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Natalie Adams tem vinte anos, é loira e mestre em apresentar sua vida da melhor maneira possível. Em suas postagens brilhantes de Colônia, cada curtida, cada seguidor conta — uma validação que ela nunca aprendeu a substituir. Então ela conhece Bilal: charmoso, assertivo, um homem que transforma intimidade em alcance e promete sucesso. De repente, os números disparam, as ofertas chovem — e com elas, as exigências. Presa entre o vício da fama e a pressão que a acompanha, a vida cotidiana de Natalie começa a desmoronar: de pequenos compromissos a mecanismos de controle, da atenção pública a humilhações privadas. "Influencer" é um drama social claro e envolvente sobre poder, desejo e autopreservação. Narra a tentação de se perder em imagens, o perigo que espreita por trás do glamour e os árduos, e às vezes pouco espetaculares, passos de volta à própria vida. Um romance sobre a fragilidade da visibilidade — e sobre a força necessária para redescobrir o verdadeiro eu.
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Seitenzahl: 331
Veröffentlichungsjahr: 2026
Elias J. Connor
Influencer (portuguese edition)
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Inhaltsverzeichnis
Titel
Dedicação
Capítulo 1 - Curtidas e Espelhos
Capítulo 2 - Bilal
Capítulo 3 - Rosas e alcance
Capítulo 4 - Pequenas demandas
Capítulo 5 - A oferta
Capítulo 6 - Dúvida
Capítulo 7 - A decisão
Capítulo 8 - Glória e abismo
Capítulo 9 - Tempestade de merda
Capítulo 10 - Primeiro ato
Capítulo 11 - Silêncio
Capítulo 12 - Compulsão
Capítulo 13 - Vida dupla
Capítulo 14 - Isolamento
Capítulo 15 - Fachada em ruínas
Capítulo 16 - Auto-ódio
Capítulo 17 - Uma fronteira é cruzada
Capítulo 18 - Uma carta para o tio
Capítulo 19 - Escute bem
Capítulo 20 - Planejamento
Capítulo 21 - Pequenas escapadas
Capítulo 22 - Escalada
Capítulo 23 - A fuga
Capítulo 24 - Abaixo da superfície
Capítulo 25 - Justiça e contra-ataques
Capítulo 26 - Adeus aos holofotes
Capítulo 27 - Novos começos
Sobre o autor Elias J. Connor
Impressum neobooks
Para minha namorada.
Você é a luz da minha vida.
Você me traz a felicidade que tenho procurado por anos.
Obrigado por estar presente.
Natalie ainda está meio sonolenta quando seu celular vibra. Ela deixa o braço pendurado para fora da cama, pega o aparelho quase instintivamente e vê pequenos lampejos de vida na barra de notificações: um novo coração em um comentário, duas mensagens diretas, uma notificação de que seu último Reel está aparecendo na coluna "Para você". Uma sensação calorosa percorre seu corpo — não exatamente felicidade, mas uma elevação imediata e nítida, como se suas costas estivessem sendo sustentadas por mãos invisíveis. Ela sorri enquanto olha para a tela, o mundo lá fora permanecendo um pouco embaçado.
"Só mais cinco minutos", ela murmura, porque tem que ser assim, mas sua mão permanece no telefone. Um olhar para os números é suficiente: o pequeno impulso que vem com cada novo seguidor, a certeza de que existe alguém lá fora que a vê.
O rádio já está tocando baixinho no banheiro, a voz do locutor como uma luz suave. Natalie coloca o ring light em frente à janela e o liga, só para garantir que a pele no vídeo esteja com a aparência correta: quente, vibrante, sem brilho excessivo. Ela conhece as nuances da iluminação melhor do que a maioria dos seus colegas conhece o horário de funcionamento da biblioteca. A luz é ao mesmo tempo amiga e juíza; ela torna honesto o que ela quer mostrar ao público.
Ela tira a base, o corretivo e o bronzeador da gaveta — conhece os contornos de cor. Enquanto os aplica, cantarola uma música que ouviu num vídeo ontem, uma daquelas que está bombando. Tendências são como ímãs; segui-las é um trabalho.
Natalie solta um suspiro pesado.
Em frente ao espelho, ela pratica três poses diferentes, não apenas para autoafirmação, mas porque cada pose revela uma versão diferente de si mesma. "Queixo mais projetado, sorriso mais relaxado, olhos um pouco menores", diz baixinho para si mesma, ajustando o pescoço. Um reflexo que ela cria para ser observado. Ela pronuncia as primeiras frases, testando o tom da história: "Bom dia a todos! Já tomaram café? Hoje vou mostrar rapidinho meu kit de maquiagem matinal..." Sua voz é suave, amigável, um pouco sedutora. Ela seca o cabelo com o secador, ajeitando as mechas para que caiam mais suavemente para o lado direito. A câmera, um smartphone em um pequeno tripé, registra silenciosamente os pequenos rituais, que para ela são ao mesmo tempo prática e ritual.
Seu apartamento é uma mistura heterogênea de coisas que se encaixam de uma forma que só a palavra "aluguel" consegue descrever. Uma cama, uma pequena cômoda, dois bancos, uma mesa com um laptop. No parapeito da janela, uma planta murcha, da qual ela às vezes se esquece, mas na maioria das vezes consegue tirar uma foto em que a planta passa por "verde urbano". Cartões-postais e uma página de calendário gasta enfeitam a parede, com anotações indicando os dias passados como pequenos marcos: contas, provas, posts com dez mil visualizações. A vida tem dois ritmos: o ritmo de estudante, com seminários, e o ritmo algorítmico, com horários de upload e picos de tráfego. Ela tenta conciliar os dois, mas um ofusca cada vez mais o outro.
Enquanto retoca o batom, ela abre um aplicativo e lê os dados analíticos. Os números falam uma linguagem que, às vezes, é mais clara para ela do que qualquer aula: alcance, impressões, taxa de retenção. Uma barra sobe — movimentos pequenos, mas visíveis; a correlação entre a postagem da noite passada e o leve aumento de seguidores desta manhã é óbvia. "Legal", ela diz em voz alta, como se as estatísticas fossem alguém a elogiando. Os dados lhe dão uma sensação de controle. Na universidade, ela costuma se sentir à deriva, sem rumo. Aqui, com os números, existe uma espécie de plano: Reels nos dias de semana A e B, Lives às sextas. Ela não consegue explicar racionalmente por que isso a acalma; é como um plano para uma vida invisível.
O celular dela vibra novamente. Uma mensagem da mãe. "Como você está, querida? Vai receber visitas hoje?" Natalie suspira baixinho. "Depende", digita, e apaga a mensagem. A mãe é um lugar seguro, mas distante, um lugar para o qual ela às vezes luta para encontrar a atmosfera certa. As mensagens são curtas, cheias de preocupação, raramente curiosas sobre detalhes. "Sim, estou na universidade, talvez faça um turno no café." Um emoji de coração. A conexão é amigável, mas é menos um laço e mais uma rotina. A família está presente, mas à distância; um porto onde os barcos raramente atracam.
O orçamento doméstico está apertado. Ela pagou o aluguel, mas a conta quase não tem reservas. As contas estão amontoadas em uma gaveta, escondidas em um canto, marcadas com post-its como pequenos lembretes. Ela aprendeu a priorizar: aluguel, luz, internet – tudo o que torna a vida possível fica em segundo plano em relação a pequenos prazeres como jaquetas novas ou visitas espontâneas a restaurantes. As colaborações ocasionais que surgem não são apenas um elogio; são uma jogada calculada. Um agente escreveu há duas semanas: "Você estaria interessada em uma campanha de lingerie?". A mensagem ainda está lá, sem ser processada, em sua caixa de entrada. Lingerie é uma palavra que significa tanto cura quanto risco. Ela guarda a mensagem, considera-a uma opção, porque opção também significa liberdade. Mas à noite, quando os números diminuem, ela costuma pensar em como o reconhecimento está intimamente ligado ao dinheiro e como uma pequena monetização pode se transformar rapidamente em uma necessidade.
Ela veste uma jaqueta leve, joga a mochila no ombro e sai do apartamento. O frio lá fora é cortante; o cheiro de folhas molhadas se mistura com a fumaça dos escapamentos. No caminho para o bonde, ela digita uma breve mensagem de voz para sua melhor amiga, Lina.
"Tenho uma ideia para um Reel hoje que poderia ser publicado. Quer testá-lo mais tarde?"
"Claro", responde Lina imediatamente, e em seguida acrescenta um emoji de coração.
Lina é uma constante, um contraponto humano aos números frios: honesta, direta, muitas vezes cuidadosa para proteger Natalie de decisões precipitadas, mas também a primeira a aplaudir. A amizade delas é uma mistura de conselhos e expectativas, reconfortante e exaustiva ao mesmo tempo.
Na universidade, ela assiste a uma aula, mas o assunto lhe escapa; o professor está falando sobre teorias sociológicas que Natalie considera intelectualmente interessantes, mas que não se encaixam no seu dia a dia. Em vez disso, ela anota ideias para o vídeo: cortes rápidos, oito segundos de passos de dança, uma trilha sonora moderna em loop. A teoria continua sendo teoria quando a realidade das metas de alcance se impõe. Um colega pergunta durante um intervalo se ela quer participar do projeto em grupo. "Sim, claro", ela responde, sem mencionar que "claro" muitas vezes significa apenas "farei isso nas horas vagas". Suas prioridades se definem de uma maneira que os outros geralmente não entendem: para ela, investir em visibilidade é como estudar, só que o resultado é imediatamente visível — uma sensação de realização que surge justamente quando o número de visualizações aumenta.
À tarde, ela trabalha no café da esquina. O dono, Sr. Jansen, a chama pelo nome como se ela fosse parte da mobília e sua garçonete favorita ao mesmo tempo. "Natalie, você vai preparar os lattes rapidinho hoje, tá bom?" Sua voz tem uma gentileza familiar e ensaiada. Ela acena com a cabeça, pega a jarra, espuma o leite e observa os rostinhos das pessoas segurando suas bebidas como miniaturas de cenas do cotidiano. Trabalhar no café é diferente das redes sociais; aqui, há gestos genuínos, um carinho que não se multiplica. Um casal de idosos a agradece, e ela retribui o sorriso sinceramente. Essa é uma moeda que não pode ser medida em seguidores. Mesmo assim, às vezes ela se sente compelida a buscar ambas as moedas: seu salário em dinheiro e a recompensa da atenção online.
Um cliente habitual, um jovem de óculos grossos, inclina-se em direção ao balcão.
"Olá, Natalie, que bom te ver hoje. Você viu a nova postagem de ontem?" Ele sorri timidamente.
"Claro, obrigada! Você foi tão gentil de novo." Ela lhe dá uma piscadela rápida e brincalhona. Encontros como esses são suaves como o sol; autênticos, breves e honestos. Às vezes, ela inveja aquelas pessoas que não precisam negociar sua identidade por meio de postagens em redes sociais.
“Fico sempre muito surpresa com a quantidade de hóspedes que me seguem”, diz ela mais tarde para Lina, enquanto fumam um cigarro do lado de fora.
"Isso é bom, não é?", responde Lina.
"Sim, mas às vezes eu gostaria que eles gostassem de mim mesmo sem filtro."
Lina sorri. "Acredite em mim, eles gostam de você exatamente como você é."
O telefone dela toca à tarde. Uma mensagem direta de uma conta desconhecida: "Nossa, você é tão bonita! Quer se encontrar?" Ela sente aquele impulso familiar: a alegria de ser desejada e, ao mesmo tempo, um reflexo protetor. Ela ignora a mensagem, apaga a conversa. Esses convites são como gotas de chuva em uma janela — vêm, formam linhas, mas não são necessariamente o clima. Mesmo assim, toda vez que alguém se dirige a ela diretamente, chega a um nível pessoal, uma pequena vibração percorre seu corpo. É difícil dizer se é a atenção que ela anseia ou a chance de estar perto de alguém sem a câmera no meio.
Em casa, ela planeja o vídeo. Seleciona a música, edita as sequências e brinca com as transições. Para ela, a arte da perfeição não é apenas expressão; é maestria. Cada segundo do vídeo é calculado: o que ficará na mente do espectador? Qual pose? Qual olhar? A edição costuma ser meditativa; não há pressão, apenas o trabalho meticuloso que leva a um produto final. Ao cair da noite, seu nervosismo aumenta: uma transmissão ao vivo está agendada. Ela gosta de transmissões ao vivo porque são rápidas e espontâneas, mas também exigem coragem. Transmissões ao vivo são o que o algoritmo mais recompensa, e coragem é justamente o que muitas vezes lhe falta.
“Não fique acordada até muito tarde”, escreve Lina, “você vai precisar de energia para o seu turno amanhã”. Natalie sorri com a consideração. “Eu sei. Vou ficar meia hora. É o suficiente.” Ela sabe que mais nem sempre é melhor, mas muitas vezes sente que quanto mais visível ela é, mais estável essa visibilidade se torna. Talvez isso não seja verdade, talvez seja apenas superstição — mas superstição às vezes é um plano melhor do que nenhum plano.
Ela inicia a transmissão ao vivo. O número de espectadores aumenta lentamente, os comentários chegam em pequenas ondas. "Oi, Nat!", "Você tem alguma recomendação de produto?", "Lina, manda um oi para ela por mim!" Ela responde, ri, faz perguntas, luta contra a insegurança que insiste em surgir: Será que sou interessante o suficiente? Ela percebe que sua voz treme quando uma mensagem de um troll aparece — alguém postando algo maldoso, um comentário sobre sua aparência. Dói, mas ela aprendeu a lidar com a dor: sorri, ignora, filtra e continua. "Ignora", Lina escreve no chat, e Natalie acena com a cabeça como se fosse um sinal físico.
Após a transmissão ao vivo, uma breve onda de interesse toma conta: gráficos, curtidas, novos seguidores. As estatísticas mostram uma reação positiva, e a sensação é como um chá quente: reconfortante, satisfatória por um breve momento. Ela lê os comentários, responde a alguns e salva capturas de tela para uma possível colaboração. O agente que escreveu sobre a campanha de lingerie ficaria satisfeito. A questão permanece: quanto de si mesma você vende antes que a autenticidade se torne uma mercadoria? Ela não responde à pergunta. Por ora, os números são suficientes, e por ora, a sensação de queimação no peito, proveniente da certeza de ter conquistado algo, é suficiente.
Por volta da meia-noite, as contas continuam em aberto, mas também pequenos vislumbres de esperança. "Você se comportou muito bem hoje", Lina manda uma mensagem, "e falou com tanta calma". Natalie larga o celular e olha para o teto. O apartamento está silencioso, exceto pelo zumbido suave do radiador. Ali, como uma sombra atrás do sofá, reside o vazio que ela raramente nomeia. Ela sente uma melancolia que não é dramática, mais uma presença constante: a suspeita de que a visibilidade é apenas superficial; que talvez algo esteja faltando sob esse brilho — continuidade, intimidade genuína, uma conta bancária que não se alegra com o menor saque.
Ela pensa na mãe, na voz que às vezes a liga preocupada, na última transferência de dinheiro que enviou.
Ao apagar a luz, uma breve imagem passa diante de seus olhos: ela mesma em frente a um espelho, não como se fosse para uma postagem em redes sociais, mas sim de forma natural, refletindo sobre quem ela é quando ninguém está olhando. A consciência do seu corpo está ali, a lembrança do sorriso que ela praticou milhões de vezes hoje.
Ela fecha os olhos e tenta silenciar a voz interior que pergunta: "Aquilo foi real? Ou foi apenas uma boa iluminação?"
O sono chega devagar. Durante a noite, no espaço liminar entre o sonho e a vigília, seu cérebro já está fervilhando de ideias: um novo filme, uma colaboração, talvez um seminário ao qual ela possa, afinal, comparecer sem muita convicção. É uma oscilação constante entre aspiração e realidade, entre desejo e possibilidade. Mas a manhã já chama novamente com sua pequena promessa: uma luz de anel acendendo, uma contagem regressiva começando e o reconfortante guincho do bonde. Natalie sabe que continuará — sempre em frente. A plataforma a aguarda e, com ela, a chance de preencher o que arde dentro dela com o mundo exterior. Por ora, ela coloca as mãos atrás da cabeça, respira fundo e deixa o cansaço chegar. Amanhã a luz acenderá novamente.
O evento acontece em um armazém abandonado às margens do Reno, um salão com paredes de tijolos rústicos, luzes de fada, mesas altas e um bar que serve Prosecco em taças pequenas. Uma música suave preenche o ambiente; vozes se misturam ao tilintar do gelo. Natalie entra como qualquer outra pessoa, mas com a vaga consciência de que seu rosto já apareceu algumas vezes na tela do smartphone de algum desconhecido. Ela veste uma roupa simples, porém fotogênica — uma blusa branca, calça jeans preta de cintura alta e os cabelos soltos. Suas mãos estão levemente úmidas; a empolgação não é novidade, mas cada evento tem um peso diferente.
Ela tinha planejado ser aberta, fazer conexões, talvez tirar algumas boas fotos. Mais tarde, ela posta para seus seguidores: "Evento de networking em Colônia hoje! Animada." A história já está meio formada em sua cabeça; o momento real é espontâneo e intenso. Entre apresentações, lanches gratuitos e breves conversas sobre colaborações, ela transita de um bate-papo informal para o outro, rindo, repetindo termos técnicos como se os conhecesse há anos. Então, uma figura chama sua atenção, alguém que não está apenas observando, mas ouvindo.
“Então você está dizendo que a autenticidade muitas vezes é vendida como estratégia hoje em dia?”, pergunta ele, sem terminar a pergunta, com a voz calma, tingida de uma leve curiosidade. Sua marca registrada não são as roupas ou o penteado, mas o jeito como inclina a cabeça, como alguém que realmente quer entender.
Bilal Ahmed é magro, veste um blazer sob medida e tem cabelos escuros penteados de forma natural. Seus olhos são calorosos e atentos. Ele é um pouco mais velho, talvez na casa dos vinte e poucos anos, e para Natalie, isso lhe confere um ar de experiência que traz ordem ao ambiente.
Natalie surpreende-se com uma resposta detalhada, mais do que costuma revelar a estranhos.
“Acho que muita gente mostra só um trechinho e chama de real”, diz ela. “Mas o público é esperto. Eles percebem quando algo é só atuação.” Ela nota que se sai bem na discussão, oferece contraexemplos, ri de situações irônicas e não se dá conta de quão perto ele está chegando, de como o movimento silencioso está construindo uma ponte.
“É exatamente isso que eu quero dizer”, diz Bilal, “e é precisamente por isso que gosto do seu trabalho. Você tem uma precisão discreta — nada de declarações grandiosas, apenas imagens pequenas e significativas. Isso se destaca.” Ele articula o que reside na mente dela, enquadrando suas inseguranças como um elogio. Suas palavras a colocam em um palco no qual ela ainda não ousou pisar. Um calor começa a surgir em sua palma, algo como concordância, que ela ouve tão raramente com tanta clareza.
“Obrigada”, ela responde, e a reação é genuína, surpresa com a sinceridade que seu público lhe demonstra. “Vocês também viram as postagens?”
“Sim”, diz ele, “especialmente a cena com a recomendação do livro e o café. Autêntica, sem forçar a barra. Você parece… concentrada.” Ele enfatiza a palavra como se fosse uma qualidade rara. Então pergunta casualmente: “Você trabalha sozinha? Ou tem uma equipe?”
Natalie olha para ele com uma ligeira incerteza.
"Sozinha", diz Natalie. "Pelo menos na maior parte do tempo. Algumas pessoas às vezes me ajudam com a maquiagem ou com a câmera, mas é só isso."
"Então talvez você se interesse por networking. Costumo organizar sessões de fotos e conheço fotógrafos que trabalham bem com looks naturais. Posso te apresentar a alguém." Ele sorri daquele jeito que você sorri quando faz uma oferta que não soa como um favor, mas sim como uma adição lógica.
Seu coração se enche de alegria. Networking é a palavra que ela ouve com tanta frequência, como uma promessa: crescimento, visibilidade, mais uma onda daquilo que ela deseja. Antes que possa ponderar racionalmente, ela diz sim. "Seria ótimo", diz ela. "De verdade. Obrigada."
Eles trocam números; ele envia uma mensagem curta para o smartphone dela, sua mão permanece sobre a dela por uma fração de segundo a mais, um toque fugaz demais para chamar a atenção, mas suficiente para gerar uma pequena corrente elétrica. Então ele desaparece na multidão, mas a pequena conexão permanece como uma leve pressão no bolso dela.
Nos dias seguintes, Bilal aparece com mais frequência no feed dela — não online, mas nas notificações: uma mensagem pela manhã, uma recomendação de estúdio, uma foto que ele enviou. Sua linguagem é direta, prática; as fotos dele com câmeras e laptops transmitem uma impressão de eficiência. Ele envia mood boards, pequenas colagens de combinações de cores e efeitos de iluminação, explicando por que esses tons funcionam melhor no momento. "Você deveria usar mais tons quentes", escreve ele em uma mensagem direta. "Eles dão profundidade em telas pequenas." Natalie lê, guarda a dica como se fosse uma chave e testa os filtros sugeridos em seu próximo Reel.
“Ficou ótimo”, diz Lina ao ver o novo vídeo. “Parece mais profissional.” Lina pisca para ela, mas há também uma pergunta em seus olhos: será que Natalie ainda se reconhece? Natalie responde evasivamente: “É só um experimento.” Por dentro, ela está comemorando. Os números estão subindo aos poucos, em picos, e ela está feliz com a validação — não apenas do conselho dele, mas do fato de que alguém está levando seu trabalho a sério.
Uma semana depois, Bilal organiza o primeiro ensaio fotográfico do casal. Ele a leva a um estúdio, acompanhado de um fotógrafo que ele elogia: "Ele tem um olhar apurado para o cotidiano, sem exageros". Uma calma concentrada preenche o estúdio. O fotógrafo é simpático, dando instruções claras; Bilal observa, permanece em silêncio e não se mostra nem intrusivo nem inseguro. Ele é como uma mesa na qual ela pode se apoiar. As fotos fluem com facilidade; ela posa, ri, fica séria e, no final, há algumas fotos que parecem pequenas descobertas.
“São fotos impactantes”, diz Bilal enquanto folheiam juntos a seleção. “Principalmente aquela com a luz da janela. Tem uma certa autenticidade.” Ele coloca brevemente a mão no ombro dela, um gesto fugaz de apoio. “Se quiser, posso enviar os arquivos para meus contatos. Marcas que combinariam com você, pessoas da indústria da moda. Há opções.” Ele diz isso como se fosse algo natural, algo que não custasse nada — exceto pela disposição de Natalie em se reorientar naquele momento.
Começa como uma amizade: pausas para café compartilhadas, mensagens sobre os melhores lugares para fotografar em Colônia, breves sessões de coaching onde ele a ensina a escrever legendas eficazes sem serem prolixas. Ele tem um rigor sutil, uma maneira de criar estrutura que ela aprecia. Sua rotina diária caótica — contas, universidade, turnos no café — de repente adquire pequenas e claras regularidades: horários de publicação, horários de pico, quando um Reel deve ser curto e quando um story tem melhor desempenho. Para ela, é como um presente: um roteiro que transforma a busca vaga por visibilidade em etapas gerenciáveis.
“Você trabalha de forma muito funcional”, diz ele em certo momento, enquanto discutem juntos uma estratégia. “Isso é ótimo. Mas precisamos dar mais destaque à sua voz. Não apenas às imagens, mas também ao que você diz.” Ele pega o celular dela e começa a escrever uma legenda. “Aqui está: ‘Rotina matinal sem filtros’, e depois uma breve declaração sobre o que essa rotina significa para você.” Ele escreve, lê em voz alta e pergunta: “Isso soa como você?”
Ela sente como se ele estivesse afinando um instrumento, e o instrumento fosse ela mesma.
Quanto mais ele a ajuda, mais ela se permite. Não é nem um ato crítico — parece mais um fluxo natural: alguém percebendo as peças que ela mal nota e as juntando. Os pedidos de colaboração surgem com mais facilidade. As marcas escrevem; Bilal responde com profissionalismo e tato. E como ele atua como um intermediário nas conversas, tudo parece menos ameaçador. "Eu cuido das negociações iniciais", diz ele. "Você pode decidir se dá a aprovação final." Sua voz soa reconfortante e tranquilizadora, como se ele fosse um tradutor entre o mundo vulnerável dela e a linguagem fria dos negócios.
Mas a cada e-mail que ele escreve para ela, a cada encontro em que ele está ao seu lado em público, a persona que ela apresenta muda. Ele é sempre educado, charmoso, um padrão que ela começa a seguir sem perceber que seu ritmo está sincronizado com o dele. Quando está sozinha, ela se sente aliviada; alguém mais está carregando o fardo da negociação. Quando ele está presente, o mundo parece maior e mais organizado. Ele a ensina coisas: como ler um contrato, onde procurar armadilhas, como definir preços. Ele fala sobre parcerias com marcas como alguém que faz parte de um ecossistema, e ela absorve avidamente as informações.
As amigas dela notam a mudança. "Ele é legal", diz Lina um dia enquanto tomam um café. "E parece mesmo que ele está tirando um peso das suas costas." Lina fica feliz por elas, mas também é cautelosa. "Cuidado para não delegar tudo", acrescenta. "Você não pode perder a sua voz."
Natalie não se deixa abalar pelo aviso; ela acena com a cabeça e sorri. "Eu sei", diz ela. Mas, por dentro, um novo padrão se instala: Quem negocia se não ele? Quem conta a minha história se não ele? A resposta parece superficialmente simples: ele.
Num domingo, eles sentam juntos num parque. Bilal explica a próxima grande oportunidade: uma marca local de roupa íntima está à procura de "rostos reais". "Eles querem pessoas que pareçam naturais", diz ele. "Não apenas modelos." Ele gira a xícara nas mãos, olha para ela. "Isso seria bom para você. Visibilidade, dinheiro, e seria honesto — nada de aparências exageradas, apenas simplicidade. Você não faria nada que não quisesse." Suas palavras são reconfortantes. Natalie vem pensando no agente há semanas; Bilal parece ser a solução. Ela sente que suas respostas acalmam as coisas: o medo do julgamento alheio diminui à sombra da perspectiva de estabilidade.
"Não sei", diz ela, hesitante. "Roupa íntima é algo bem... óbvio."
“Pode ser feito com elegância”, diz ele. “Estamos trabalhando com uma marca que valoriza o bom gosto. Não se trata de se vender, mas sim de ter confiança. E se você não quiser, basta dizer não. Mas acho que você conseguiria fazer bem feito.” Sua voz é calma, gentil, como a de um amigo à beira de um precipício, oferecendo a mão para você colocar o pé, mas garantindo que o segurará.
Ela finalmente concorda — não com a fervorosa convicção, mas sim com uma avaliação prática das oportunidades e dos riscos. Os cálculos começam a girar em sua cabeça: bom dinheiro, visibilidade, um passo à frente. A sessão de fotos está marcada para o mês que vem. Bilal organiza a equipe, cria painéis de inspiração, conversa com o gerente da marca e se expressa com uma confiança inabalável. Natalie sente como se alguém estivesse preparando o caminho para que ela alcance o sucesso.
Antes da sessão de fotos, ela passa uma noite em claro. Se pergunta se está se vendendo. Há um pequeno e agudo vazio em seu peito, não doloroso, mas como um copo vazio ansiando por ser preenchido. Ela pensa em sua mãe, em suas preocupações silenciosas, em Lina, que lhe disse para ter cuidado. E então pensa nas contas bancárias, no aluguel, na possibilidade de trabalhar menos horas no café e se concentrar mais nos estudos — se o dinheiro durar. Finalmente, ela adormece, com a imagem de Bilal, sempre controlando tudo, ao fundo.
A sessão de fotos é meticulosa, profissional e inofensiva. O estúdio é acolhedor, as pessoas são educadas; o fotógrafo as captura com luz natural. Sob os holofotes, tudo parece perfeito. A marca publica as fotos e a reação é extremamente positiva: curtidas, elogios, novos seguidores. O contrato é justo; ela está destinando parte dos ganhos para sua poupança — ou pelo menos é essa a impressão. Bilal está satisfeito; ele escreve em particular: "Muito bem. Você lidou com isso de forma muito elegante." Ele parece orgulhoso, e seu orgulho é como um eco positivo, reforçando sua autoestima.
Mas nem todos os comentários são amigáveis. Alguns são críticos, oferecendo julgamentos morais; alguns escrevem que ela é "muito leve" para essa indústria. Natalie lê os comentários secretamente, engole em seco, apaga o aplicativo e respira fundo. Quando conta para Bilal, ele reage imediatamente — não com pena, mas com energia. "Pessoas assim sempre vão falar", diz ele. "Deixe-as falar. Temos números. Temos um bom produto. E você está fazendo um bom trabalho." Sua resposta é como um escudo. Mais tarde, no parque, enquanto o sol de outono se põe, ele coloca a mão sobre a dela. É um gesto que lhe transmite segurança — e algo mais. Não ameaçador, não agora, apenas uma demonstração gentil de posse. Ela retribui o gesto porque significa confiança e porque acredita que é certo confiar em alguém que a ajuda a entender o mundo.
É assim que intimidade e carreira se entrelaçam: Bilal como um promotor, um mentor, alguém que abre redes de contatos, ao mesmo tempo que faz com que a proximidade pareça forçada. Para Natalie, ele é ambos: uma alavanca para a visibilidade e uma pessoa que a faz sentir-se menos sozinha. O vínculo que se forma é silencioso e suave, como um cordão que só mais tarde demonstra tensão. Por enquanto, existe apenas calor humano, planos, vozes dizendo que ela está no caminho certo. E nesse calor humano, o pequeno aviso que Lina deu se dissipa — naquele momento, parece que o que ela está fazendo é significativo e correto.
As semanas seguintes parecem ter sido marcadas por ajustes invisíveis na vida de Natalie. Seus dias ganham um ritmo: rotina matinal, postagens, universidade, café, Bilal, reuniões, sessões de fotos, networking. As horas se tornaram mais densas, repletas de pequenas decisões que antes tinham pouca importância. Agora, elas têm nomes: "Colaboração", "Reunião de Marca", "Planejamento de Conteúdo". E a cada item concluído, uma breve onda de alívio a invade: este é um passo adiante.
Numa manhã de segunda-feira, ela está sentada à mesa da cozinha, com o laptop aberto, olhando fixamente para os números em sua ferramenta de análise.
"Você está vendo isso?", ela pergunta, tocando com a ponta do dedo no touchpad. A curva sobe, quase ondulando como uma pequena onda. "Na semana passada, subiu 20%. Eu não conseguia acreditar."
Bilal recosta-se, com as mãos juntas, e sorri como se fosse uma vitória pessoal. "Acertamos em cheio", diz ele. "O plano de conteúdo está funcionando e você está fazendo um trabalho fantástico. As marcas estão realmente te notando agora." Sua voz é calma, quase comemorativa. "A boutique quer você para o fim de semana e a empresa de cosméticos está oferecendo um período de teste contínuo. Isso é renda regular, não um pagamento único."
Natalie sente o cálculo mental transformando os tons vermelhos em verdes: menos turnos, mais tempo para os estudos, talvez ver alguns amigos com mais frequência. "Isso facilitaria muito as coisas", diz ela, sem conseguir esconder o quanto o pensamento aquece seu coração.
Agora ele controla muitos pontos de contato em seu mundo externo — os e-mails, as propostas, os rascunhos de textos — e ela considera isso um alívio. Não que ela não aprecie a ajuda dele; é que a ajuda dele está, aos poucos, substituindo a voz dela. Muitas vezes, é uma mudança sutil. Ele escreve uma sugestão de legenda e ela a assina com um pequeno visto. Ele seleciona imagens e ela concorda com a cabeça. "Você fica melhor assim", diz ele, como se fosse uma observação objetiva, como o clima ou a temperatura.
No dia em que a boutique planeja o evento ao vivo, Natalie ensaia o roteiro em casa. "Farei uma breve introdução, depois uma sessão de perguntas e respostas e, no final, apresentarei minhas peças favoritas", explica ela para Bilal, que está sentado ao lado dela, anotando tudo. "Parece ótimo. Mantenha o seu tom — acolhedor, descontraído. Essa é a sua marca", diz ele. Ele clica no vídeo dela, pausa e dá um zoom no olhar dela. "Se você adicionar um pequeno sorriso aqui, passa uma imagem mais aberta. Mas não exagere. Autenticidade, Nat. Sempre autenticidade."
“Eu sei”, diz ela, praticando o sorriso até que pareça um músculo bem treinado. Ela ensaia mensagens de texto, respostas curtas para possíveis perguntas, e ele anota palavras-chave, corrige uma palavra aqui, ajusta uma frase ali. “Você está indo muito bem”, ele elogia. Sua voz é calorosa, o tom suave e tranquilizante.
A energia no ar vibra no evento ao vivo na boutique. A proprietária decorou a vitrine com velas, e uma música suave cria uma atmosfera aconchegante. Alguns clientes habituais, alguns rostos novos e alguns seguidores que vieram especialmente para o evento estão presentes.
Natalie está de pé junto a uma pequena mesa, as joias estão expostas, e ela conversa.
“Estou usando esta peça há alguns dias”, diz ela, “é leve, quase não se sente que está usando e tem um design tão simples que combina com qualquer ocasião do dia a dia”. As pessoas acenam com a cabeça, compram, tiram fotos. Uma mulher se aproxima dela e diz com um sorriso: “Você tem um jeito tão natural — parece genuíno”. O elogio ressoa nela como um som agradável.
Mais tarde, quando os números de vendas parecem promissores e a boutique quer republicar uma foto dela no Instagram, Bilal a chama de lado. “Vamos colocar o link e eu registro os contatos. Posso planejar o próximo sábado com eles, um evento maior, talvez uma ação no Instagram.” Ele fala como alguém com um tabuleiro de jogo à sua frente, movendo as peças. Natalie ouve e se sente apoiada. As coisas estão indo bem, e essa é uma sensação reconfortante.
A atenção está visivelmente crescendo. As pessoas na rua param com mais frequência, olham para ela, um reconhecimento fugaz, um "Ei, eu te sigo!". Certa vez, uma jovem está na padaria e não hesita em abordar Natalie: "Você é a que faz as rotinas matinais! Eu sempre assisto aos seus vídeos quando preciso sair cedo. Obrigada por fazer isso." Natalie sorri, tocada, e por um segundo, sua mente desacelera — um momento claro e simples de conexão genuína.
Mas a cada novo elogio, a cada nova colaboração, surge algo mais: decisões que deixam de ser exclusivamente dela. A seleção de imagens muda porque Bilal pensa de forma arquitetônica. "Isso é muito suave para o público-alvo", diz ele, apontando para uma foto dela rindo, tão desinibida que quase parece que ela não está no controle da imagem. "Precisamos de uma série com mais contraste, algo que chame a atenção imediatamente na pré-visualização. O algoritmo adora miniaturas impactantes."
“Mas o riso…” ela começa. “Isso parece real.”
“A autenticidade é boa”, diz ele, “mas a autenticidade também precisa se encaixar no padrão. Caso contrário, ela se perde. Veja bem, podemos usar o riso como uma narrativa, uma imagem impactante como uma publicação — ambas funcionam.” Ele sorri com uma confiança que ameniza qualquer discordância. Ela se sente convencida e aceita porque a solução dele não proíbe, mas sim facilita.
Em uma sessão de fotos para uma marca de cosméticos, Natalie está sentada em frente ao cenário, com os cabelos soltos e a luz favorecendo-a. A diretora criativa da marca, uma mulher surpreendentemente pragmática, dá uma olhada em alguns painéis de inspiração e diz: "Queremos algo que oscile entre o estilo de vida e o glamour. Precisa transmitir intimidade, não parecer um anúncio típico." Bilal está ao lado dela, o olhar alternando entre as câmeras, comunicando-se com a fotógrafa em frases curtas e precisas. "Mais movimento no seu cabelo, Nat. Mais solto, mas com elegância. Lembre-se, este produto é para mulheres que gostam de se cuidar." Ele pisca para ela — um gesto que é ao mesmo tempo reconfortante e instrutivo.
Mais tarde, no camarim, sozinha com o celular, ela grava um pequeno vídeo de bastidores. Fala para a câmera: “O set é ótimo, a equipe é adorável. Estou muito animada.” Então hesita, apaga o vídeo, respira fundo e publica uma versão diferente, com um tom mais profissional e menos anedotas íntimas. A sensação de estar se contendo aumenta. Não é dramática, mais como um leve estreitamento — como um anel que restringe um pouco sua visão.
"O que você acha do produto?", pergunta Lina certa noite enquanto bebem vinho sentadas no sofá da casa dela. A pergunta é simples, mas carregada de significado. Lina a olha, não com acusação, mas com preocupação. "Quero dizer... era isso que você imaginava?"
Natalie aproxima a xícara, pensando nas contas, nos turnos cada vez mais escassos no café, na sensação de ter algo à noite que lhe dê um rumo. "Ajuda", diz ela. "Não é perfeito, mas ajuda." Ela morde o lábio. "Às vezes me pergunto se estou expressando mais do que sou. Mas aí penso: qual a alternativa? Continuar me matando de trabalhar no café?" Ela tenta expressar a dúvida em palavras e sente que ela raramente desaparece por completo.
“Você não pode simplesmente dar as coisas de graça”, diz Lina, lentamente, como alguém que não quer magoar ninguém. “Sua voz é importante. Eu percebo isso – você se sai bem diante das câmeras. Mas tome cuidado para não se colocar em situações desconfortáveis só para atingir uma meta.”
"Eu sei", responde Natalie. "Eu também costumo dizer não. Na maioria das vezes."
Lina acena com a cabeça, mas seus olhos guardam a lembrança de outras histórias em que "na maioria das vezes" não era suficiente. "Só me prometa que você vai cuidar de si mesma. Que você não vai delegar tudo."
“Eu prometo”, diz Natalie – e naquele momento ela fala sério, porque suas promessas são honestas. Mas as promessas têm o hábito de se estenderem quanto mais necessárias elas são.
Os compromissos se infiltram em pequenos hábitos: Bilal aceita as condições de pagamento, mas também pergunta se pode ter acesso temporário ao canal de publicidade dela, "apenas para estar disponível caso alguma marca queira veicular um anúncio imediatamente". Ele apresenta isso como uma ferramenta: eficiência, rapidez de resposta, melhores negócios. "A conta continua sendo sua", enfatiza, "estou apenas fazendo ajustes temporários e você pode alterar a senha a qualquer momento". Parece lógico; as mãos dela hesitam por apenas um instante antes de ela enviar a senha. Em retrospectiva, é um ato que ela mal considera: uma pequena transferência de responsabilidade, disfarçada de medida pragmática.
“Só quero o melhor para você”, diz ele, confirmando a anotação em seu dispositivo, com palavras carinhosas. Natalie acena com a cabeça, pois soa familiar e reconfortante. A confiança é uma recompensa que ele conquista com ajuda constante. É também um compromisso que cresce aos poucos de ambos os lados.
Quanto mais ele administra as coisas, menos ela toma decisões sozinha.
Ele sugere quais ofertas ela deve aceitar e quais não. Na maioria das vezes, ela concorda porque ele tem ideias, porque a perspectiva dele reflete realidades comerciais que jogam a favor dela. Certa vez, depois de um projeto particularmente lucrativo, ele sugere que ela adote uma abordagem mais provocativa para um projeto maior: "Não mais do que você quer, mas um pouco mais ousada. Isso aumentará seu alcance." Sua voz é diplomática, como a de um gerente avaliando riscos e retornos.
“Não me sinto segura com algumas ideias”, diz ela francamente naquela noite. Sentada na varanda, com o celular quente nas mãos, observa as luzes da rua. A cidade parece calma; ela não faz ideia do que está acontecendo online.
“O que exatamente te incomoda?”, pergunta Bilal. Sua resposta é atenciosa, e ela se sente encorajada a ser mais específica. Ela descreve imagens vagas, uma pose, uma peça de roupa que está muito decotada para ela. Ele escuta atentamente e então explica que podem encontrar nuances, uma maneira de revelar sem expor. “Você não precisa se perder na ação”, diz ele. “Você sempre define os limites. Nós testamos. Se você se sentir desconfortável amanhã, paramos imediatamente. Documentamos tudo, e a decisão final é sua.”
Ela quer acreditar nele. Quase sempre acredita, porque ele constantemente a lembra de que ela é o centro das atenções. Mas, na prática, as coisas começam a se desenrolar de forma diferente: ele testa pequenos limites, que ela aceita com mais facilidade por serem pequenos. Um decote mais baixo aqui, uma pose mais reveladora ali; a princípio, parece um trabalho estético, nada sensacional – e, no entanto, esses pequenos ajustes gradualmente mudam a imagem pública dela e a imagem que ela tem de si mesma.
Quando surge a primeira controvérsia — um comentário classificando sua publicação como "reveladora demais" — Bilal imediatamente encontra as palavras certas. Ele responde publicamente, com fatos, defendendo-a. "As plataformas mudam, e o gosto é subjetivo", escreve ele em um longo comentário que soa mais como uma atitude de gestão do que como uma demonstração de emoção. Em particular, porém, quando as mensagens são repletas de desprezo, ele fica mais irritado; em particular, seu tom é mais áspero. "As pessoas não entendem como o negócio funciona", diz ele certa noite enquanto estão sentados na cama, de mãos dadas. "Elas acham que é tudo uma questão de moralidade. É sobre arte, sobre distribuição, sobre oportunidade."
Ela encontra conforto na clareza dele. A raiva dele muitas vezes tem um caráter protetor; ela a aceita como uma forma de lealdade. Mas, por baixo da superfície, cresce uma inquietação: quem decide o que é arte, o que é comércio, o que é possibilidade? É ela, ou é ele, quem estabelece os limites porque entende melhor os cálculos?
