3,99 €
Quando Anna Zielke retorna à sua aldeia natal, Alt-Kaster, após a morte de sua avó, ela não faz ideia de que as antigas lendas das quais costumava rir na infância são uma realidade sangrenta. Entre os becos estreitos, a névoa da Floresta de Kaster e os segredos não revelados dos aldeões, Anna logo sente uma presença sinistra que se intensifica a cada lua cheia. As pistas a levam às profundezas da história da família — a um pacto ancestral que jamais deveria ter sido feito. Quanto mais Anna descobre a verdade, mais ela se vê envolvida no vórtice de uma besta que não só ameaça a aldeia, como também desperta dentro dela. Dividida entre o humano e o monstro, a culpa e a responsabilidade, Anna precisa decidir se abraça ou destrói o legado — e qual preço está disposta a pagar. Um romance sombrio e atmosférico sobre lendas e culpa, sobre comunidade e exclusão — e sobre a questão de se o verdadeiro monstro vive na floresta ou dentro de nós mesmos.
Das E-Book können Sie in Legimi-Apps oder einer beliebigen App lesen, die das folgende Format unterstützen:
Veröffentlichungsjahr: 2026
Elias J. Connor
O lobisomem de Alt-Kaster
Dieses ebook wurde erstellt bei
Inhaltsverzeichnis
Titel
Dedicação
Capítulo 1 - A promessa da lua cheia
Capítulo 2 - Sangue no caminho de barro
Capítulo 3 - A crônica da noite
Capítulo 4 - O pacto da avó
Capítulo 5 - Noites que não acabam
Capítulo 6 - Aliados na névoa
Capítulo 7 - Vestígios em preto e branco
Capítulo 8 - Os nomes perdidos
Capítulo 9 - Prata lunar
Capítulo 10 - Mãos que não soltam
Capítulo 11 - Nele na escuridão
Capítulo 12 - A história do guarda florestal
Capítulo 13 - Linhagem
Capítulo 14 - Caça
Capítulo 15 - O Homem sob o cabelo
Capítulo 16 - Orações e maldições
Capítulo 17 - A conferência negra
Capítulo 18 - A cabana no brejo
Capítulo 19 - Sacrifício de sangue ou reconciliação
Capítulo 20 - O ataque noturno
Capítulo 21 - A revelação na torre da Igreja
Capítulo 22 - A última lua cheia
Sobre o autor Elias J. Connor
Impressum neobooks
Para minha namorada.
Minha companheira, musa, fada.
Obrigado por estar aqui.
A noite cai friamente sobre Alt-Kaster como um manto pesado. A última luz penetra entre os telhados de telha, alongando as chaminés e conferindo-lhes um aspecto cinzento, e o relógio da torre da igreja badala lentamente, cada movimento um pequeno trovão no ar gélido. Nas pedras da rua, a primeira geada cobre as frestas; as folhas que farfalhavam durante o dia transformaram-se em papel crepitante e giram melancolicamente nas sarjetas.
Uma fina fumaça sai das chaminés, com cheiro de madeira queimada e capim seco. O aroma persistente de pão fresco paira no ar do lado de fora da padaria, mesmo que a porta já esteja fechada há muito tempo; atrás das janelas, os balcões vazios jazem como lembranças. Uma lanterna projeta ilhas circulares de luz na rua, seu brilho escorrendo pelas paredes e alongando as sombras até que elas se espremam pelos becos como dedos negros.
As pessoas se movem rapidamente, golas levantadas, mãos enfiadas nos bolsos. Alguns passos, uma risada apressada, depois silêncio – as conversas agora são mais curtas, como se o frio fosse um argumento contra a demora. Uma bicicleta estacionada brevemente em uma esquina, uma loja fechada, o clique de uma porta: sons pequenos e nítidos no silêncio denso e frio.
Nos arredores da aldeia, a Floresta de Kasterer pressiona a última sebe do jardim como uma promessa sombria.
O vento sussurra entre as árvores, carregando o aroma úmido de musgo, folhas molhadas e terra; levanta os galhos, fazendo-os roçar uns nos outros, e em algum lugar um cachorro responde com um uivo longo e solitário. O velho moinho de vento na beira do campo geme de vez em quando, um suspiro cansado ecoando entre suas vigas e enfatizando a imensidão da noite.
Se você prestar atenção, há algo mais: o tilintar distante de uma garrafa num quintal, o murmúrio de vozes que se acelera, como se não quisessem dar tempo para a escuridão se instalar. A respiração das pessoas paira branca no ar, pequenas nuvens, curtas e frágeis, imediatamente esmagadas pelo frio. E acima de tudo, o céu se estende como um cobertor escuro, já bordado com os primeiros pontos frios das estrelas – claros, duros e inabaláveis.
A recepção no pequeno hotel é tão austera quanto Anna esperava — e, no entanto, a atinge como um tapa frio. O balcão da recepção é uma mesa de madeira escura com uma placa amarelada acima, ostentando o nome "Hotel Klose". Atrás do balcão, está uma mulher de meia-idade com os cabelos presos e um sorriso no rosto, como se fosse uma visão desconhecida. A Sra. Klose entrega a chave a Anna como se fosse uma transação e diz secamente: "Quarto três, no andar de cima, à direita. O café da manhã é servido a partir das oito." Sua voz não demonstra nenhuma compaixão. Anna sorri, força a pronúncia de seu nome e declara o motivo de seu retorno: "Minha avó faleceu." Ela vê a mulher, brevemente, quase imperceptivelmente, semicerrar os olhos, como se tentasse afastar uma lembrança.
Do lado de fora do hotel, o vento outonal sopra; Anna levanta a gola do casaco e sente como se o frio estivesse se infiltrando não só de fora, mas de dentro da própria vila. Ela tem vinte e cinco anos, o cabelo castanho preso num coque prático, traços marcantes, ombros não estreitos, mas tensos. Profissionalmente, ela esteve longe o suficiente para se permitir uma perspectiva distanciada — gerente de projetos em Düsseldorf, prazos, sem espaço para retornos sentimentais — e, no entanto, há algo em seu estômago que não pode ser acalmado pela lógica: um peso ligado ao nome "Agnes".
No corredor do hotel, ela ouve os outros hóspedes tilintando os pratos, a risada de um homem num canto; ela anseia por se juntar à conversa, por absorver o calor familiar de um pub, mas para onde quer que olhe, sente uma certa reserva. As poucas pessoas que vê desviam o olhar, como se tal conversa pudesse ser evitada. Não é uma hostilidade declarada — isso seria mais fácil —, mas uma distância silenciosa que diz: Aqui, alguém escreveu um capítulo que prefere não reabrir.
Na manhã seguinte, ela parte para a casa da avó. A caminhada é curta; Alt-Kaster é tão pequena que o ritmo do lugar se mede em minutos. As casas ficam lado a lado como hóspedes tolerados. Anna ainda conhece cada esquina, embora seus passos sejam instáveis no início — depois, mais confiantes. Cheiros familiares a recebem: café moído, folhas molhadas, o aroma ácido das castanhas. Crianças passam correndo, um ônibus escolar passa, curto e barulhento, e alguém chama um nome maliciosamente, um nome que não é o dela.
A casa onde Agnes morava fica no final de uma rua estreita; um prédio de dois andares com estrutura de madeira, pintura desbotada, jardim tomado pelo mato, madeira da varanda escurecida pela chuva.
As janelas ainda estão fechadas, as cortinas cinzentas como poeira. A porta da frente se abre surpreendentemente fácil sob a mão de Anna; um molho de chaves está sob uma pequena pedra ao lado da escada — exatamente como sua avó sempre fazia. Anna pensa nas mãos da avó: dedos pequenos e calejados, sempre tateando as xícaras, sempre trabalhando nelas. Ela entra.
Um crucifixo está pendurado no corredor, e embaixo dele, um pequeno cabideiro com ganchos onde se penduram casacos há muito abandonados. O ar cheira a lavanda e livros antigos. Uma pilha de cartas está sobre a mesa, desarrumada, como se a casa tivesse sido desocupada ontem. A sala de estar ainda exala o aroma de cera e baunilha; os móveis estão em seus lugares familiares, a poltrona onde Agnes tricotou por anos está desgastada pelo tempo. Anna coloca a mala no chão, inala o perfume e sente uma onda de lembranças a invadir — o Natal com salmão defumado, os verões em que Agnes fazia chá gelado, os gatos que dormiam no fogão.
Ela decide espontaneamente: Vou me mudar para cá. O quarto de hotel, com suas paredes finas e o impessoal bufê de café da manhã, agora parece uma fuga — uma fuga que ela não quer mais. A casa da avó é uma promessa de permanência, mesmo que esteja caindo aos pedaços. Anna coloca um colchão no quarto de hóspedes, desempacota a roupa de cama e cria um pequeno canto com uma mesinha de cabeceira e um abajur. Mais tarde, quando a noite cai, ela se senta na poltrona com uma xícara de chá nas mãos, e a casa respira ao seu redor; range, emite pequenos sons que nenhum hotel jamais faz.
Os primeiros dias passam em meio a uma névoa de pilhas de papéis e caixas. Anna organiza contas, abre gavetas, despeja o restante da lavanda de uma lata em um pote de conserva e o etiqueta "Agnes – Jardim". Contas de um lado, cartas do outro. São as coisas mundanas que compõem o espólio: recibos de farmácia, pacotes de sementes, uma coleção de receitas manuscritas, rabiscadas com uma caligrafia desleixada. Às vezes, sua mão se detém em uma linha – um nome, um ano.
Ela se sente como um quebra-cabeça que está sendo montado, ao mesmo tempo que revela novas arestas.
Mas a frieza dos moradores persiste. Anna tenta vender os utensílios domésticos: pratos pintados à mão por Agnes; um bule de prata que brilha deitado de lado durante o jantar; um velho cavalo de balanço com um nome gravado. Ela toca as campainhas dos vizinhos, leva amostras para a pequena loja de antiguidades da rua, coloca avisos no quadro de avisos da loja da Sra. Mertens. Em todos os lugares, a reação é a mesma: uma recusa educada, um "Já temos o suficiente" ou um olhar desviado. Certa vez, o Sr. Jansen, antigo dono da mercearia, lança-lhe um olhar rápido e diz, com voz cuidadosamente medida: "Algumas coisas são lembranças. Não gostamos de levar coisas que... bem, é melhor deixá-las como estão." Anna não insiste no assunto, porque, nesta aldeia, as palavras costumam ser mais poderosas quando não ditas.
Ela tenta uma feira de antiguidades na cidade vizinha; leva caixas cheias de porcelana, uma máquina de escrever, uma faca de latão. Mas o transporte é caro e a resposta é menor do que a esperada. Os compradores hesitam quando ela precisa explicar a origem dos itens. "Do velho Kaster? Não, obrigada, não tenho tempo", murmuram alguns, e Anna sente o desejo de vender rapidamente se transformar em uma vergonha que ela não quer compartilhar. Ela esperava que os itens práticos — pratos, ferros de passar roupa, lençóis — simplesmente encontrassem novos lares. Em vez disso, ela encontra barreiras: não por inveja, mas sim por um reflexo protetor instintivo. As pessoas tratam os objetos como se ainda estivessem vivos, como se tivessem laços com o passado que não deveriam ser cortados tão facilmente.
Certa manhã, na padaria, onde o aroma de fermento e açúcar oferece um calor momentâneo, ela ouve uma conversa. Duas mulheres, colocando suas compras na esteira, falam em voz baixa. Elas param quando Anna se aproxima. Uma delas é a esposa do pastor, esbelta, usando um avental ainda manchado de farinha. Seus olhares se tornam breves, amistosos, mas permanecem em silêncio. Anna a cumprimenta, se apresenta: "Sou Anna Zielke". A esposa do pastor acena com a cabeça, seus lábios sussurrando: "De Agnes". Soa quase como um encantamento. Então, ela baixa o olhar e empurra as sacolas para a esteira. Um pequeno gesto, uma gentileza inesperada, mas Anna sente a distância como uma facada.
Um homem que lhe chamara a atenção logo no primeiro dia a encontra no mercado. É o guarda florestal, o Sr. Berg, um sujeito de ombros largos com uma jaqueta rústica, as mãos marcadas pelo trabalho pesado de levantar toras. Seu olhar se demora em Anna, examinando-a, não com hostilidade, mas com suspeita. "Então você vai ficar?", pergunta ele, sem julgamento algum, apenas com interesse. Anna responde: "Sim. Estou organizando a propriedade." Ele acena lentamente com a cabeça, não diz mais nada e acrescenta, quase casualmente: "As noites mudaram." Anna tem a sensação de que ele sabe mais do que demonstra — e que o velho Kaster sabe coisas que passam despercebidas em outras aldeias. Mas ela ainda não faz disso um drama; para ela, são apenas palavras que mais tarde criarão raízes como sementes.
Ela tenta preencher a solidão da casa com trabalho. Limpa o sótão; teias de aranha pendem do teto como cortinas frágeis. Sob um lençol protetor, encontra caixas de álbuns de fotos: fotos amareladas de mulheres jovens com saias longas, de homens posando orgulhosamente, de cachorros com coleiras bem presas. Uma foto a cativa: Agnes, jovem, com cabelos escuros e espessos, rosto delicado, olhos grandes. Ao lado dela, está sentado um homem que Anna não reconhece — um ancestral, talvez, ou um conhecido misterioso. Na borda inferior da foto, em uma caligrafia rabiscada, estão as palavras: "Verão de 1958". Anna segura a foto, sentindo o frio da casa se misturar com o calor que emana do próprio papel. Ela separa as fotos, etiqueta as caixas como "Memórias" e as empilha cuidadosamente.
Após alguns dias, quando as primeiras noites na casa a mantêm acordada por mais tempo e os sons se tornam mais estranhos, Anna pendura uma placa na porta da frente: "Vende-se - Artigos para o Lar, Antiguidades, a Preços Justos". A ideia é pragmática; talvez a visibilidade atraia compradores, talvez a distância desapareça se os itens forem oferecidos abertamente. Mas a resposta é morna. Um jovem do banco de poupança apenas dá uma olhada rápida, um casal da cidade passa de carro e observa os cômodos com olhares que parecem mais adequados à reforma do que à coleção. Ninguém fica para negociar. Às vezes, olhares curiosos se demoram na cerca do jardim, pessoas que julgam sem tomar nenhuma atitude.
À noite, Anna costuma sentar-se sozinha à mesa da cozinha, rodeada de papéis que não organiza imediatamente, uma vela tremeluzindo, o fogão a ticar. Ela olha para a rua; algumas pessoas passam, mas ninguém toca a campainha. Uma vizinha idosa, a Sra. Weiss, certa vez lhe traz uma tigela de ensopado e a coloca a um metro e meio da porta. "Só estou deixando e já vou", diz ela, com um sorriso cansado. Anna abre a porta, pega a tigela e convida a Sra. Weiss a entrar; a mulher balança a cabeça negativamente. "Não, não. Está tudo bem. Achei que a senhora pudesse precisar." É um gesto que demonstra afeto, mas também cautela. A Sra. Weiss não é fria, mas a cautela lhe é intrínseca. "As coisas não são mais como eram", murmura ela ao sair, "algumas histórias é melhor deixar guardadas no armário."
A rejeição corrói Anna por dentro. Ela é autoconfiante, sabe lidar com a rejeição, mas esse tipo de reticência dói de uma maneira diferente, porque não se deve a nenhuma falha pessoal dela. É como se todos estivessem sentados à mesa e alguém a tivesse excluído silenciosamente. Certa noite, depois de trancar a porta e deixar o silêncio da casa envolvê-la como um cobertor, ela ouve um cachorro uivar na beira da mata. É um uivo longo e claro que se perde na escuridão. Anna pousa a xícara e escuta. O som é como uma pergunta, um grito no vazio.
No terceiro dia de triagem, ela encontra uma caixa de documentos que parecem diferentes das contas — papel mais grosso, escrita com letras densas e um lacre desbotado. Em um envelope, ela encontra cartas manuscritas, aparentemente endereçadas a Agnes; a caligrafia é antiquada, a linguagem calorosa e densa. Uma das cartas contém uma frase que Anna não esperava: "Fizemos o que era necessário para sobreviver. Mas a aldeia jamais deve saber o mesmo." Anna franze a testa. Quem é "nós" não está claro; a carta não tem data. Um pequeno pedaço de papel, usado como marcador de livro, traz as palavras, na letra de sua avó: "Só para você, Anna, quando você voltar." Anna fecha o envelope e sente um aperto no peito, uma excitação mais próxima da curiosidade do que do medo.
Ela hesita por um longo tempo sobre se deve ou não ler a carta. Privacidade é sagrada, seu pai sempre explica quando fala sobre assuntos de família. Mas o bilhete está ali, como se a estivesse esperando. Lentamente, quase solenemente, Anna abre o envelope. A caligrafia é simples, clara: “Minha querida Anna, quando você ler isto, eu já terei partido. Perdoe-me pelos meus segredos. Eu queria protegê-la, não sobrecarregá-la.” Em seguida, vem uma série de nomes e datas, registros de dívidas, de pessoas da comunidade que buscaram sua ajuda. Parece uma teia de favores e pequenos riscos que Agnes administrava — que alguém necessitado fosse ajudado, que outra pessoa tivesse que pagar por isso. Mas a última linha soa mais sombria: um bilhete, uma palavra que não é explicada — “O Pacto”.
Anna coloca a carta ao lado dela. "O Pacto." Parece uma frase de um romance antigo, como uma história contada a crianças como um aviso. Mas na caligrafia de Agnes, carrega um peso. Anna respira fundo e decide que não vai fugir. Ela ficará, examinará os papéis, buscará respostas. Talvez seja apenas uma metáfora para um longo acordo — uma promessa secreta —, mas a forma como a aldeia reage a faz acreditar que há algo mais por trás disso. As pessoas podem guardar segredos mais do que admitem.
As noites estão ficando mais longas. Certa vez, enquanto estava sentada até tarde na cozinha organizando contas antigas, a luz acabou; a escuridão desceu como uma cortina. As velas tremeluziram e os sons da casa se tornaram mais nítidos — um cano de água funcionando suavemente, uma janela tremendo em sua moldura. Ao longe, além dos jardins, ela ouviu o uivo novamente, desta vez mais próximo, mais insistente. Anna se levantou, foi até a porta, olhou para o caminho, para as árvores se movendo ao vento. Não havia ninguém à vista. Apenas a silhueta do moinho de vento se destacava contra o céu.
Ela balança a cabeça, ri baixinho de si mesma, aproxima a vela e continua lendo. Ela sabe que a Velha Kaster guarda segredos que nenhuma cidade conhece: histórias escondidas nas frestas, memórias que não desaparecem porque ninguém se dá ao trabalho de apagá-las. E ela também sabe que não vai voltar atrás. A frieza das pessoas continua sendo um desafio, mas não um obstáculo ao qual ela se renderá. Agnes deixou sua casa para trás e, com ela, uma caixa cheia de perguntas. Anna coloca a carta de volta na caixa, fecha a tampa delicadamente e sussurra, sem ter certeza a quem as palavras são dirigidas: "Vou ficar. Vou resolver as coisas. Vou descobrir o que você escondeu."
Lá fora, a sombra da floresta se alonga; uma rajada de vento carrega folhas, rodopiando como pequenos fantasmas à luz de velas. Anna puxa o cobertor até os joelhos e escuta o tique-taque do relógio — a pulsação silenciosa e constante da casa. Lá fora, o uivo cessa, como se respeitasse um limite, um pequeno círculo invisível que não deve ultrapassar. Anna fecha os olhos. Amanhã ela continuará a resolver as coisas, amanhã conversará com o guarda florestal, com o pastor, com qualquer um que possa ajudá-la a entender. Ela está cansada, exausta, irritada — mas não está sozinha em sua dor. O silêncio na casa não é apenas vazio; é um convite para fazer algo.
Enquanto a casa respira na noite, Anna pensa nas mãos de Agnes, nas histórias contadas ao redor da mesa da cozinha, no sorriso que Agnes lhe deu quando Anna era pequena e tinha medo do escuro. "A escuridão tem seus motivos", Agnes dizia. "Às vezes são apenas animais. Às vezes são pessoas." Anna se pergunta a qual categoria pertencem os segredos de sua avó. Ela sabe apenas uma coisa: se algo em Old Kaster a estava procurando, vai encontrá-la agora — e ela não vai fugir.
A manhã está cinzenta, uma estreita faixa de luz tenta romper a cobertura de nuvens, mas a aldeia permanece silenciosa, como se tivesse concordado com uma confissão incômoda. Anna aperta o casaco, as mãos nos bolsos, a respiração formando pequenas nuvens enquanto caminha pela estreita estrada de terra. Ela carrega as fotos e as cartas em uma sacola; o pesado envelope com as anotações de Agnes pesa como lastro em seu coração. Ela planeja falar com o Sr. Berg, o guarda florestal, hoje — porque ele é quem conhece os recantos da Velha Kaster, os caminhos que ninguém mais percorre. Mas mesmo na bifurcação da trilha, seus passos permanecem incertos.
"Você viu isso?", pergunta uma voz atrás dela. Dois adolescentes estão parados perto da cerca, com as mãos nos bolsos e os cabelos despenteados pelo vento. Quando Anna se aproxima, eles a olham, incertos e curiosos.
"O quê?" Anna tenta manter a calma. Ela não quer semear o pânico, não quer dar margem a rumores – e, no entanto, sente um aperto no estômago: a lembrança da última frase de Agnes, "O Pacto".
"Na trilha de barro. As pegadas. Sangue também. A polícia esteve aqui." Um dos garotos acena com a cabeça na direção da trilha de terra que leva à Floresta de Kasterer. "A princípio pensamos que fosse um veado, mas... bem."
Anna acena com a cabeça, sem demonstrar o quão acelerado está seu coração. "Obrigada", diz ela, e continua caminhando, com passos agora firmes. O caminho de terra batida não fica longe da casa; em poucos minutos, ela estará onde a estrada da vila se estreita, transformando-se em uma trilha.
Mesmo à distância, algo caótico é visível: marcas brancas, uma faixa estreita, como se alguém tivesse atravessado a grama às pressas. A fita policial tremula suavemente ao vento – amarela, objetiva, quase deslocada no ambiente rural.
"Bom dia." Um homem de jaqueta escura, com um cachecol fino e um chapéu, está ao lado da fita de isolamento. Seu crachá o identifica: Sr. Kahl, um policial de Bedburg, responsável pela área. Seu olhar se detém brevemente em Anna, como se a estivesse avaliando, e então ele lhe entrega uma folha dobrada com uma série de fotos: pegadas na argila, rasgos em um casaco e, como bônus, manchas escuras no chão.
“Você é Anna Zielke?”, ele pergunta. Sua voz é ensaiada, mas de alguma forma indiferente – o rosto de alguém que vê frequentemente xícaras e papéis, não tragédias.
Anna acena com a cabeça. "Sim. Fica perto da casa da minha avó."
Ele olha para ela e, pela primeira vez desde sua chegada, ela sente uma atenção direta e inabalável. "Você mora na casa? Ótimo. Ainda estamos investigando. Foi um morador local que encontrou as pegadas. A princípio, pensamos que fosse um animal, mas... bem..." Ele hesita, as palavras lhe faltando, como se fossem grandes demais para a rua estreita.
Anna se inclina sobre as fotos. As pegadas são estranhas — não exatamente como pegadas de veado, nem como pegadas de cachorro. Os contornos são mais compridos que um pé humano, mas mais largos, com uma protuberância indistinta no calcanhar que quase parece um desenho. Em um ponto, há arranhões na argila, linhas curvas que não correspondem a uma passada normal.
"O que você diz?", pergunta Anna.
O Sr. Kahl empurra o boné para trás. “Não sabemos. Não temos certeza. É difícil. Pode ser um animal com alguma deformidade — ou pessoas que deixaram algo para trás. O sangue…” Ele abaixa a voz. “O sangue não corresponde exatamente a uma mordida de animal. Mas isso é preliminar. Estamos coletando amostras.”
“E o casaco?”, pergunta Anna. As fotos mostram um pedaço de tecido, meio rasgado, puxado para uma sebe. Uma mancha escura, do tamanho de uma mão, está estampada nele.
"Meio queimado. Ou despedaçado. Nós o encontramos lá." O Sr. Kahl olha para os campos. "Nenhum corpo. Nenhum boletim de ocorrência de pessoa desaparecida até agora. Alguns dizem que alguém foi chamado à noite. Eu não sei."
Anna ajoelha-se na argila fria, embora suas unhas fiquem vermelhas imediatamente. As impressões digitais jazem ali como um texto silencioso. Ela aproxima a ponta dos dedos de uma das bordas da impressão, sem tocá-la. A terra está úmida e congela rapidamente, como se o frio estivesse preservando o evento. Um pequeno fio de cabelo se agarra à borda de uma das impressões — claro, quase branco, em contraste com o chão escuro. Anna o levanta cuidadosamente e o coloca em um envelope. Ciência, ela começa a pensar, e um estranho senso de responsabilidade cresce dentro dela: ela não é apenas uma herdeira, ela é uma testemunha.
“As pessoas estão cochichando”, diz uma voz de repente atrás delas. Anna se vira. Uma mulher está debruçada sobre a cerca; seu rosto está marcado por rugas profundas, seus cabelos ralos, seus olhos grandes e claros. Os cães a deixaram, mas sua voz carrega algo que exige atenção — não a normalidade desejada, mas o peso de algo que há muito tempo não é ouvido.
"Sra. Mertens?", pergunta Anna. Ela conhece o nome: a velha senhora que às vezes fica sentada na padaria, a quem as pessoas sorriem e ignoram porque ela carrega muito do passado.
A Sra. Mertens acena lentamente com a cabeça. "Podem me chamar de louca, que seja. Mas eu tenho olhos. E ouvidos. E os mais velhos falavam quando eu era criança. 'Gealt', diziam. 'Gealt'. Não é uma palavra que se ouve com frequência. Eles a diziam quando as noites começavam a ficar diferentes." Ela se inclina para a frente, sua voz se tornando um sussurro que corta tudo, apesar das fitas amarradas às árvores. "Você não vê? Está começando de novo."
Alguns dos fazendeiros parados na beira da estrada trocam olhares inquietos. Um deles pigarreia como se quisesse dizer algo tranquilizador. "Ah, Mertens, não diga essas coisas. Temos raposas e cães vadios por aqui, nada de intelectual." Ele tenta disfarçar o riso na voz, mas seus olhos permanecem fixos nos trilhos.
“Gealt”, repete a Sra. Mertens, olhando diretamente para Anna. “Você é Zielke. Neta de Agnes. Sua avó costumava me ajudar. Vou cuidar de você enquanto você escuta.” Em seus olhos brilha algo mais do que superstição: uma triste certeza, uma que já dura anos.
Anna sente um aperto no estômago. As palavras "violência" e "o pacto" colidem como duas teclas que, de repente, tocam a mesma nota. Ela engole em seco. "O que exatamente isso significa?", pergunta, com a voz o mais objetiva possível.
A Sra. Mertens suspira. “É uma palavra antiga. Não está nos livros, não se aprende na escola. Há muito tempo, neste país, existiam coisas que não podiam ser explicadas. Alguns diziam que eram maldições. Outros diziam que eram animais com alma. Chamávamos de Gealt quando uma pessoa se transformava em noite e nunca mais voltava ao dia.” Ela olha para o grupo, que agora está subitamente em silêncio. “Estou apenas dizendo o que sei.”
O Sr. Berg, o guarda florestal, surge lentamente pela esquina, alto, de ombros largos, com as botas cobertas de lama. Ele segura o chapéu na mão, com o rosto cansado. "Não devemos nos deixar levar por histórias", diz ele, mas sua voz treme um pouco. "Estamos coletando amostras. Estamos examinando as pegadas. Enquanto não tivermos provas, são apenas pegadas."
"Amostras de quê?", pergunta Anna. "De humanos ou animais?"
“Ambos”, responde Kahl laconicamente. “O DNA dirá. Estamos enviando isso para a cidade.” Ele coça o queixo, parecendo repentinamente muito jovem, como se o uniforme e a banda não o estivessem ajudando. “Mas me diga uma coisa, Sra. Zielke: você ouviu algo incomum? Barulhos? Passos?”
Anna pensa nas noites da última semana – os uivos que lhe lembravam uma pergunta que ecoava em seus ossos, as sombras que se estendiam como se tivessem consciência. Ela diz: “Eu ouvi um uivo. Ontem à noite. Estava perto, mas não como um cachorro. Mais como… um choro.”
O Sr. Berg rosna baixinho. “O uivo é mais antigo do que nós. Eu o ouço ocasionalmente quando o vento sopra na direção errada. Mas não é frequente. Quando o Sr. Kahl coleta amostras aqui, também verificamos se há movimentação de animais. Pode ser qualquer coisa.” Ele tenta normalizar a conversa, mas suas mãos agora tremem visivelmente.
Os aldeões se agruparam, as opiniões estavam divididas; alguns falavam alto, outros sussurravam, mas por baixo do ruído jazia um tênue e persistente núcleo de medo. Anna ficou ali parada, as cartas de Agnes ainda quentes em sua bolsa, a mente trabalhando: se fosse mesmo algo antigo, então era maior do que mera superstição. Se as marcas não eram nem humanas nem claramente animais, então o espaço entre os dois era onde as antigas histórias se enraízavam.
"Você vai deixar para trás?", pergunta a Sra. Mertens, como se já soubesse a pergunta e apenas quisesse uma confirmação. "Ou quer ver o que foi deixado para trás?"
Anna sente a pressão dos olhares deles. "Vou investigar", diz ela lentamente. "Quero saber o que aconteceu."
À tarde, o jovem assistente do comissário chega de Bedburg, usando botas de borracha e demonstrando uma meticulosidade que lembra um exame. Ele coleta amostras, empacota cabelos, raspa o chão, fotografa os restos do casaco e anota tudo em frases longas e ensaiadas. Ele faz perguntas concisas que Anna precisa responder: quando ela saiu de casa pela última vez, quem ela viu chegar, se sua avó tinha algum inimigo. Suas perguntas são objetivas, mas nas entrelinhas, há uma sensação de algo mais.
"Será que Agnes tinha alguém que a estivesse perseguindo?", ele pergunta.
Anna pensa nos antigos moradores da vila, nas desavenças, nas cartas com suas insinuações. "Que saibamos, não. Ela era popular, mas tinha... segredos. Ela ajudava, escondia, se preocupava." Anna hesita, mas sua coragem cresce com a curiosidade. "Ela mencionou algo em uma carta. Uma palavra: 'O Pacto'."
O jovem ergue uma sobrancelha. "O pacto?"
"Não sei o que é. Ainda não." Anna sente que está diante de um limiar. "Mas tenho a sensação de que está ligado a isto."
O sol está se pondo, a vila está envolta em um frio cinzento. A polícia está arrumando suas coisas, prometendo entregar os resultados esta noite – a análise de DNA levará tempo, dizem eles. As pessoas se dispersam lentamente, retornando para suas casas, onde os radiadores assobiam e vozes de crianças preenchem o ar por um breve instante.
Quando a cerca está quase vazia, só resta a Sra. Mertens. Ela passa a mão pela casca da velha cerca de madeira, como se estivesse lendo as histórias através dela.
“Cuide-se, Anna Zielke”, diz ela finalmente, e não há escárnio em sua voz, apenas um vislumbre de esperança. “Está te testando. Não apenas a noite. As pessoas também. Às vezes, ambas são mais difíceis.”
Anna sente uma mistura de desafio e alívio. "Eu sei", diz ela. "Não sou mais a criança que foge de casa."
Quando ela volta para casa à noite, a luz na sala de estar da avó está fraca. Ela prepara uma xícara de chá, senta-se perto da janela e olha para fora. O caminho de barro permanece imóvel, como uma veia que chega ao repouso. Mas dentro dela, não há quietude. As palavras "Gealt" e "O Pacto" circulam como dois pássaros famintos — eles sabem que algo está por vir, e não sabem se será benéfico.
Ela abre a caixa de documentos novamente. Entre contas e fotos, encontra uma antiga coleção de recortes de jornal de décadas atrás, relatando o desaparecimento de ovelhas atacadas por predadores e de cães. Os artigos trazem nomes que ela reconhece — famílias que ainda vivem na vila. Uma página amarelada diz: “Noites de terror em Alt-Kaster: Pastor relata ataques inexplicáveis”. A reportagem é breve, factual, como se um escritor estivesse descrevendo algo que não se atreve a interpretar. Anna coloca o jornal de lado, com as mãos tremendo levemente.
Lá fora, a silhueta do moinho de vento se destaca contra o céu; mais longe, em algum lugar na Floresta de Kasterer, um único uivo quebra o silêncio — breve, como uma piscadela. Anna pousa a xícara, levanta-se, coloca a mão espalmada contra a janela e sente o frio através do vidro. Ela pensa nas mãos de Agnes, na cruz no corredor, na caixa com a etiqueta "Só para você". Ela sabe agora que não é apenas herdeira de bens materiais; é herdeira de uma história que pesa muito e talvez seja perigosa. A questão que se coloca diante dela não é acadêmica: ela quer saber a verdade, por mais feia que seja? Ou deixará as coisas como a maioria faz — atrás de portas fechadas, enterradas no silêncio?
Anna solta um suspiro.
"Quero saber", ela sussurra, mais para si mesma do que para o resto da sala. "Não importa o preço."
A noite se instala como um manto sobre Alt-Kaster. Ao longe, um uivo soa novamente, desta vez mais longo, mais intenso. Não soa apenas como um animal; soa como um grito em busca de respostas. Anna contempla a paisagem pela janela por mais um tempo, até que o som se dissipe. Então, ela apaga a luz e vai para o quarto. Debaixo do travesseiro, encontra a carta com o bilhete escrito à mão: "Só para você, Anna". Ela fecha os olhos, mas o sono continua a lhe escapar. Lá fora, o vento sussurra na mata, e em algum lugar entre os galhos escuros, algo range, como se estivesse se mexendo.
