divino. Na atualidade, são pagos pelas corporações e pela NSA. A nossa luta, a luta da sociedade civil em rede, não termina com a garantia dum salário, ou ao aceitarmos as dádivas da corte. Também não acaba por convertermo-nos em empreendedores digitais, transformados em marcas pessoais e precarizados por toda a vida.
A história que estamos a contar, devemos admiti-lo, também poderia ser lida como um enorme fracasso. Mas este figura-se tão grandioso que vale a pena narrá-lo. Porque a felicidade não tem história[5]. A luta vence quando continua e se mantém viva. Nada do que conseguirmos será suficiente, pois nunca disporemos de suficiente liberdade nem democracia. Deveríamos ganhar ânimos pelo prazer que experimentamos quando os nossos sonhos se tornam no pesadelo daqueles que se consideravam, a si próprios, intocáveis.
Talvez o melhor já passou. Os hacktivistas perseguiram demasiados objetivos ao mesmo tempo. Eles sofrem assédio e têm muitas frentes abertas… Aliás, incorreram em erros e contradições. Mas o rasto poderia levar a uma relação cujo valor, por sido tão desejada, não soubemos reconhecer quando a tivemos na frente. Pudemos fazer mais pelos hackers. Mas ficámos fascinados por eles e não soubemos corresponder. Contudo, sem eles jamais teríamos conhecido a paixão que, depois, se tornaria num compromisso sólido com a democracia. Encomendo-me, então, à santa Clarice Lispector e lembro a sua jaculatória: «Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita».
AS PERSONAGENS1
Julian Assange. Dirige WikiLeaks desde o seu aparecimento público em 2006. Recebeu o prémio Índice de Censura de The Economist (2008); o galardão Nova Mídia, concedido por Anistia Internacional (2009); a Medalha de Ouro da Fundação Australiana pela Paz, de Sidney; o Prémio Walkley e o Martha Gellhorn de jornalismo (2011). Participou na elaboração da grupo de correio eletrónico dos criptopunks, que desenvolveram a tecnologia de anonimato e a encriptação que permitiu que o WikiLeaks se tornasse uma plataforma de informação não censurável, e graças à qual os seus informantes não podem ser rastejados. Entre os desenvolvimentos informáticos de Julian Assange acham-se em destaque o sistema de encriptação Rubberhose e o código original do WikiLeaks. Escreveu, com a ajuda de Sulette Dreyfus, o livro intitulado Underground, uma história do movimento hacker internacional. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) manifestou a sua preocupação pela «ciberguerra» organizada contra o WikiLeaks, numa declaração conjunta com a Organização dos Estados Americanos. E reclamou que os estados e as empresas digitais enfrentadas ao WikiLeaks respeitassem os princípios legais. Na sequência da perseguição judicial por abusos sexuais, montada pelos EUA, Julian Assange teve de refugiar-se no verão do ano 2012 na embaixada equatoriana em Londres, onde continua a morar enquanto se escrevem estas linhas.
Chelsea Elisabeth Manning (antes, Bradley Edward). Infante da Marinha dos EUA que em maio de 2010, com 22 anos de idade, foi prendida no Iraque, e passou onze meses totalmente isolada. Este tratamento foi qualificado de tortura pelas principais organizações de Direitos Humanos (Anistia Internacional, Human Rights Watch) e pelo Relator Especial da ONU sobre a Tortura, que o considerou «cruel, desumano e degradante».
A soldado Manning confessou a um hacker do FBI ter revelado documentos acerca do Iraque, do Afeganistão e das embaixadas norteamericanas. Também declarou ter sentido a necessidade de expor as violações dos direitos humanos ignoradas pelo público. Foi no final do seu processo, e para conseguir a diminuição da sua condena, que aceitou uma declaração de arrependimento por ter divulgado documentos confidenciais. A quantidade de documentos confidenciais revelados por Manning é a maior que se se conhece até ao presente.
Manning foi julgada por um tribunal militar no verão de 2013, mas no juízo não se tratou o assunto fundamental dos crimes de guerra. Aliás, rejeitou-se a ideia de que Manning, de acordo com o direito internacional, tivesse a obriga legal e moral de denunciar esses crimes. Posteriormente, alguns tribunais internacionais sentenciaram que vários destes factos eram crimes contra a humanidade. Durante o juízo, todos os documentos desclassificados que detalhavam erros letais, delitos ou torturas das tropas aliadas foram excluídos. Não houve transcrições oficiais, e, portanto, o juízo passou de ser um processo público a outro de caráter inquisitorial. Os instrutores eram os únicos que conheciam o processo aberto a Manning e as provas reunidas. Deste modo, não se reconheceu a igualdade entre as partes nem os direitos próprios dum juízo justo.
A soldado Manning foi condenada a 35 anos de prisão. O fiscal solicitara o quádruplo, por duas dúzias de delitos, que incluíam a espionagem. A acusação de «ajuda ao inimigo», que comportaria prisão perpétua, não prosperou. Quando Manning recebeu a sua sentença, tinha já três candidaturas ao Prémio Nobel da Paz. Solicitou que, durante a sua estada no cárcere, lhe fosse aplicado um tratamento hormonal para mudar de sexo. Quando Manning tenha cumprido um terço da sua pena poderá sair, depois de oito ou nove anos encerrada, e tornar-se uma mulher livre.
Edward Joseph Snowden. Nascido em 1983. Em junho de 2013 revelou que a Agência de Segurança Nacional dos EUA —NSA, nas suas siglas inglesas— acedia aos registos telefónicos e da internet de milhões de cidadãos dos EUA e de todo o mundo. The Guardian e The Washington Post, The New York Times e Der Spiegel divulgaram os programas de espionagem maciça do governo estadunidense. O programa de vigilância conhecido como PRISM permitia à NSA e ao FBI acederem sem limites aos servidores de nove gigantes da internet como a Microsoft, Google, Apple, PalTalk, AOL, YouTube, Skype, Yahoo e Facebook. O programa obtinha informação pessoal dos usuários, monitorizava correios eletrónicos e, em geral, o tráfego da internet. Outro programa rastejava e registava os dados de telefonemas, com ajuda de redes de satélites, inclusive de redes comerciais. Snowden confessou ser a fonte destas revelações enquanto se ocultava em Hong Kong. O isolamento forçado de Manning convencera-o da impossibilidade de encabeçar uma campanha civil no seu país. Quando compareceu publicamente, foi com o apoio do WikiLeaks e da comunidade hacker mundial.
Os EUA começaram a perseguição de Snowden acusando-o de espionagem, furto e uso ilegal de bens governamentais. Justificaram-se na luta antiterrorista e pediram a extradição desde Hong Kong. Snowden partiu para a Rússia e iniciou contactos com o governo equatoriano, o qual, vítima de pressões e de intercetação das suas comunicações internas, não lhe pôde oferecer asilo. Snowden chegou a solicitar acolhimento a mais de 20 democracias, que recusaram recebê-lo. A maioria delas colaboravam com a espionagem das agências norte-americanas ou consentiam-na. O conflito dos EUA com Evo Morales por causa deste assunto dá conta dos envolvimentos diplomáticos e do nível de pressão estadunidense. O avião do presidente boliviano, procedente da Rússia, foi retido no aeroporto de Viena, sob suspeita de transportar Snowden. Além disso, recusou-se o pedido de aterrar em solo francês, italiano ou espanhol. Três países latino-americanos do ALBA —Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, tratado económico à margem dos EUA— também ofereceram asilo ao ex-agente da NSA. O Mercosul solidarizou-se com a Nicarágua, a Venezuela e a Bolívia, e reivindicaram o direito ao asilo político. Isto também foi exigido pelos parlamentares da UE, da Alemanha e do Brasil; tal pedido não teve efeitos práticos até ao momento presente.
O presidente russo, Vladimir Putin, reteve Snowden no aeroporto moscovita, enquanto lhe impunha a condição de não desenvolver atividades hostis contra os seus «sócios estadunidenses». Finalmente, no 16 de julho de 2013, Snowden aceitou e solicitou asilo à Rússia. A suas revelações confirmam que a captura indiscriminada de dados digitais, de quaisquer usuários, desde quaisquer lugares e desde quaisquer dispositivos ou programas, constitui uma prática normalizada. Aliás, também confirmam que a interseção destes dados com as transações de cartões de crédito é uma realidade[2]. O governo de Obama justificou-se na Guerra Global contra o Terror. O programa Echelon está assente nos procedimentos da NSA, e com ele os EUA e o Reino Unido podem ter em comum as suas estruturas de espionagem, compartidas com o resto do conjunto de países conhecidos como The Five Eyes (os cinco olhos): o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. Snowden foi candidato ao Prémio Nobel da Paz em 2014.
I. SOBRE HERÓIS, TUMBAS E O ARVOREDO PERDIDO
Apelamos para a constituição do Quarto Poder em Rede. A viabilidade do jornalismo como profissão e negócio estão em jogo; mas na realidade falamos do futuro da democracia. A esfera pública, onde decidimos os nossos representantes e as nossas metas coletivas, é agora digital e pode fomentar novas formas de democracia. Ou de totalitarismo. A nossa esperança reside na recuperação da comunicação como um bem comum; isto é, resultado da colaboração entre os jornalistas e as comunidades às quais servem. Deveriam fazê-lo de duas maneiras. Primeiro, gerando conjuntamente, com os indivíduos e os grupos mais dinâmicos, um contrapoder. Trata-se de afirmar o controlo e a supremacia da sociedade civil sobre os seus representantes. Segundo, ajudando-nos a compor narrações sociais que nos reconheçam como atores políticos e comunicativos de pleno direito. Mostrando-nos capazes de debater e decidir o nosso destino.
Para punir a corrupção e o engano não bastam a tecnologia nem os modelos de negócio digital. Estas são as duas obsessões que dominam o debate. Mas de nada servem os novos formatos e meios de comunicação se não nos permitem decidir, em pé de igualdade com os poderosos, quem somos e para onde queremos ir. O jornalista deveria reconhecer, duma vez por todas, que agora partilha o seu protagonismo e a sua visibilidade com cidadãos que podem produzir noticias. A capacidade destes para difundirem dados converte-os em aliados imprescindíveis. Quanto aos empresários, para o seu próprio bem, é melhor que entendam quanto antes que para fazerem negócio já não basta vender a nossa atenção (as quotas de audiência) aos publicitários. Esse negócio já não lhes pertence: também é nosso. Podemos intervir no produto, no seu processamento e difusão, e gerar uma atenção pública, por exemplo nas redes sociais.
Em vez de maximizarem benefícios económicos (salários e cotações bolsistas), os donos da comunicação deveriam entender as noticias, a informação, como um bem comum. Sobreviverão se assegurarem rendimentos suficientes para o sustento dos meios independentes. Consegui-lo-ão se rentabilizarem aquilo que não tem um retorno económico imediato, mas que lhes confere credibilidade, a qual é a base da sua atividade. Para isso, terão que aliar-se com os sectores cidadãos mais capazes e corajosos, tal como fez o jornalismo em tempos de mudanças sociais drásticas. Não são precisos heróis nem líderes carismáticos, mas sim indivíduos comprometidos, com competências técnicas e sólidos valores éticos. Cidadãos que são capazes de exercer a sanção política e tomar a palavra. Preparados para narrar a sua própria história em tempo real. E, não menos importante, dispostos a pagar por isso, porque o código livre não é gratuito, há que trabalhá-lo e custeá-lo. Sobejam os tumbas onde entoar ladainhas, onde recriar a nostalgia por um passado que (afortunadamente) não vai voltar.
Estamos em crise e, portanto, em trânsito. Não é fácil ver para onde. O 1% da população torna-se cada vez mais opaca e não cessa na sua ânsia de privatizar o que deveria ser património comum de todos. Devemos ampliar a definição de cidadania digital, para incorporarmos aqueles que se preocupam com a criação dum espaço de debate aberto, e deixarmos fora a mentira e a incompetência. Os hackers fornecem novas ferramentas e recursos comunicativos de código livre. Estes são modificáveis e estão disponíveis quase sem restrições. Importa porém ainda mais a ética do que as capacidades tecnológicas. Porque com as ferramentas digitais podemos destruir os segredos de estado, mas também a nossa privacidade.
Abondam as propostas fechadas sobre como deve ser a esfera pública digital. Será democrática se permitir que surja a surpresa, o inesperado. Contrariamente à encenação do poder e dos desarranjos que caracterizam as ditaduras dos Mercados ou o Estado. Podemos reinventar o jornalismo, aplicando o ensaio e o erro, com valores firmes e com a altura para não perdermos de vista o horizonte. Invocando metáforas que aproximem esses valores à realidade. O sol e a floresta comunal contribuem com duas imagens que se complementam. Recordam a importância da luz como fonte de transparência e higiene democráticas. Evocam o Quarto Poder em Rede como uma floresta de informação mancomunada que temos de semear e preservar.
HACKERS E CIDADÃOS DIGITAIS
Um marine de 22 anos, naquela altura chamado Bradley Manning, expôs em 2010 as mentiras que sustentam a Nova Desordem Mundial. Denunciou primeiro os massacres do Pentágono, e depois as embaixadas dos EUA, que impõem um neocolonialismo contrário à legalidade internacional. Mostrou a cara oculta do poder. «A luz do sol é o melhor desinfetante». Trata-se duma receita médica ancestral, com a qual os nossos velhos se automedicam ainda que tenhamos furado a camada do ozono. E também é uma frase emblemática da liberdade de expressão[1]. Com Manning à frente, os hackers puseram a maior potência mundial sob os focos. E lançaram uma semente na terra erma do jornalismo corporativo. Na semente já está a árvore, dizia Gandhi. E este é um espécime descomunal, desconhecido até ao presente.
