Eleven seas (portuguese edition) - Elias J. Connor - E-Book
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Eleven seas (portuguese edition) E-Book

Elias J. Connor

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Beschreibung

Hannah Fanning retorna: a estudante de dezenove anos, vivendo entre dois mundos, embarca relutantemente em mais uma jornada para a mágica Naytnal. Hannah se vê consumida pela constatação de que a liberdade tem um preço. Ao seu lado está Dawson, o humano que lhe oferece apoio — e, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade que seu novo adversário ameaça explorar. Quando um estranho de seu passado reaparece, um perigoso triângulo de confiança, desejo e traição se acende. A bordo da antiga Starwatch, uma nave desativada, a tripulação navega por tempestades de mentiras, piratas demoníacos e ilhas repletas de provações, mas os onze mares de Naytnal exigem mais do que coragem: exigem escolhas. Então, vozes emergem repentinamente das profundezas do oceano, tentando Hannah a praticar o mal... Sombrio, romântico e implacável: ONZE MARES explora o custo da liderança — e se o amor é forte o suficiente para domar o destino. (Volume 2 da série de fantasia A HISTÓRIA DE HANNAH FANNING.)

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Seitenzahl: 535

Veröffentlichungsjahr: 2026

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Elias J. Connor, Sweetie Willow

Eleven seas (portuguese edition)

 

 

 

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Inhaltsverzeichnis

Titel

Dedicação

Os livros da série de fantasia THE STORY OF HANNAH FANNING

Capítulo 1 - Sal no espelho

Capítulo 2 - O Chamado das marés

Capítulo 3 - O naufrágio das rainhas

Capítulo 4 - O senhor morto dos mares

Capítulo 5 - Piratas demônios à noite

Capítulo 6 - A tripulação dos fiéis

Capítulo 7 - O mar de espuma sussurrante

Capítulo 8 - Ilha dos mapas cegos

Capítulo 9 - A corrente do mar de vidro

Capítulo 10 - O mar de bandeiras de sangue

Capítulo 11 - O charme de Arved e o silêncio de Dawson

Capítulo 12 - O mar dos dragões adormecidos

Capítulo 13 - O rei despedaçado

Capítulo 14 - O mar das tempestades de cobre

Capítulo 15 - O beijo na sala de máquinas

Capítulo 16 - O mar dos sem nome

Capítulo 17 - A verdadeira trilha de Arved

Capítulo 18 - O mar dos sinos submersos

Capítulo 19 - O primeiro fragmento da alma de Nyromo

Capítulo 20 - O mar dos corais em cadeia

Capítulo 21 - A oferta de Arved

Capítulo 22 - Bandeiras demoníacas

Capítulo 23 - Cachoeiras de Arved

Capítulo 24 - Ciúme e desconfiança

Capítulo 25 - O mar do vento invertido

Capítulo 26 - O caminho para a ilha invisível

Capítulo 27 - Batalha final

Capítulo 28 - A coroação da imperatriz

Sobre o autor Elias J. Connor

Impressum neobooks

Dedicação

Para minha namorada.

Seus sonhos enriquecem a minha vida.

Dia após dia, ano após ano.

Fico feliz em estar ao seu lado.

Elias

Os livros da série de fantasia THE STORY OF HANNAH FANNING

ELEVEN HILLS

(The story of Hannah Fanning – Livro 1)

ELEVEN SEAS

( The story of Hannah Fanning – Livro 2)

ELEVEN TEMPLES

( The story of Hannah Fanning – Livro 3)

ELEVEN NIGHTS

( The story of Hannah Fanning – Livro 4)

Capítulo 1 - Sal no espelho

O corredor do prédio de Humanidades cheira a produto de limpeza de carpetes e poeira quente, como sempre acontece quando o ar-condicionado está lutando contra o calor de Los Angeles. É aquele cheiro típico da UCLA: papel, suor e café em excesso. Eu deveria conseguir me agarrar a isso — à normalidade, às coisas que podem ser explicadas.

Em vez disso, a umidade fica presa na minha pele.

Paro abruptamente no meio do corredor, tão repentinamente que uma aluna atrás de mim quase esbarra em mim. "Desculpe", ela murmura sem olhar, e passa por mim. Suas sandálias batem no chão como se nada tivesse acontecido.

Levanto a mão e toco a parede. Tinta fria e lisa. Mas meus dedos voltam úmidos, como se eu tivesse acabado de tocar em neblina. Uma fina camada, quase invisível, mas ali. Esfrego o polegar e o indicador. Sal. Pouco. Apenas um toque que penetra instantaneamente na minha pele.

"Está bem", sussurro, e o tom não soa como uma brincadeira.

O pingente de estrela sob minha camisa está esquentando. Não é o calor agradável do contato com a pele, mas um brilho de alerta, como se alguém ao longe tivesse acendido um fósforo. Engulo em seco e puxo um pouco a corrente, o suficiente para sentir as onze pontas entre meus dedos.

Onze, penso de repente, e os pensamentos têm gosto de metal.

Hannah, diz uma parte sensata da minha cabeça. Você não dormiu o suficiente. Estudou demais. É condensação. A UCLA tem prédios antigos. Los Angeles é estranha. Fim da história.

Outra parte de mim – a parte que sabe como é a sensação de um mundo quando ele se torna rarefeito – permanece em silêncio, apenas escutando.

Um sussurro percorre o corredor, tão baixo que seria mera imaginação em qualquer outro momento. Soa como ondas quebrando na madeira à distância. Não é alto. Não é dramático. Mas é rítmico. Persistente.

Olho em volta. Ninguém reage. Ninguém para. Ninguém parece ouvir um oceano na universidade. As vozes ao meu redor são normais: "Você leu a tarefa?" – "As provas são brutais." – "Eu juro, o professor..."

Me obrigo a continuar andando. Minhas pernas estão pesadas, como se eu tivesse ficado muito tempo em pé na praia. Cada movimento roça no pingente. Eu o escondo de volta sob a roupa para não parecer que estou tendo um ataque de nervos no meio do corredor.

Ao descer as escadas, eu o vejo.

Vestígios de sal. Finas linhas brancas nos degraus, como se alguém tivesse trazido areia do mar com sapatos úmidos. Mas não é areia. É mais cristalino. Mais brilhante. E eu sei, sem conseguir explicar, que não é daqui. Não é de Santa Monica. Não é de Malibu. Não tem cheiro de férias ensolaradas.

Tem cheiro de algas marinhas e ferro frio.

Sinto um aperto no estômago.

Paro no patamar e olho para baixo, como se esperasse uma onda quebrando na esquina. É ridículo. É a UCLA, pelo amor de Deus. É concreto, luzes de néon, estudantes que não sabem comer em silêncio.

E, no entanto.

O pingente aquece novamente, quase fica quente. Eu me encolho como se alguém tivesse me beliscado com o dedo. Estendo a mão para pegá-lo novamente e, naquele instante, vejo brevemente – realmente apenas brevemente – uma imagem que não pertence a este lugar: colunas negras, estrelas cadentes como cinzas, a luz da tigela da alma estelar.

Eu pisco. Para longe.

"Hannah?"

A voz vem de trás. Eu me viro e lá está Dawson.

Ele carrega uma mochila, como sempre, e uma jaqueta cinza-escura que usa até em dias quentes porque sempre finge que o frio não o incomoda. Seu cabelo cresceu um pouco e ele tem um jeito peculiar de ver as coisas, como se enxergasse algo diferente através delas.

Desde Naytnal, seu olhar mudou. Antes, ele se calava porque precisava. Agora, ele se cala porque escolhe. E às vezes, quando fala, ainda parece que precisa se lembrar de que pode.

"Você está... pálida", diz ele, num tom de voz mais baixo do que o ambiente exigiria.

"Eu não sou pálida", respondo por reflexo. Então me ouço, e soa como o tipo de mentira que o pântano adora. Suspiro. "Ok, talvez eu seja pálida mesmo."

Dawson se aproxima, seus olhos fixos não em meu rosto, mas em minhas mãos. "O que foi?"

Hesito. É absurdo discutir magia com sal no meio de uma escadaria da UCLA. E, no entanto, é ainda mais absurdo não fazê-lo.

Me viro no meio do caminho em direção à escada e aponto para os trilhos. "Você está vendo aquilo?"

Dawson inclina-se para a frente. Seus dedos roçam o branco, e vejo suas pupilas se contraírem levemente. Ele pega algo entre o polegar e o indicador, esfrega, não prova (felizmente), mas cheira. Seu rosto permanece calmo, mas seu ombro se tensiona.

“Sal”, diz ele.

“Sim”, sussurro.

Ele olha para mim. "Não daqui."

Sinto meu peito relaxar um pouco, só porque ele disse isso. Porque não estou sozinha nessa sensação de "Isso está errado".

"O corredor estava úmido", eu disse. "E... eu ouvi."

"O que?"

"Ondas", digo baixinho.

Dawson fecha os olhos por um instante, como se estivesse verificando se consegue encontrar algo dentro de si. Então, ele os abre novamente. "Eu também", diz ele.

Estou com frio. "O que você quer dizer com 'também'?"

Ele olha em volta para ver se alguém está ouvindo. Um grupo de estudantes passa, fazendo barulho e rindo. Ninguém presta atenção em nós. Dawson abaixa a voz.

“À noite”, diz ele. “Estou deitado na cama e ouço…” Ele engole em seco, como se não gostasse da palavra. “…um sussurro. Como água. Como… como se alguém estivesse falando debaixo da minha porta.”

Meu coração está batendo mais forte. "Desde quando?"

“Três noites”, diz ele. “Talvez quatro. No início, pensei que fosse… o aquecimento. Ou meus vizinhos.”

"E agora?"

Sua expressão fica séria. "Agora acho que é Naytnal."

A palavra paira entre nós como uma gota que se recusa a cair.

Respiro fundo. Imagens surgem na minha mente, sem serem convidadas: os pilares negros, a entidade, um nome que ainda não conheço, mas cujo gosto talvez já carregue na boca – sal e medo.

“Precisamos ir à biblioteca”, digo de repente.

Dawson pisca. "Por quê?"

“Porque…” Busco uma conexão racional, “…se eu for ao meu seminário agora e fingir que isso não é nada, vou enlouquecer. E na biblioteca nós…” Dou de ombros. “…pelo menos entre livros. Isso me dá uma sensação de segurança.”

Dawson acena com a cabeça. "Certo."

Caminhamos lado a lado pelo campus, e tudo parece igual como sempre: palmeiras, estudantes, skates, sol. Mas sinto como se estivesse caminhando por um cenário de teatro. Como se o verdadeiro peso estivesse escondido sob a superfície.

É mais fresco na biblioteca. Mais silencioso. A luz é uniforme, os sons abafados. Quero acreditar que o mar não tem acesso a este lugar. No entanto, sinto o cheiro imediatamente ao entrarmos: um breve aroma de algas marinhas, tão fugaz que quase penso ter imaginado — e ainda assim sinto Dawson parar ao meu lado.

“Você também consegue sentir o cheiro”, digo, sem ponto de interrogação.

Dawson acena com a cabeça. "Sim."

Sentamo-nos a uma mesa no fundo, onde as janelas são pequenas e o mundo exterior parece mais distante. Coloco a minha mala no chão, como se estivesse mais pesada do que o habitual. Dawson senta-se à minha frente, abre o caderno, como se tentasse criar alguma estrutura.

"Certo", ele diz baixinho. "O que fazemos?"

Encaro o tampo da mesa. Os veios da madeira. Os arranhões. Uma mancha de café seco. Tão banal. Tão relaxante. E, no entanto, o pingente queima contra a minha pele.

“Vamos verificar o porão”, digo finalmente.

Dawson acena com a cabeça imediatamente, como se já tivesse tomado a mesma decisão. "Hoje?"

“Agora”, digo. Minha voz soa mais firme do que me sinto. “Antes que piore. Antes que… se espalhe.”

Dawson coloca a mão sobre a mesa. "Hannah", diz ele, com um tom tão calmo que me impede de entrar em pânico. "Se descermos, pode haver..."

"Eu sei", sussurro. "Poderia ficar ralo de novo."

Ele acena com a cabeça. "E agora temos... uma vida aqui. Se nós..."

"Se formos convocados novamente", termino. Meu estômago se contrai. "Sim."

Estamos em silêncio. Nesse silêncio, ouço, muito fracamente, o sussurro das ondas novamente. Não é alto. Mas está lá. É como um ritmo subjacente a tudo, como um segundo coração na biblioteca.

"Já está aqui", digo baixinho. "Não aparece só quando descemos ao porão."

Dawson suspira. "Certo", ele diz novamente. Essa palavra é a sua âncora. Nossa âncora. "Então vamos lá."

Arrumamos nossas coisas. O ar lá fora está quente, e parece errado que o sol esteja brilhando enquanto, em algum lugar entre o concreto e o neon, o oceano bate à porta. Caminhamos mais rápido do que o necessário. Não correndo — não quero chamar atenção —, mas com um propósito.

O caminho para a parte antiga do prédio me é familiar. Familiar demais. Lembro-me do primeiro passo através do espelho, da sensação da água fria vinda das sombras. Lembro-me da mão de Dawson, do seu sussurro, da palavra-código. E lembro-me da versão ingênua de mim mesma que pensava que seria uma aventura única.

A entrada para o porão está trancada, como sempre. Mas Dawson tem a chave — ou melhor, ele consegue fingir que tem. Antes, ele usava magia. Agora, ele usa… paciência e conhecimento. Ele conhece a rotina do zelador. Sabe os horários em que não há ninguém por perto. E desde Naytnal, ele aprendeu a abrir coisas sem quebrá-las.

"Você é assustadoramente bom nisso", murmuro enquanto ele arromba a fechadura.

Dawson dá um sorriso rápido. "Eu costumava ter muito tempo. Naquela época."

Eu sei o que ele quer dizer: o tempo passado como um guardião acorrentado, como alguém que ficou parado esperando em forma humana em corredores humanos. O peso disso paira brevemente entre nós. Então a porta se abre.

Uma brisa fresca nos atinge. O cheiro muda imediatamente: poeira, concreto, metal. E por baixo de tudo isso… sal.

O corredor do porão está vazio. Nossos passos ecoam. A luz de néon pisca levemente, como se também estivesse com medo. Engulo em seco e sinto meu pingente esquentar novamente.

"Você está ouvindo?", sussurro.

Dawson acena com a cabeça. "Sim."

O som das ondas é mais pronunciado aqui. Parece que a água está correndo atrás das paredes. Mas eu sei: não há água nessas paredes. Normalmente não.

Chegamos ao quarto com o armário. Meu coração está batendo tão forte que mal consigo ouvir a respiração de Dawson. Abro a porta e o cheiro me atinge como um soco: algas marinhas, madeira fria, algo antigo.

O guarda-roupa está ali.

O espelho é preto.

Paro abruptamente, como se alguém tivesse me pregado ao chão.

“Ele não era…” começo, engolindo em seco. “…desse jeito, né?”

Dawson se aproxima de mim. Sua mão roça na minha. "Não", diz ele suavemente. "Ele estava... quieto."

Ele não está mais.

A superfície do espelho não é simplesmente preta. Ela se move. Como óleo. Como a superfície da água na escuridão total. E nas bordas inferiores – onde a moldura encontra o concreto – algo brilha.

Uma gota. Depois uma segunda. Água.

A água escorre do espelho, lentamente, como se o outro lado não obedecesse mais às regras. Não é nítida. Tem um tom acinzentado, como água filtrada por cinzas. Forma uma pequena poça, e por um breve instante vejo um brilho estelar cintilar nela, como se fosse o reflexo de algo que não está aqui.

Sinto um nó na garganta.

“Naytnal…”, eu sussurro.

Dawson se posiciona ligeiramente à minha frente, não como um guarda, mas por instinto. "Não toque", diz ele.

"Preciso entender", sussurro, e odeio que seja verdade. "Se chegar até aqui, então..."

“Então a informação chega até nós”, diz Dawson. Sua voz é rouca, mas firme. “E aí deixa de ser apenas… o nosso segredo.”

Cai mais uma gota. Depois outra. É como se o espelho estivesse suando.

Apalpo meu pingente e o puxo para fora. Os onze pontos estão quentes. Ele reage ao espelho como um ímã. Minha mão treme.

“Hannah”, diz Dawson baixinho. “Nós também podemos… ir. Podemos buscar ajuda. Lys…”

"Lys não está aqui", digo bruscamente, e imediatamente me arrependo do meu tom. Respiro fundo. "Desculpe."

Dawson balança a cabeça. "Está tudo bem."

Olho para o espelho novamente. A superfície está pulsando levemente. Não como um coração. Mais como uma garganta aberta.

E então eu ouço. Não são mais apenas ondas. Uma palavra. Não uma palavra em inglês. Nem em alemão. Um som que se instala na minha cabeça como um dedo molhado no papel.

Hannah.

Estou congelando.

Dawson percebe. "O quê?", pergunta imediatamente.

"Está..." eu sussurro. "Está dizendo meu nome."

Dawson empalidece. "Quem?"

Eu engulo em seco. "Não sei."

O espelho se move com mais intensidade, como se reagisse à minha atenção. A água flui mais rápido. A poça aumenta. O cheiro de algas marinhas se intensifica, e por baixo dele há um aroma que reconheço de Naytnal: aquele ferro frio com gosto de antigas alianças.

"Isto não é Roma", sussurra Dawson de repente.

Eu o encaro. "Como você sabe disso?"

Ele coloca a mão na garganta, como se sentisse a ressonância da própria voz. "Porque..." ele respira fundo, "...Roma soava diferente na minha cabeça. Isto... soa como..." Ele procura as palavras. "Como o mar aberto. Como algo que não pede. Atrai."

Sinto-me doente.

Um fino fio de água agora escorre da moldura, como se alguém tivesse aberto uma fresta do outro lado. Não está mais pingando. Está fluindo.

"Temos que fechar", digo em pânico.

"Como?", pergunta Dawson, e percebo que ele também não tem resposta.

Observo a poça. Ela não reflete o teto do porão. Reflete… outra coisa. Por um instante, vejo água escura, em movimento. E acima dela, um céu de onde as estrelas caem como cinzas.

Estou com cólicas estomacais.

"Não", sussurro. "Não de novo." Instintivamente, me inclino sobre Dawson, e ele me abraça.

O espelho emite um som, um suspiro profundo e úmido. Então a voz vem novamente, mais clara, mais perto: "Venha."

Dawson agarra minha mão. "Não", diz ele em voz alta, dirigindo-se ao espelho como se uma palavra dita num porão pudesse deter um oceano. "Não desse jeito."

O pingente em minha mão fica extremamente quente. Eu me assusto, com vontade de deixá-lo cair, mas o seguro com firmeza. É como se ele dissesse: Você é a âncora. Você é o ponto de conexão.

Minha mente está a mil. Se o mar está agora empurrando Naytnal através deste espelho, então não é uma fenda aleatória. É um chamado. Uma atração. Talvez algo que as colinas não consigam mais conter, algo que agora se reúne nos mares. Talvez a entidade, aprisionada dentro do Hort, mas... capaz de enviar ondas.

"Hannah", sussurra Dawson, e sua voz me traz de volta à realidade. "Respire."

Inspiro. O ar está frio e salgado. Expiro. E me obrigo a não pensar em controle, não em "eu comando". Mas em aliança. Em sustentação. No que aprendi na décima primeira colina: você não pode fechar tudo trancando. Às vezes, é preciso reconstruir.

Eu levanto o reboque. Eu o seguro em frente ao espelho.

“Se você me chamar”, digo baixinho, sem saber se estou falando com a voz ou comigo mesma, “então me diga por quê”.

A superfície do espelho treme. A água espirra levemente, como se eu tivesse tocado um limite. E então vejo algo iluminar-se na escuridão: onze pontos, como meu pingente – mas distorcidos, como se outro sistema estivesse tentando copiar meu símbolo.

Um arrepio percorre minha espinha.

"Ele te conhece", sussurra Dawson.

“Ou me quer”, respondo.

A palavra "will" carrega uma conotação de posse.

A voz surge novamente, desta vez como um sussurro bem perto do meu ouvido, embora não haja ninguém atrás de mim: "Coroa. Mar. Limiar."

Ofego em busca de ar. Palavras. Pistas. Não é um puxão puro. Fala em fragmentos, como Naytnal faz quando não consegue dizer algo diretamente sem alimentá-lo.

"Mar", sussurro.

Dawson acena com a cabeça, lentamente. "É... diferente da primeira vez."

“Sim”, eu digo. “Estas não são colinas. Isto é… algo que está em movimento.”

O fluxo de água intensifica-se subitamente, como se o espelho se fartasse da nossa hesitação. Um fio fino atravessa o concreto, em direção ao corredor. Vejo-o e a minha mente imediatamente evoca uma imagem: água salgada nos corredores da UCLA. Estudantes escorregando. Notícias. Pânico. E além de tudo isso — Naytnal, já não se escondendo.

"Merda", sussurro.

“Hannah”, diz Dawson rapidamente. “Se vazar…”

"Eu sei", digo.

Sem pensar, ajoelho-me e coloco a mão logo acima da poça. Não dentro dela. Apenas acima. Sinto o frio subindo da água. Não é o frio de Los Angeles. É o frio de Naytnal. Carrega um toque de escuridão, mas também… magia.

"O que você está fazendo?", pergunta Dawson, alarmado.

“Eu…” minha voz treme. “Estou tentando me controlar.”

“Não com controle”, ele diz imediatamente, como se temesse que eu voltasse aos velhos hábitos.

Eu concordo com a cabeça.

"Não com controle."

Fecho os olhos e murmuro uma nota, bem baixinho, tão baixinho que vibra mais no meu peito do que no ar. Uma nota que não é uma "ordem", mas um "laço". Uma nota que diz: Você não vai seguir em frente sem que nos vejamos. Sem que carreguemos esse fardo juntos.

A água reage.

Nada dramático. Não congela. Não evapora. Mas o fluxo diminui. Como se alguém do outro lado parasse por um instante, surpreso por eu não estar gritando, não dando ordens, não fugindo.

Dawson se ajoelha ao meu lado, cautelosamente. "Posso..." ele começa.

“Sim”, sussurro. “Coloque sua mão… aqui. Não na água. Apenas… perto.”

Ele consegue. Sua mão é quente, e sinto como sua presença estabiliza o ambiente. Não é mágica no sentido clássico — ele praticamente perdeu isso —, mas presença. Humanidade. Uma âncora que não brilha, mas que segura.

“Eu ouço”, Dawson sussurra de repente. “Isso… fala…”

"O que está escrito?", pergunto, sem perder a calma.

Dawson engole.

"Diz... que precisa de..." Ele pisca, como se tivesse que traduzir as palavras. "...uma chave. Uma tigela. E..." Ele me olha, surpreso. "...você."

Sinto cólicas no estômago. "Claro", sussurro. "Claro que eles precisam de mim."

A voz no espelho fica mais alta. Não grita. Apenas se aproxima. Como se estivesse perdendo a paciência.

"Os mares estão morrendo."

"As correntes estão aumentando."

"Vir."

Abro os olhos. O espelho ainda está preto, ainda fluido, mas a superfície agora mostra algo mais nítido: uma vasta extensão escura de água. E acima dela, nenhum sol – apenas um céu de aço molhado.

“Dawson”, sussurro. “Não podemos manter isso aqui. Não por muito tempo.”

Ele acena com a cabeça, lentamente. Os músculos do seu rosto estão tensos. "Eu sei."

“E quando formos embora…”, começo.

"Então talvez isso aconteça", diz ele.

Eu engulo em seco. Essa é a questão: estamos sendo atraídos por isso ou estamos atraindo isso? O espelho é um chamado para nós ou uma maneira de isso nos alcançar?

Meu pingente ainda está brilhando, mas não tão intensamente como antes. É mais como um coração batendo mais rápido.

"E a aliança?", sussurro. "E Naytnal? Nós já..."

“Nós o banimos”, diz Dawson em voz baixa. “Não o redimimos.”

Essa frase me atinge como um golpe leve porque é muito verdadeira. Nunca dissemos que tinha acabado. Apenas dissemos que ficaríamos acordados.

E agora é hora de acordar.

Sinto lágrimas brotando nos meus olhos porque de repente sinto o peso deste mundo duplo com tanta intensidade: UCLA, provas, uma vida normal que acabei de reconstruir. E ao mesmo tempo, Naytnal, Hügelräte, Hort, mares clamando por socorro. É injusto que ambos devam ser "meus".

"Não quero ir embora de novo", sussurro, sinceramente, em voz baixa.

Dawson olha para mim e seus olhos suavizam. "Nem eu", diz ele. Então, ele suspira. "Mas..."

“Mas também não podemos fingir que nada está errado”, acrescentei.

Ele acena com a cabeça.

A água volta a fluir com mais força. O espelho pulsa. Como se o outro lado percebesse que o nosso som foi apenas uma pausa.

Eu me levanto lentamente. Dawson me segue. Nós dois olhamos para a poça, que agora parece uma barreira. A água alterou a superfície do concreto — mais escura, mais brilhante. Parece que um pedaço de Naytnal caiu no porão.

“Quando formos embora”, digo, com a voz mais firme do que me sinto, “não partiremos como vítimas. Não como instrumentos.”

Dawson acena com a cabeça. "Como uma decisão", diz ele.

“Como uma aliança”, sussurro.

Eu me olho no espelho. A escuridão me encara de volta. Sinto a tênue linha que separa os mundos. E sinto que Naytnal não está perguntando. Está puxando. Mas eu ainda posso escolher como responder.

"Hoje não", digo baixinho, dirigindo-me à voz que me chama. "Não despreparada."

A água para por um instante, como se entendesse, ou como se estivesse zangada. Depois, continua a fluir, quase como se dissesse: Você não tem tanto tempo quanto pensa.

“Precisamos de… alguma coisa”, murmuro. “Um plano. Uma rede de segurança. Talvez…”

“Talvez possamos contatar Lys”, diz Dawson imediatamente.

"Como?" pergunto. "Estamos aqui. Ela está lá."

Dawson franze a testa. "O pingente", diz ele lentamente. "E sua música. Talvez... não seja apenas um símbolo. Talvez seja... funk."

Respiro fundo. O pensamento é insano. E, no entanto: em Naytnal, os nomes eram frequências. As vozes eram realidades. Por que o pingente não poderia ser um ponto de ressonância?

Pego o pingente de estrela com as duas mãos. As onze pontas pressionam minha pele. Fecho os olhos e murmuro a mesma nota de antes, mas desta vez na direção do pingente, como se o estivesse afinando como um instrumento musical.

“Lys”, sussurro, e não pronuncio o nome como um grito no vazio, mas como quem lança um fio. “Lys. Se você me ouvir…”

O trailer esquenta. Não chega a queimar. Esquenta, como uma resposta.

Por uma fração de segundo, vejo o rosto de Lys em minha mente – não claramente, mais como uma sombra. E ouço uma voz, muito baixinho: "Hannah."

Abro bem os olhos. Dawson está me encarando. "Você...?"

Eu aceno com a cabeça, sem fôlego. "Sim."

O espelho pulsa com mais intensidade, como se tivesse ciúmes do outro contato.

"Diga a ela", Dawson sussurra rapidamente. "Diga a ela que está chegando."

Eu inspiro, seguro o pingente com firmeza, murmuro o som e falo o mais claramente que consigo, mesmo com a garganta seca.

"O espelho está aberto. A água está chegando. Ela está chamando pelos mares. Ela precisa da tigela... e de mim."

Um breve lampejo na minha cabeça, como um clarão sem luz. Depois a voz de Lys, apenas um sussurro, como o vento no papel.

"Pare. Não siga até saber quem está chamando. Feche a adega. O sal é uma porta de entrada."

"Como é que eu fecho isso?", sussurro em pânico.

A resposta surge como uma frase que é engolida pela metade.

"Associe o limite a um nome. Não a um comando. Aí ele desaparece."

Fico ali parada, respirando com dificuldade.

Dawson olha para mim como se estivesse tentando não entrar em pânico.

"Um nome", murmura ele. "Não uma ordem. Não um controle."

Eu concordo com a cabeça. "Um nome que... significa fronteira."

Minha cabeça está a mil. Nomes nacionais. Sons limítrofes. O Guardião Dragão. O Solo Coral. Como um som pode definir a realidade.

"Onze Colinas", sussurro de repente.

Dawson pisca. "O quê?"

“A palavra-código”, digo rapidamente. “Nunca foi apenas um código. Era… um rótulo. Uma estrutura. Quando a usávamos naquela época, ela… nos acoplava. Talvez agora possamos… nos desacoplar.”

Dawson acena lentamente com a cabeça. "Então... diga. Cante."

Respiro fundo. Paro em frente ao espelho, a uma distância suficiente para não me molhar, mas perto o bastante para sentir a pressão. Minhas mãos tremem. O pingente pesa entre meus dedos.

Eu murmuro. Depois falo, não alto, mas claramente, como se estivesse desenhando uma linha no ar.

"Onze colinas."

O espelho treme.

A água para por um instante.

Vou repetir, desta vez com mais tom, mais estrutura, como uma pequena canção.

"Onze colinas."

E então eu acrescento, quase instintivamente, porque sinto que está faltando: "Não aqui."

O espelho faz um barulho como se alguém estivesse sacudindo uma porta. A água espirra. Por um instante, acho que piorei a situação.

Então – muito lentamente – a superfície recua, como se se lembrasse de que tem limites. Não porque eu a tenha ordenado. Porque eu os nomeei.

A água não para imediatamente, mas diminui. O fluxo se transforma em gotas. As gotas se transformam em pontos individuais e hesitantes.

Dawson solta um suspiro audível. "Funciona", sussurra ele.

Sustento o tom até minha garganta arder. Até o espelho ficar preto e liso novamente, imóvel, apenas escuro. Até a água no fundo permanecer parada, sem mais pressionar para frente.

Quando finalmente paro, meu corpo parece que cantei uma maratona. Minhas pernas estão fracas.

Dawson me segura pelo cotovelo quando eu cambaleio por um instante. "Ei", ele diz baixinho. "Respire."

Respiro fundo. O porão ainda cheira a algas, mas menos. O espelho está imóvel. Mas a poça está lá. Um pedaço do mar no concreto. Prova de que não foi apenas imaginação minha.

"Ainda não acabou", sussurro.

Dawson balança a cabeça. "Não."

Encaro a água. Ela reflete a luz neon – perfeitamente normal. Mas, se olho com atenção, vejo um breve brilho por baixo, como se outra superfície estivesse a brilhar através dela.

"Os mares", sussurro.

Dawson acena com a cabeça. "Eles estão ligando."

“Ou algo está chamando através dela”, eu digo.

Ele olha para mim, e eu percebo que ele tem o mesmo pensamento: um novo poder. Um novo tipo de entidade, marítima, hierárquica, semelhante a piratas. Algo que se deleita quando as pessoas se organizam em fileiras e obedecem.

Fecho os olhos por um instante e vejo estrelas cadentes novamente.

Então eu vejo um mar negro.

“Precisamos nos preparar”, digo eu.

Dawson acena com a cabeça. "Sim."

“E temos que… manter a normalidade”, acrescento com amargura. “Pelo menos externamente.”

Ele dá um sorriso torto. "Você é péssimo em atuação normal."

"Você também", murmurei.

Ele ri baixinho, depois volta a ficar sério. "Hannah", diz ele, com a voz calorosa, mas firme. "Se acontecer de novo... se o espelho nos puxar..."

"Então iremos juntos", sussurro.

“E nós dizemos isso”, acrescenta ele. “Quando estamos com medo. Quando estamos prestes a mudar.”

Eu concordo com a cabeça. "Aliança."

“Aliança”, diz ele.

Saímos do porão e fechamos a porta, como se pudéssemos nos isolar do mundo inteiro. Sei que não funciona assim. Mesmo assim, é um ritual que me ajuda.

Lá no campus, o sol ainda brilha. Estudantes passam por nós. Alguém carrega uma prancha de surfe e ri. O mar é apenas um lugar de lazer para essas pessoas.

Para mim, o mar tornou-se subitamente uma vocação.

Enquanto caminhamos pelo concreto, sinto o trailer esfriar novamente. Não ficar calmo. Apenas… à espera. Como uma estrela que sabe que a noite está chegando.

“Dawson”, digo baixinho enquanto caminhamos entre as palmeiras.

"Sim?"

“Se voltarmos”, sussurro, “não é só Naytnal que está nos mudando. Também está mudando… aqui.”

Ele acena lentamente com a cabeça. "Eu sei."

Olho para o céu azul, que parece tão inocente. E penso: Naytnal não está mais apenas nos alcançando em sonhos. Está forçando a água através de um espelho na UCLA. Isso não é romântico. Isso não é aventureiro. Isso é… uma invasão em câmera lenta.

E, no entanto, enquanto Dawson caminha ao meu lado e sua mão roça brevemente na minha, sinto algo me segurando: não controle, mas proximidade. Não dominação, mas coragem.

Por uma fração de segundo, o vento cheira a algas marinhas. Depois, volta a cheirar a sol.

Mas eu sei o que se esconde por baixo.

Capítulo 2 - O Chamado das marés

Nos próximos dias, farei tudo o que se faz quando se tenta amenizar uma catástrofe iminente com rotina.

Eu assisto às aulas. Faço anotações. Rio de algo que um amigo diz e finjo que meu riso não está preso por um fio. Fico parada no refeitório, encarando uma tigela de salada enquanto ondas sonoras batem na madeira da minha cabeça. Sento-me perto da janela à noite, agarrando o pingente de estrela até meus dedos doerem, como se a dor pudesse ser a prova de que estou aqui.

Mas as anomalias não desaparecem. Elas se tornam mais descaradas.

No segundo dia, encontro sal na minha estante. Cristais finos na borda de um livro didático que não toco há semanas. No terceiro dia, o ar na sala de seminário está tão úmido que o giz no quadro-negro borra como em pedra molhada. Uma professora irritada limpa os óculos e diz algo sobre o "ar-condicionado ruim". Ninguém discorda.

No quarto dia, a biblioteca cheirava tão fortemente a algas marinhas que quase me deu ânsia de vômito.

E Dawson... Dawson não ouve mais apenas ondas à noite. Ele ouve frases.

Ele anota meus nomes em um pedaço de papel pela manhã porque não quer dizê-los em voz alta, como se um nome pudesse se tornar mais fixo dessa forma.

VENHA. LIMIAR. SAL. COROA.

Dobro o pedaço de papel tão pequeno que ele desaparece na minha mão fechada.

"Isso não é... por acaso", murmuro, e minha voz soa fraca demais no meu quarto.

Dawson está sentado na minha cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas. Suas runas são pálidas, quase invisíveis. Mas consigo ver um músculo em sua mandíbula se mover, como se estivesse lutando contra um eco.

"Não", diz ele baixinho. "É um trem."

“E fechamos o espelho”, digo, embora saiba que isso é apenas metade da verdade. Nós o amarramos. Nós o acalmamos. Mas ele não está morto.

Dawson levanta o olhar.

“Ele está em silêncio”, diz ele. “Mas… eu o sinto.”

Eu engulo em seco. "Como?"

Ele hesita. Então coloca a mão no peito, exatamente onde a faixa de sangue costumava arder. "Como uma cicatriz", diz ele. "Você não consegue vê-la. Mas quando o tempo muda, você consegue senti-la."

Um arrepio frio percorre minha espinha. Sinto meu próprio pingente sob a camisa como uma segunda pele. Quente quando quer. Frio quando se esconde.

"Talvez não devêssemos mais descer ao porão", digo, e detesto a sensação de que essa decisão é uma fuga.

Dawson acena lentamente com a cabeça. "Sim."

Dizemos isso à tarde. Dizemos de novo à noite, quando nos sentamos um de frente para o outro na biblioteca, tentando estudar. Dizemos como um mantra: Não o reprima. Não o alimente. Não o provoque.

Na noite seguinte, fui acordado por um barulho que não pertencia ao meu quarto.

Gotas.

Não são gotas de um cano furado. Essas gotas têm um ritmo. Como se estivessem contando.

Sento-me, respiro fundo e o cheiro me atinge imediatamente: algas marinhas. Salgadas. Frias.

Meu pingente de estrela está pegando fogo.

"Dawson", sussurro antes mesmo de pensar, e pego meu celular. Meus dedos estão dormentes. Disco o número dele.

A campainha nem toca quando ouço a voz dele, rouca, desperta, como se estivesse acordado há muito tempo.

"Hannah", ele diz. Sem um "olá". Apenas meu nome.

"Você também consegue ouvir", sussurro.

“Sim”, diz ele. E então, como que surpreso consigo mesmo, pronuncia a próxima palavra: “Está… aqui”.

"Onde?"

Uma respiração curta.

“No corredor”, diz ele. “Em frente à minha porta. Isso…” Ele engole em seco. “…arranha.”

Meu coração está batendo tão forte que mal consigo ouvir o que ele está dizendo. Tiro as pernas da cama, ignorando o fato de estar descalça. Meu quarto fica no alojamento estudantil, não muito longe do dele. Não moramos juntos, mas perto o suficiente para que a intimidade seja possível sem forçar nada.

"Fique aí dentro", digo, embora saiba que ele não ficará.

“Hannah, não”, ele responde imediatamente. “Não sozinha.”

"Eu vou até você", respondo. Sem lhe dar a chance de argumentar novamente, desligo o telefone.

Visto um casaco no escuro, pego no reboque como se precisasse despachá-lo, embora ele já me controle. O corredor está silencioso, mas o ar está… diferente. Úmido. Uma lufada de ar frio do mar num prédio que deveria cheirar a carpete.

Meus pés descalços fazem um leve ruído no chão. O sensor de luz do corredor acende, banhando tudo naquela luz amarela pálida que faz com que cada sombra pareça mais antiga.

E lá eu vejo.

Um rastro de água.

Quase nada. Apenas uma fina película emergindo de um canto, como se alguém tivesse derramado um balde. Mas brilha. E nesse brilho reside algo impossível: o corredor não se reflete na superfície da água.

Por um instante, vejo outro teto. Escuro. Baixo. E… o céu atrás dele, como ferro molhado.

Eu paro de me mexer, eu não respiro.

"Hannah?" Ouço Dawson ao telefone, em voz baixa e tensa.

"Eu vejo", sussurro.

"Onde?"

“No corredor”, digo, e meu olhar segue o rastro até chegar à porta de Dawson.

A porta dele está fechada. Mas o vão embaixo dela é escuro, como se não houvesse espaço atrás dela, mas... profundidade.

E a água emerge dessa fenda. Lentamente, persistentemente, como se não estivesse pingando, mas respirando.

Dou um passo à frente e o pingente em minha mão fica tão quente que quase o deixo cair.

Então eu ouço: Não são apenas ondas. É uma voz que fala não em palavras, mas em significado.

Agora.

“Dawson”, sussurro, com a voz trêmula.

“Estou aqui”, ele diz, e de repente ouço seus passos vindos de dentro. Ele não está mais ao telefone no meu ouvido; ele está atrás da porta.

"Não abra a porta", digo rapidamente.

"Hannah, isso..."

A porta está tremendo.

Não era forte. Não era como um ataque. Era mais como um sopro, como se algo estivesse encostado na porta do outro lado.

Dawson está em silêncio. Só consigo ouvir sua respiração. Então ele diz baixinho: "Não saiu. Atravessou... o interior."

"Não", sussurro.

Outro solavanco. A água flui mais rápido.

E então acontece algo que não parece um evento, mas sim uma lei.

O corredor está ficando frio.

Não "frio à noite". Mas "frio que muda o mundo".

A luz oscila, como se a eletricidade momentaneamente não soubesse em qual realidade deveria fluir.

E sinto um puxão no estômago, como naquela época em frente ao espelho – só que mais agressivo, mais impaciente. Nada de um educado "entre". Um puxão repentino.

Aperto os lábios, tentando respirar. O pingente em minha mão pulsa como um coração.

"Hannah!" Dawson grita, desta vez alto o suficiente para que eu consiga ouvi-lo através da porta, e não apenas pelo telefone.

Estendo a mão e toco a madeira da porta. Está molhada. E por baixo da umidade há algo… liso. Como vidro. Como um espelho.

“Não”, digo eu, como se a palavra pudesse impor regras.

A porta cede. Não como madeira que quebra, mas como uma superfície que amolece.

O mundo está a desmoronar-se.

Tenho tempo suficiente para ver a porta de Dawson se abrir — ou algo que se pareça com a porta de Dawson. Atrás dela está Dawson, olhos arregalados, mão estendida. Por um instante, nossos dedos se tocam — sinto sua pele, quente, real.

Então algo nos atrai a ambos.

Um solavanco, como se uma onda nos tivesse agarrado pelo tornozelo.

A luz do corredor explode num clarão branco.

E o chão desaparece.

Não estou caindo. Estou sendo puxada. Como se alguém tivesse me jogado em um abismo gelado. É como olhar através de um espelho, só que mais rápido, mais brutal, sem aquela sensação suave de "oleosidade". A água jorra nos meus ouvidos, mesmo sem eu estar me molhando. Ou talvez eu esteja molhada, e meu corpo simplesmente não se importe porque outras regras se aplicam.

Acho que estou gritando. Ou abro a boca e nenhum som sai.

Então algo me atinge nas costas – não com força, mas de repente. Eu me viro, meus olhos se abrem de repente e o ar em meus pulmões fica pesado, salgado e frio.

Estou deitada na areia preta.

Acima de mim paira um céu que parece ter sido mergulhado em água e depois arrastado sobre metal: cinza, brilhante, pesado. Ferro molhado. Sem céu estrelado. Sem sol. Apenas uma luz indecisa sobre se quer ser dia ou não.

O vento está forte. Cheira a mar, mas não a férias. Cheira a profundezas, a navios antigos e a algo apodrecendo debaixo d'água.

"Hannah!"

A voz de Dawson.

Real. Alto. Perto.

Eu me viro, escorregando na areia, e lá está ele, a poucos metros de distância, também no chão, meio de joelhos. Seu cabelo está molhado, embora não esteja chovendo. Seu olhar é selvagem, mas ele está vivo. Ele está aqui.

Rastejo em sua direção sem pensar. Minhas mãos se cravam na areia. O pingente pesa contra meu peito, frio como se tivesse chegado ao seu destino.

Dawson agarra meus ombros. "Você está..."

"Sim", eu deixo escapar. Minha voz soa diferente aqui. Mais grave. Como se o ar estivesse engolindo as palavras. "Sim. Eu estou... aqui."

Ele me puxa para seus braços brevemente, com força. Não é um momento romântico. É um momento de sobrevivência. Mesmo assim, nele, sinto o fio do nosso amor – não como drama, mas como apoio.

Respiro contra seu pescoço e sinto o cheiro de sal em seu cabelo. Ele tem cheiro de UCLA e de Naytnal ao mesmo tempo, como se a fronteira tivesse nos misturado.

"Aquilo... não era o espelho", sussurrou ele.

Eu engulo em seco. "Não."

Olho em volta.

Estamos no litoral. Areia negra, rochas escuras que se projetam do chão como dentes. O mar está ali – uma vasta extensão escura de água, movendo-se como um animal respirando enquanto dorme. As ondas não são amigáveis. Não quebram com espuma, mas sim com um baque lento e pesado, como se a própria água fosse mais densa.

Ao longe, vejo algo que parece um porto, mas está silencioso demais. Sem luzes. Sem navios. Apenas ruínas.

"Onde estamos?", sussurro.

Dawson olha para o mar, como se estivesse escutando. "Não nas colinas", diz ele.

"Litoral", murmuro. Meu estômago se revira. "Os mares."

A palavra desencadeia algo. Um sussurro viaja pelas ondas, quase inaudível, mas está lá: Venha.

Dawson aperta os lábios. "Ainda está puxando", diz ele.

“Sim”, eu digo. “Mas mais devagar.”

Nos levantamos. Minhas pernas estão trêmulas. A areia gruda na minha calça jeans, molhada e fria. Sinto o vento por baixo da jaqueta, como se quisesse me abrir.

E então vejo movimento entre as rochas.

A princípio, penso em sombras. Depois, surge uma figura, e eu a reconheço pela postura antes mesmo de ver seu rosto: como se estivesse sempre pronta para disparar a próxima flecha.

Eira.

Ela está mais magra do que me lembro. Seu cabelo está ralo, seu rosto abatido, como se não dormisse há muito tempo. Seu laço pende do ombro, e seus olhos são penetrantes, mas cansados.

“Finalmente você chegou”, diz ela, com a voz rouca, como se cada palavra tivesse sido suavizada com areia.

Meu coração dispara. "Eira!"

Ela se aproxima, mas não rapidamente. Como se precisasse conservar energia. "Não fale tão alto", murmura, depois olha para Dawson, e um lampejo de respeito brilha brevemente em seus olhos.

"Você ainda está falando."

Dawson apenas acena com a cabeça. "Estou falando."

Eira bufa baixinho. "Bom."

"O que aconteceu?" pergunto imediatamente. Percebo que minha voz está falhando. "Por que... por que estamos sendo atraídos..."

Eira levanta a mão.

"Aqui não", diz ela secamente. "O vento carrega mais do que ruído."

Engulo em seco e olho em volta. A praia parece vazia, mas em Naytnal, "vazia" é muitas vezes uma mentira.

Eira se vira e nos faz um gesto para segui-la, em direção às rochas. Dawson estende a mão para mim, e eu a seguro com força. Não porque eu esteja com medo, mas porque quero me lembrar de que estamos juntos. Que não nos separaremos quando a noite cair.

Uma trilha estreita serpenteia entre as rochas. A pedra está úmida, como se o mar penetrasse em seus poros. A água pinga ocasionalmente, cada gota soando alto demais.

Chegamos a uma pequena depressão, protegida do vento. Ali, uma pequena fogueira arde – não grande o suficiente para nos aquecer, mas grande o bastante para dizer: Alguém esteve aqui. Alguém está resistindo aqui.

E Lys está de pé ao lado da fogueira.

Ela parece ainda mais exausta que Eira. Suas roupas estão rasgadas, seu cabelo está preso firmemente, mas algumas mechas se soltaram e grudaram em sua testa. Há algo em seus olhos que não reconheço: não apenas preocupação, mas pressão. Como se ela estivesse tentando há muito tempo manter unido um sistema que está começando a desmoronar.

Quando ela me vê, seus ombros caem ligeiramente.

“Hannah”, ela diz, e meu nome soa em sua boca como uma ferramenta e uma oração ao mesmo tempo.

Caminho em sua direção e ela me abraça pelo antebraço. Sem cumprimentos formais, sem distância. Apenas alívio por eu estar ali.

"Você está... molhada", digo estupidamente.

Lys dá uma risada breve e seca.

"Está tudo molhado", ela murmura. "Até as coisas que não deveriam estar molhadas."

Dawson se aproxima. “Fomos puxados”, diz ele sem rodeios. “Não através do espelho. Através de…”

“Através do sal”, interrompe Lys. “Através da umidade. Através de lugares que estão ficando mais finos. Está se espalhando pelo seu mundo porque…” Ela faz uma pausa, e eu percebo que a próxima frase a machuca. “…porque não conseguimos mais contê-lo.”

Meu estômago embrulhou. "O que você quer dizer?"

Lys aponta para o mar, embora não possamos vê-lo daqui. "Naytnal está se curando", diz ela. "Os conselhos das colinas estão funcionando. O tesouro está mantendo a entidade... contida. Mas ela não desapareceu. Ela aprendeu."

"Aprendeu alguma coisa, hein?", pergunto.

Eira senta-se pesadamente sobre uma pedra que parece um osso molhado. "Aprendi onde ela pode crescer", diz com a voz rouca. "Não no centro. Não nas colinas onde se forjam novas alianças. Mas onde ainda não se romperam os velhos padrões."

Lys acena com a cabeça. "Os mares", diz ela suavemente.

Sinto o pingente pressionando meu peito, como se estivesse esperando a palavra.

“Os mares têm sua própria ordem”, continua Lys. “E a ordem nos navios é… hierarquia. Ordens. Obediência. Medo, porque a água sempre significa morte se você cair.”

Eira cospe na areia. "Solo perfeito para algo que prospera com controle."

Engulo em seco. "A entidade está nos oceanos?"

Lys levanta a mão, como que para ser precisa. "Não... completamente", diz ela. "Ela está presa. Mas como fumaça que se infiltra pelas frestas. Ela se instalou nos mares. Nas correntes. Nos portos. Nas ordens dos capitães. Nos contratos de piratas."

“E é por isso que…”, começo.

“É por isso que os conselhos das montanhas estão perdendo contato com a costa”, conclui Lys. “As cidades costeiras não estão mais respondendo. Nossos mensageiros não estão retornando. Os navios estão desaparecendo. Os mares estão… fechados.”

Dawson franziu a testa. "Para?"

Eira ri sem humor. "Não se pode zarpar se o mar não deixar."

Sinto tonturas. "Mas... temos uma aliança de guardiões. Temos conselhos nas colinas. Por que isso não ajuda?"

O olhar de Lys endurece. "Porque a aliança deles tem efeito no interior", diz ela. "E porque os mares guardam tratados antigos, mais antigos que Roma. Mais antigos que a sua profecia. Outros nomes reinam lá."

Uma rajada de vento frio invade a clareira. O fogo tremula. Ouço as ondas lá fora novamente.

"Quem governa os mares?", pergunto, embora tema a resposta.

Eira e Lys trocam um olhar.

“Em tempos antigos”, diz Lys lentamente, “havia um governante dos mares. Nyromo. Não como um imperador. Mais como um princípio. Uma voz que ordenava as correntes sem possuí-las.”

"E agora?", sussurro.

Eira range os dentes. "Agora outra coisa está no comando", diz ela. "Algo que... assume o controle."

Lys baixa a voz. "Um demônio", diz ela. "Ou uma forma demoníaca. Um nome que se hesita em pronunciar, porque nomes são portas."

Meu trailer está ficando frio. Um frio desagradável, como metal na sombra.

Dawson diz isso mesmo assim, calmamente: "Drakar."

Lys pisca bruscamente. "De onde...?"

“Eu ouvi”, diz Dawson, e vejo-o ficar tenso ao falar, como se quisesse cuspir o som. “À noite. Num sussurro. Entre as ondas.”

Eira suspira. "Então ele está mais perto do que eu pensava."

Engulo em seco. "Quem é Ar... Drakar?" Corrijo-me rapidamente, mas meu cérebro trava. O mar. A atração. A ideia de um nome que é como um anzol.

O rosto de Lys escurece. "Ele é quem possui o mar", diz ela. "Ele matou Nyromo... ou o despedaçou. E desde então..."

“Desde então, as cadeias têm vindo a crescer”, acrescenta Eira.

"Correntes?" pergunto.

Eira aponta para a mão de Dawson, que segura a minha. "Não é sua", diz ela asperamente. "Outros. Tratados. Bandeiras de sangue. Piratas que negociam almas. Dragões que vigiam as correntes marítimas e podem ser comprados. Tudo o que você descentralizou meticulosamente nas colinas agora está concentrado em um punho no mar."

Sinto a raiva crescendo dentro de mim. A raiva é perigosa. A raiva alimenta. E, no entanto, ela está aqui.

“E vocês nos puxaram”, digo, e minha voz soa acusatória, embora eu saiba que eles não fizeram isso intencionalmente.

Lys balança a cabeça imediatamente. "Não", diz ela. "Tentamos avisá-los. Amarramos o espelho da melhor maneira possível. Mas os mares... eles encontram outros caminhos."

"Sal", sussurro.

"O sal está em toda parte", diz Lys suavemente. "No seu mundo. Nas lágrimas. No suor. No ar à beira-mar. Se algo busca o limiar, encontrará sal."

Encaro minhas mãos. Penso nas marcas na escada. Na água em frente à porta de Dawson. No jeito como não perguntou. No jeito como tomou.

"Não tínhamos escolha", sussurro.

“Sim”, diz Dawson de repente. Sua voz é calma, mas firme. “Tínhamos uma escolha sobre como iríamos embora. Nós resistimos.”

Eu o encaro. Seu olhar está fixo em mim, não em Lys, não em Eira, não em Naytnal. E sinto meu peito relaxar um pouco porque ele tem razão: o puxão foi forçado. Mas nos abraçarmos foi nossa escolha.

Eira bufa. "Roma não teria te desenhado", diz ela.

Recuo ao ouvir o nome. Roma. Não mais imperador. Guardião errante. Arrependimento. Vejo brevemente seu rosto sem a coroa, no corredor do palácio, a mão erguida. Pergunto-me se ele sabe o que está acontecendo aqui.

"Onde fica Roma?", pergunto.

O olhar de Lys se torna pesado por um instante. "Ele está em movimento", diz ela. "Está vagando. Está tentando chegar a cidades costeiras, mas..." Ela aperta os lábios. "Sem energia, ele é lento. E o mar não o deixa passar."

"O mar não deixa ninguém passar", murmura Eira.

Por um instante, ouve-se apenas o crepitar do fogo e o sussurro distante das ondas.

De repente, sinto-me muito cansado(a).

"Então", digo baixinho, "e agora?"

Lys e Eira me olham como se estivessem esperando por essa pergunta desde que o primeiro vestígio de sal apareceu no palácio.

Lys fala primeiro.

“Precisamos de você”, diz ela simplesmente.

Eira acrescenta: "Precisamos de vocês dois."

Dawson ergue uma sobrancelha. "Por quê?", pergunta ele, e eu ouço a velha dor por trás da pergunta: Tenho pouca magia. Não sou mais o Selo. O que posso ser?

Lys responde calmamente: “Porque Hannah tem uma voz que forja alianças”, diz ela. “E você…” Ela olha diretamente para Dawson. “Você é a prova de que um laço pode se romper sem que uma pessoa se quebre. Você é… um contra-argumento para Drakar.”

Dawson engole em seco. Sinto seus dedos apertarem os meus com mais força, como se ele estivesse se certificando de que está realmente ali.

“E você quer que a gente… zarpe”, eu digo, e a frase soa ridícula porque eu era apenas um estudante reclamando da lição de casa.

Eira dá uma risada seca. "Sim", diz ela. "Bem-vindos a Naytnal. Nada aqui é ridículo."

Lys acena com a cabeça. "Os mares estão divididos em onze reinos", diz ela. "Onze mares, cada um com sua própria lei, sua própria corrente, sua própria corrupção. Se quisermos encontrar Drakar, precisamos atravessá-los. E se quisermos encontrar os restos mortais de Nyromo, precisamos..."

Ela para abruptamente, como se tivesse dito algo antes da hora.

“Nyromo não está apenas morto”, diz Dawson em voz baixa, e eu o vejo juntando as peças do que ouve nos sussurros. “Ele está… disperso.”

Os olhos de Lys se arregalaram por um instante. Então ela assentiu. "Sim", disse ela. "Acreditamos que Drakar destruiu Nyromo para que ninguém pudesse restaurar a ordem nos mares. Seus fragmentos vagam pelos oceanos. Quem os unir poderá privar Drakar de seu sustento."

Sinto-me mal. Não de medo, mas da magnitude da tarefa.

"E os conselheiros distritais?" pergunto. "Quando nós formos embora..."

“Os conselhos das colinas detêm o controle das terras”, diz Lys. “Mas não conseguem alcançar o mar. A ligação costeira desapareceu. E sem costa… Naytnal ficará isolada novamente. Então Drakar se fortalecerá. Então o Hort se tornará instável novamente.”

"E então a água voltará para a UCLA", sussurro.

Eira acena lentamente com a cabeça. "Exatamente."

O pensamento me atinge como um tapa na cara. Isso não é só em Naytnal. É o nosso mundo, que de repente deixou de ser seguro porque o sal está por toda parte.

“Certo”, eu digo, e ouço a palavra cair dentro de mim como uma pedra. “Certo. Então…”

Dawson olha para mim. "E então?"

Inspiro profundamente. O vento tem cheiro de metal e algas marinhas. O céu está pesado. O mar respira como um animal à espreita.

“Então não estamos lutando contra um monstro”, digo baixinho. “Mas contra um sistema.”

O olhar de Lys se torna mais penetrante. "Sim."

“E não venceremos matando ninguém”, continuo, porque ainda carrego a verdade da Décima Primeira Colina dentro de mim. “Mas sim… mudando as regras.”

Eira inclina a cabeça. "Você parece já estar no comando", diz ela, meio em tom de deboche, meio em tom de aprovação.

Engulo em seco. "Não quero governar."

"Você quer parar?", murmura Lys.

Eu concordo com a cabeça.

"Quero parar."

Dawson suspira. "Então, primeiro temos que... sobreviver", diz ele secamente.

Eira dá um sorriso rápido. "Esse geralmente é o primeiro passo."

Um som vindo de fora nos paralisa. Não é alto, mas diferente do som das ondas. Um estalo. Como madeira quebrando. Ou como algo pesado raspando contra pedra.

Eira imediatamente pega seu arco. Lys se levanta, com a mão em uma pequena faca que eu não tinha visto antes. Dawson instintivamente me puxa para trás dele, e eu quero sacudi-lo por não ser mais meu guardião — mas meu corpo aceita a proteção mesmo assim, porque o medo às vezes é mais rápido que a ideologia.

"O que é isso?", sussurro.

Eira escuta. "Passos", murmura ela. "Vários."

O fogo tremula como se o vento tivesse mudado de direção repentinamente. Uma lufada fria atravessa a cavidade, e sinto um cheiro novo: um odor adocicado e pútrido, como o de algas marinhas em decomposição.

"Piratas", sussurra Lys.

Sinto um aperto no estômago. "Já?"

Eira tira uma flecha da aljava. "A costa não é segura", diz ela, com a voz cansada e amarga. "É... a porta."

Dawson se inclina na minha direção. "Você pode…", ele começa.

Eu sei o que ele quer dizer: Posso cantar? Posso iluminar? Posso fazer algo que nos proteja sem alimentar isso?

Fecho os olhos por um instante. Sinto o pingente. Sinto minha canção. Sinto as ondas.

"Sim", sussurro. "Mas não em voz alta."

Começo a cantarolar, quase inaudível. Um som que não é um "ataque", mas um "véu". Um som que não atrai atenção, mas a dispersa. Como névoa, mas feita de voz.

Eira me lança um olhar rápido, surpresa, e depois acena com a cabeça como se entendesse: Não demonstre poder. Não a alimente.

O crepitar lá fora aumenta. Sombras se movem entre as rochas. Não vejo nada diretamente, mas sinto uma presença. Uma espécie de curiosidade voraz.

"Vem", algo sussurra na minha cabeça, mas desta vez não soa como o mar. Soa como o sorriso de uma pessoa.

Eira levanta o arco, mirando em uma abertura entre duas pedras.

Então alguém se adianta.

Não Lys. Não Roma. Não é um aliado conhecido.

Um homem, ou algo que se move como um homem, com um casaco encharcado, embora não esteja chovendo. Seu rosto está parcialmente na sombra, mas vejo algo que imediatamente me faz estremecer: seus olhos parecem brilhantes demais, reluzentes demais, como se refletissem a luz como pedras molhadas.

E atrás dele – mais duas figuras, magras, ágeis, com lâminas que não brilhavam metalicamente, mas sim em uma escuridão profunda.

Eira puxa o arco. "Mais um passo", ela rosna, "e você alimentará o que busca."

O homem levanta as duas mãos lentamente, como que por educação. "Comida?", diz ele, com a voz suave como seda. "Só estou procurando... viajantes."

Lys dá um passo à frente, com o olhar frio. "Esta costa não lhe pertence", diz ela.

O homem sorri. "Ainda não", murmura ele.

Minha voz se embarga. Meu coração dispara.

"Quem é você?", pergunto, mesmo sabendo que nomes são portas. Mas às vezes é preciso saber qual porta está à sua frente.

O homem olha para mim, e há algo em seu olhar que me toca como uma mão fria: ele me reconhece. Não a Hannah da UCLA. A Hannah como uma coroa-sem-coroa.

“Uma que está atrasada”, diz ele baixinho. Então seu sorriso vacila. “Mas pelo menos ela vem.”

Eira aperta ainda mais a flecha. "Diga seu nome ou morra sem ele."

O homem riu baixinho. "Ah, filho das montanhas", disse ele. "Sabe: no mar... você só dá seu nome se quiser perdê-lo."

A voz de Lys é uma faca. "Então vá."

O homem inclina a cabeça como se estivesse ponderando algo. Então diz, quase gentilmente: "Nos veremos de novo."

E ele se retira, tão silenciosamente que quase parece que nunca esteve ali.

As sombras atrás dele desaparecem.

O estalo para.

O vazio está respirando novamente.

Deixo o som se dissipar lentamente. Minha garganta arde. Meu corpo treme.

Eira abaixa o arco, praguejando baixinho em sua língua.

"O que foi isso?", pergunto.

O rosto de Lys está endurecido. "Uma mensageira", diz ela. "Ou uma caçadora."

"Por Drakar?", sussurro.

Lys acena lentamente com a cabeça. "Por algo que a costa já considera seu."

Dawson olha na direção para onde as figuras desapareceram. Seus olhos estão escuros. "Então é pior do que pensávamos", diz ele.

Sinto o pingente pressionando minha pele, como se estivesse concordando.

"Como saímos daqui?", pergunto, e a pergunta contém mais do que apenas "para longe desta praia". Significa: Como entramos em um sistema que está atualmente em colapso?

Eira aponta para o mar, invisível por trás das rochas.

“Com um navio”, diz ela secamente.

Lys acena com a cabeça.

“Com um navio antigo”, diz ela suavemente. “Um que não apenas navega. Mas… se lembra.”

Vejo o rosto de Dawson. Ele também sabe disso.

Nós dois já tínhamos ouvido falar, mas sem saber o que era: Starwatch. Um naufrágio, um ritual, uma nave como personagem.

Meu estômago se contrai de medo e expectativa, porque ambas as sensações são semelhantes quando me aproximo de um limite.

“Então”, digo, e minha voz soa rouca, “encontraremos esse navio”.

Dawson se aproxima, coloca a mão nas minhas costas, não como um gesto de posse, mas de apoio. "Juntos", diz ele.

"Juntos", sussurro.

E lá fora, atrás das rochas, o mar se choca contra a praia como se estivesse rindo.

Capítulo 3 - O naufrágio das rainhas

O caminho para o "Observatório das Estrelas" não começa com um mapa, mas com uma sensação instintiva.

Caminhamos até minhas pernas ficarem pesadas e a areia roçar nos meus sapatos como uma pequena e teimosa maldição. A costa não é uma praia como as que conheço de Los Angeles, não é lugar para toalhas e protetor solar. É sulcada, erodida, como se o mar a estivesse atacando implacavelmente há séculos. Pedras negras jazem como dentes quebrados na água rasa. O sal brilha entre elas, não de forma brilhante e amigável, mas como crostas frias.

Eira segue em frente, em silêncio, embora o chão esteja tudo menos tranquilo. Ela encontra os caminhos entre as rochas que não escorregam, que não racham, que não ficam muito perto da água. Lys a segue com um embrulho debaixo do braço — tecido, couro, algo que parece um mapa, mas só consigo ver fragmentos. Dawson fica comigo, a meio ombro de distância, como alguém que aprendeu a não confundir proximidade com controle. Mesmo assim, ele está lá, constante. Quando o vento aumenta, sua mão roça meu cotovelo, como se verificasse se ainda estou no meu corpo.

"Quão longe?", pergunto, porque senão minha voz vai ficar presa na minha cabeça e se transformar em medo.

Eira não responde imediatamente. Ela permanece imóvel, escutando. O vento bagunça seus cabelos, e ela parece uma figura de uma pintura inacabada.

“Não está longe”, diz ela finalmente. “Mas o mar…” Ela faz uma careta. “Está agindo como se quisesse nos virar de cabeça para baixo.”

"Quer nos levar de volta para as montanhas?", murmurei.

Lys bufa secamente. "Não. Quer que desistamos antes mesmo de começarmos."

"Que... legal", eu digo.

Dawson emite um som que é quase uma risada. "Bem-vindo ao mar."

Eu o encaro. Seus olhos estão abertos, mas também carregam uma sombra que conheço desde a época da UCLA: a lembrança das noites em que ele ouvia coisas que não conseguia explicar a ninguém. Agora, essa sombra não está mais isolada. Todos nós a ouvimos.

O sussurro das ondas não é apenas água. É uma linguagem sem palavras, um constante "vem. Vem. Vem." E por baixo, algo que soa como um sorriso.

Subimos um cume rochoso e, de repente, a costa se abre em uma baía. A água aqui é mais calma, mas não tranquila. Mais como uma mão que relaxa porque já sabe que logo voltará a agarrar.

E lá está ela, metade na água, metade na lama.

O "Relógio das Estrelas".

Eu paro porque meu corpo não consegue assimilar imediatamente o que meus olhos veem.