A Criança Cristal - Elias J. Connor - E-Book
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A Criança Cristal E-Book

Elias J. Connor

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Beschreibung

Dizem que ela é sensível, frágil, quieta. Mas isso é só a superfície. Quando Raymond e Melanie adotam uma menina tímida e aparentemente estranha chamada Lisa, ninguém suspeita do quanto suas vidas estão prestes a mudar. Lisa raramente fala sobre si mesma — contudo, seus olhos parecem enxergar mundos ocultos aos outros. Seu novo irmão, Prince, é o primeiro a perceber: algo nela é diferente. Mais gentil. Mais profundo. E, às vezes, inquietante. Lisa reage às emoções como se fossem ondas gigantes. Ela sente o medo antes mesmo que ele seja verbalizado. Ela conforta sem saber como. E um dia, ela toca um homem moribundo — e o traz de volta. O que inicialmente parece ser sensibilidade logo se torna uma verdade maior do que a família está disposta a aceitar: Lisa não é uma criança comum. Ela é uma Criança de Cristal — um ser cuja consciência transcende os limites da humanidade. E ela não é deste mundo. Enquanto Prince tenta protegê-la, outros descobrem informações sobre ela: um repórter em busca de respostas, uma organização misteriosa que coleta o que não compreende e seres que vivem entre os humanos há milênios — os Anunnaki. Uma corrida começa entre ciência e fé, memória e esquecimento, posse e liberdade. Um romance sobre percepção, solidariedade e o poder silencioso que às vezes desperta em uma única criança.

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Seitenzahl: 415

Veröffentlichungsjahr: 2025

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Elias J. Connor

A Criança Cristal

 

 

 

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Inhaltsverzeichnis

Titel

Dedicação

Prólogo

Capítulo 1 - Chegada

Capítulo 2 - Ressonâncias iniciais

Capítulo 3 - O Diário de uma paixão

Capítulo 4 - Primeiras pistas

Capítulo 5 - O primeiro milagre

Capítulo 6 - Limites

Capítulo 7 - Controle suave

Capítulo 8 - O estranho no café

Capítulo 9 - Abordagens

Capítulo 10 - Dúvida e esperança

Capítulo 11 - Os estranhos

Capítulo 12 - Abaixo da superfície

Capítulo 13 - Apocalipse

Capítulo 14 - Um aviso

Capítulo 15 - Arquivista

Capítulo 16 - Pensamentos de fuga

Capítulo 17 - O jornalista fala

Capítulo 18 - Caça

Capítulo 19 - Fuga da casa

Capítulo 20 - A revelação dos Anunnaki

Capítulo 21 - O plano

Capítulo 22 - Traição

Capítulo 23 - No deserto

Capítulo 24 - A nave espacial

Capítulo 25 - As outras crianças de cristal

Capítulo 26 - Operação de resgate desesperada

Capítulo 27 - A batalha dos mundos

Capítulo 28 - Fusão

Glossário

Sobre o autor Elias J. Connor

Impressum neobooks

Dedicação

Para minha namorada.

Você é único, incomparável e especial.

Fico feliz por termos nos encontrado e estarmos trilhando nosso caminho juntos.

Prólogo

O céu sobre o deserto brilha com uma frieza incomum, um azul surpreendente que desafia os amarelos habituais do dia. Ainda é cedo para o calor intenso; o sol está baixo, projetando sombras nítidas sobre a areia, mas ao mesmo tempo algo estranho tece uma faixa prateada no firmamento — minúscula a princípio, depois maior, como um cardume de peixes se aproximando em formação. Três grandes corpos surgem à vista, pesados, geométricos, e atrás deles segue uma armada de cerca de cem companheiros menores. Todos têm forma de pirâmide, angulares, como se alguém tivesse recriado a forma do próprio deserto — só que com muito, muito mais precisão, a partir de metal que cintila no ar.

As pessoas nas margens do grande rio, com água até os joelhos, secando peixe ou cortando juncos, veem primeiro apenas um brilho intenso no horizonte. Uma criança chora, um cachorro uiva e, por um instante, o mundo prende a respiração. Então, um som suave e profundo desce à terra — não um ruído, mas sim uma pulsação ascendente que faz a areia vibrar sob seus pés. Não é um trovão, não é uma tempestade; é o sopro de algo que não pertence à terra.

As três grandes estruturas chegam primeiro, silenciosamente como sombras, e aterrissam com uma serenidade que parece desafiar todas as leis da gravidade supostamente conhecidas. A areia forma curvas suaves em seus flancos, pequenas dunas que se aninham contra as superfícies lisas e metálicas.

A forma é perfeita: uma pirâmide, exceto pelo fato de que nenhuma pedra é visível em seu interior. Sem camadas de construção, sem paredes, sem estrutura humana. Apenas bordas fluidas, mais frias que qualquer pedra. As naves menores se espalham e encontram espaço em níveis próximos, como se compartilhassem um plano comum, uma ordem secreta entre si.

Os egípcios, habitantes daquela região desértica que mais tarde seria chamada de Nilo, desconheciam tais formas. Conheciam colinas, rochas e, ocasionalmente, alguma imagem de um deus criada por um artista, mas jamais haviam visto algo tão perfeitamente geométrico. Os xamãs e sacerdotes dos primeiros assentamentos foram os primeiros a interpretar seu significado: se os próprios céus enviavam uma forma, não poderia ser um fenômeno natural comum. Reuniram-se, ajoelharam-se, juntaram as mãos — o ritual foi imediato, instintivo: quem poderia prever o poder que emanaria da humanidade quando a geometria dos céus se alinhasse com a geometria da Terra?

À medida que as rampas de carga das grandes naves em forma de pirâmide baixavam suavemente, os observadores atônitos contemplaram seres de aparência surpreendentemente humana. Eram mais esguios do que a maioria das pessoas que ali viviam, sua pele tinha um brilho quente e perolado, e seus olhos eram grandes, escuros como ébano polido. Seus corpos estavam envoltos em vestimentas que não se assemelhavam nem a tecido nem a couro, mas a uma espécie de trama translúcida que cintilava à luz. Em suas têmporas, havia pequenos adornos, anéis lisos cuja função ninguém conhecia. Moviam-se com a compostura de quem está acostumado a cem mil anos de tecnologia e não paralisado pela turbulência de um planeta alienígena.

Alguns dos anciãos se curvam automaticamente. Eles conhecem as histórias: estranhos chegam, estranhos trazem presentes ou ruína. Mas os estranhos não falam. Em vez disso, um deles estende a mão, e uma projeção de um mapa estelar aparece na areia: linhas, pontos, símbolos de mundos que nenhum deles jamais verá. Uma imagem de movimento, de um lugar para outro, de arcos de luz. É uma linguagem que penetra diretamente nos olhos e no coração, sem a necessidade de palavras — as pessoas sentem admiração, mas também uma inquietação persistente, como se seu próprio mundo de repente se tornasse pequeno demais.

Os primeiros a tocar nos estranhos não são os chefes, mas as crianças. As crianças ainda não aprenderam a temer o desconhecido; elas aceitam o outro como se ele fosse uma das muitas faces possíveis da criação. Um menino ri baixinho, estende a mão, e uma das figuras estranhas se inclina; o contato dura apenas um instante. O menino ri alto, e essa risada é como um diploma, uma permissão para a paz. Os adultos prendem a respiração; alguns choram.

Os forasteiros — logo chamados de "deuses" pelas línguas do povo — tomam seus lugares como convidados indesejados, mas suportam sua presença com uma serenidade que torna possível aceitá-los. Não exibem armas; tudo o que trazem é conhecimento, dispositivos e ferramentas que funcionam instantaneamente, porém suavemente: filtros de água que extraem água potável e cristalina de águas turvas; sementes que germinam até mesmo na areia salgada; hastes de metal que captam a luz e a transformam em calor sem a necessidade de fogo. O povo fica maravilhado; os deuses não dão nem tiram nada à força. Ensinam, dão ferramentas, e os assentamentos crescem como se tivessem esperado séculos por esse conhecimento.

Mas nem todas as reações são puramente religiosas. Alguns dos mais jovens — aqueles que ainda são curiosos e têm aptidão para a tecnologia — observam mais atentamente. Seguem os forasteiros sob as asas da noite, observam seu trabalho, estudam as linhas das estruturas em forma de pirâmide que parecem templos de outro mundo. Veem como os mecanismos se abrem com requintada precisão, como um núcleo interno, como um coração, de onde fluem luz e corrente. Esses jovens não estão pensando em deuses; estão pensando em oficinas, em funcionamento, na ideia de compreender as coisas. Alguns deles ousam perguntar — em gestos simples, em mãos que alcançam ferramentas, em perguntas que brilham em seus olhos, tão diretas quanto as perguntas de crianças à beira do rio.

Os alienígenas respondem em sua língua não com palavras, mas com paciência demonstrativa. Mostram como moldar uma pá a partir de metal dobrado, como cavar canais na areia para direcionar a água do rio, como encaixar pedras para suportar cargas. Logo, surgem estruturas que os humanos jamais conheceram. É como se os extraterrestres estivessem mostrando um espelho para a civilização primitiva e dizendo: "Eis o que vocês podem se tornar". Ensinam matemática por meio de imagens, desenhando eixos, ângulos e ciclos na areia. Oferecem símbolos aos humanos, mostrando como as multidões se organizam, como as equipes trabalham. Os humanos começam a encarar esses alienígenas com admiração, com gratidão — às vezes com arrogância.

Mas todos os dons têm um preço, e toda grande mudança traz consigo questões que desafiam respostas fáceis. Os sacerdotes, vendo seu lugar no topo da antiga hierarquia perdido, murmuram nos bastidores. Observam com olhos atentos, pois tais ensinamentos tecnológicos não mudam apenas tijolos e água, mudam o poder. Um novo conselho está se formando, composto por aqueles que se adaptaram: mercadores, construtores, aqueles que lucram com o novo conhecimento.

Outro conselho é formado por céticos que desconfiam da influência dos estrangeiros, por anciãos que dizem que não se deve confiar nos deuses.

Os alienígenas, porém, operam com a paciência das estrelas. Não ficam todos os dias; vêm em ciclos, trabalhando em projetos que duram o dia todo e que parecem rituais, e depois se retiram para as câmaras internas de suas naves. Demonstram conceitos e depois deixam as ferramentas para trás. Não são brutais; sua superioridade é silenciosa, seu poder estruturado. Algumas pessoas começam a vê-los como intermediários — intermediários entre este mundo e uma ordem que parece maior que a sua.

E então chega o momento em que os alienígenas fazem algo que mudará o mundo: eles enterram parcialmente suas naves na areia. Não completamente, mas o suficiente para que apenas as pontas se projetem, brilhando como os cumes de montanhas de metal. Não é um ato de covardia ou medo; é uma ordem que estão cumprindo, um propósito que têm. Deixam as grandes estruturas piramidais repousarem, suas bases profundamente na areia; as bordas desaparecem, os flancos se enterram, e as pessoas não perguntam imediatamente o porquê. Talvez pensem que os deuses querem que permaneçam, um monumento que demonstra seu poder. Talvez entendam que é uma proteção, uma espécie de preservação de sua tecnologia em outro meio: a terra, que se assenta ao longo dos anos como uma concha.

Os grandes navios, semi-enterrados, ainda brilham com um fulgor metálico por um tempo. As pessoas vêm e veem: ali está algo de outro mundo, um novo santuário. Constróem pequenos templos ao redor dos montes, trazem oferendas e, com o tempo, as coisas se entrelaçam: o topo do navio torna-se parte de uma estrutura de culto, mas a base, escondida na areia, permanece um recurso tecnológico de acesso incerto. Os forasteiros evitam ensinar como recuperar os navios. Talvez seja parte de uma lição, talvez um teste.

Aprenda com o que você tem, não com o que você pega.

Séculos se passam. O metal, originalmente liso e novo, sofre a ação do tempo. A areia esfrega, o vento carrega, o sol desgasta. Uma pátina se forma na superfície — não apenas ferrugem, mas uma transformação que torna áspero o que antes era liso. Camadas de areia se acumulam, montes de esterco e poeira cobrem as superfícies lisas. As pessoas vêm, trabalham, dependem das formas sem conhecer sua origem precisa. As proas dos antigos navios ainda se destacam, mas sua nitidez se suaviza, as montanhas se tornam rombudas, as arestas perdem sua precisão original. Quanto mais o tempo passa, mais a memória do que antes era altamente tecnológico e alienígena se desvanece. Histórias de deuses se entrelaçam com lendas de construtores, moldadas por mãos humanas — histórias que mais tarde reforçarão os costumes dos pedreiros.

A arquitetura dos primeiros assentamentos assume a forma que as gerações posteriores chamariam de pirâmides. Mas os primeiros construtores, naqueles primeiros séculos, ainda tinham consciência de suas origens estrangeiras; eles possuíam imagens, tinham canções. Alguns sacerdotes registraram informações, desenharam estrelas, compilaram listas e garantiram que histórias fossem transmitidas, revelando os contornos da verdadeira forma.

Mas na geração seguinte, e em muitas outras depois, os "deuses que vieram do céu" tornam-se uma memória tão distante que se transforma em mito. A torre metálica, que outrora se erguia em direção ao céu como um dedo, desaparece quase por completo sob o sol escaldante do deserto; as pessoas que um dia a conheceram morrem e são substituídas por pessoas que conhecem apenas a pirâmide, não o navio.

Ao longo dos séculos, surge uma nova cultura na qual a própria pirâmide se torna um símbolo: poder, ordem, a conexão entre a terra e o céu. A forma, originalmente de alta tecnologia, é adotada como um cânone arquitetônico; as pessoas aprendem a construir com pedra por conta própria, inspiradas por algo que já não compreendem completamente. A pirâmide como ideia é agora mais forte do que em sua origem: tornou-se um símbolo com ressonância suficiente para perdurar por milênios. Mais tarde, quando os estudiosos analisam as camadas, podem encontrar vestígios de metal no núcleo profundo, mas por muitas gerações, o desaparecimento dessa tecnologia permanece um mistério. Lendas contam sobre deuses que outrora a ajudavam, sobre pessoas que a aprendiam, e assim a memória permanece — velada, adaptada, sagrada.

Às vezes, em noites frias, quando o vento carrega poeira ancestral e as estrelas brilham com particular intensidade, sinais ainda tremeluzem no horizonte do deserto. Nem todos os forasteiros permanecem; alguns partem, outros ficam, alguns retornam em ciclos para observar, não para dominar. Aqueles que ficam se entrelaçam cada vez mais com o tecido da vida humana, alguns contribuindo com conhecimento, outros se retirando para as margens. As comunidades que emergem dessa era carregam uma memória dupla: a das ferramentas e a dos deuses. Elas ensinam seus filhos a honrar os céus enquanto, simultaneamente, constroem de acordo com um plano que já não é totalmente compreendido.

É assim que as pirâmides são criadas – não como meros monumentos ao domínio humano, mas como produto do encontro: um alisamento formal daquilo que antes era estranho e metálico. Milênios se depositam como areia sobre o metal, sobre a memória, sobre o poder. As naves evaporam seus segredos em uma camada de mito e poeira, e o que resta é a forma, perdendo sua função e tornando-se um símbolo. E, no entanto, oculta sob as camadas, a tecnologia permanece – a cicatriz de outro céu, um legado à espera de ser descoberto e de abrir o mundo mais uma vez.

Naquela primeira hora de encontro, quando crianças riam e sacerdotes se curvavam, algo maior do que qualquer cultura individual começou. O vínculo entre estrelas e areia foi tecido. As pirâmides alienígenas lançaram as primeiras linhas, em metal e em memória, que os humanos mais tarde chamariam de "estruturas da imortalidade". Os deuses haviam partido, ou haviam permanecido; é difícil dizer. Mas seus vestígios, na forma de cones de metal que mais tarde se transformariam em pirâmides, permanecem na terra. E onde quer que os humanos construam, a ideia continua a crescer, até que o próprio mundo a herde e a perpetue em seu próprio nome.

Capítulo 1 - Chegada

A manhã tem a cor da fibra de limão — brilhante o suficiente para fazer o mundo parecer amigável, mas não tão intensa a ponto de cegar. Na cozinha do pequeno bangalô em Santa Monica, o ar cheira a café torrado e sal, entrando por uma janela entreaberta. Raymond está no fogão, uma espátula na mão, falando com uma voz tão ensaiada que poderia acalmar um gato. Melanie veste um vestido leve que a faz parecer que acabou de sair do oceano, embora tudo o que tenha feito seja preparar o café da manhã. Prince está sentado à mesa, com os cotovelos apoiados na madeira, os dedos tamborilando no tampo. Ele tem doze anos e essa ousadia, essa tensão à flor da pele — não exatamente raiva, não exatamente impaciência. O ceticismo se agarra ao seu olhar como sal na borda de um copo.

Lisa senta-se ao lado dele, uma menina com cabelos da cor da seda escura e mãos tão imóveis, como se nunca tivessem quebrado nada. Ela tem nove anos e faz parte desta família há três semanas. Raymond sempre diz "três semanas e alguns dias" porque gosta de números precisos; Melanie simplesmente chama o dia de "nossa nova manhã". Prince não diz nada sobre o dia. Ele olha para Lisa porque esse é o seu papel — é assim que se sente. Ele quer saber o que se esconde nos olhos da menina tão silenciosa que até o relógio na parede da cozinha parece silenciar quando ela dá um passo.

Os olhos de Lisa não são simplesmente castanhos; são mais profundos do que qualquer nome de cor comum permite. Você tem a sensação de que eles leem não apenas a luz, mas histórias. É difícil descrever exatamente como eles enxergam mais sem parecer exagerado; e ainda assim, Prince senta-se ali repetidas vezes, observando seu olhar alterar os contornos de um instante. Ele se detém em um espaço de ar quando alguém ri, como se estivesse testando as ondas de riso, e às vezes, quando ninguém pergunta, ela sorri como se entendesse uma piada que o mundo guarda para si.

Naquela manhã, Lisa vasculhou uma pequena bolsa e tirou um bicho de pelúcia torto — um ursinho de pelúcia velho e levemente queimado, cujos olhos haviam sido trocados em algum momento. Ela acariciou brevemente sua pelagem, como se fosse um ritual, e o entregou a Prince para que ele o examinasse.

“O nome dele é Mino”, diz ela, baixinho. Prince pega o ursinho de pelúcia, segura-o como se tivesse que conferi-lo, como se estivesse respondendo a uma prova.

“Mino?” ele repete. Parece um apelido que ainda precisa ser despertado com um beijo. O urso cheira a sabão e a memórias de estranhos. Prince não retribui o sorriso imediatamente; seu ceticismo transparece como uma caligrafia.

"Por que você tem essa coisa?"

Lisa olha para ele com aquela calma que às vezes faz Prince estremecer. "Ele me pertence nos meus sonhos", diz ela. "E às vezes ele acorda." Ela não hesita ao dizer isso. Isso enfurece Prince, porque seus sentimentos não podem ser contidos em palavras; eles transbordam como cartas.

"Isso não tem graça", ele quer dizer, mas em vez disso pega o urso, coloca-o sobre a mesa e permite que o rosto do brinquedo de pelúcia seja um pequeno e desajeitado acompanhamento do café da manhã.

Eles estão comendo panquecas. Raymond as faz com manteiga demais, Melanie salpica frutas vermelhas por cima. Lisa come devagar, com cuidado, como se cada mordida fosse um elogio ao mundo. Às vezes, ela para, olha para a porta, como se ouvisse algo que não existe. Prince percebe como ela segura a língua entre os dentes quando está absorta em seus pensamentos, e acha isso tão irritante quanto encantador. Irritação, essa é a sua bússola: algo o atrai e o repele ao mesmo tempo. Ele entende que Lisa é diferente — isso é um fato — e sente uma pequena raiva crescendo dentro de si porque essa diferença levanta questões que ele não consegue responder.

Depois do café da manhã, eles se vestem. É um dia ensolarado de início de verão. A rua cheira a grama recém-cortada e fumaça de motor. No caminho para a praia, a família caminha em pequena formação: Melanie na frente, Raymond no meio, Lisa ao lado dele como um satélite silencioso, Prince ao lado, queixo erguido, como se estivesse procurando por falsidade.

O Pacífico os saúda com uma brisa que instantaneamente dissipa tudo. Santa Monica tem esse poder, pensou Prince mesmo durante a mudança: as ondas cegam as dúvidas se você simplesmente fechar os olhos e sentir o cheiro do sal. Os vendedores já montaram suas barracas no píer; um homem gira algodão-doce como se fossem nuvens, outra criança se ajoelha construindo um castelo de areia como se fosse a arquiteta de um reino em miniatura. Lisa caminha descalça, segurando a mão do seu ursinho de pelúcia, e o jeito como ela afunda os dedos dos pés na areia é como se estivesse medindo o mundo novamente a cada passo.

Eles caminham em silêncio ao longo da água por um tempo. Prince observa Lisa examinar as conchas, não com a mania infantil de colecionar, mas como uma cartógrafa marcando pontos de referência. Então ela olha para ele, fixando seu olhar com a intensidade de alguém que não precisa fazer perguntas, pois as transmite diretamente.

"Você faz parte deles?", ela pergunta de repente, como se tivesse captado um pensamento em sua mente. Prince estremece; a pergunta o pega de surpresa. Ele não diz nada, sem saber se é um teste.

Melanie sorri porque acha que Lisa está fingindo.

Raymond diz algo inócuo sobre o tempo.

Mais tarde, sob a sombra de uma palmeira, Lisa pega seu caderno — um pequeno livro de capa amarela, com as páginas onduladas pela água do mar que fora esquecida em algum momento. Às vezes, ela desenha nele com uma caneta que frequentemente deixa mais rabiscos do que linhas nítidas. Nos primeiros dias, o caderno parecia um brinquedo de criança, mas certa noite Prince folheou-o porque não conseguia se livrar da estranha sensação de que as páginas contavam uma história que ia além das fantasias infantis. Símbolos, escreveu ele para si mesmo, que desafiavam explicações fáceis: espirais que se transformavam em cruzes; pequenas marcas que pareciam constelações simplificadas. Lisa não o vê olhando as páginas. Ela deixa a caneta girar em sua mão como se traçasse uma melodia que só ela consegue ouvir.

Algo acontece na praia que parece uma pequena rachadura na ordem. Um pássaro, talvez um filhote de gaivota, voa entre os pedaços de madeira à deriva com uma asa quebrada. Um homem se abaixa, tenta pegá-lo, faz um movimento desajeitado. As pessoas se viram. Lisa para, seu semblante revelando uma mistura de dor e determinação. Então, de repente, sua boca se abre, pouco mais que um sussurro, e um suspiro escapa — não uma palavra alta e mágica, mais como um sopro, quase imperceptível.

Ela se aproxima, ajoelha-se e coloca delicadamente a mão sobre as penas dobradas. Seus dedos não tocam o pássaro com força, mas como se o estivessem examinando. Prince permanece paralisado, o rugido das ondas diminuindo em seus ouvidos. O pássaro resfolega, batendo as asas com menos tremor. Um gole, depois uma subida, e uma virada, quase um bater de asas, um pairar no ar — como se um fio invisível tivesse sido refeito. Para as pessoas que testemunharam, foi um pequeno movimento milagroso; para Prince, foi uma faísca, uma janela que se abriu: Lisa era capaz de fazer coisas que ninguém esperava.

Após o incidente, um vizinho chora — não um senhor de idade, mas um pai jovem com uma criança pequena nos braços, que ralou o tornozelo na areia. O pai tem lágrimas nos olhos, não apenas pela dor, mas porque o medo que o atormentou durante toda a noite se dissipa num momento de purificação. Lisa está ao lado dele, segurando sua mão, com firmeza e carinho, e Prince observa o homem sorrir lentamente, como se um nó interno estivesse se desfazendo. Prince se pergunta se isso é normal, se crianças fazem isso. Seu estômago ronca com uma mistura de admiração e algo próximo ao medo.

À tarde, todos se sentam em cobertores. Raymond prepara sanduíches, Melanie lê um blog no tablet, Prince joga frisbee sem muita vontade com um menino da rua. Lisa senta-se entre os cobertores, com o caderno aberto, desenhando. Às vezes, ela conversa baixinho com seu ursinho de pelúcia, como se ele estivesse indo em uma viagem, e Prince sente sua frieza se dissipar. Curiosidade — essa é a nova palavra que ele descobre dentro de si, um sentimento que não cheira a crítica, mas sim a uma bondade voraz. Ele quer saber, quer entender.

De volta para casa à noite, a casa se transforma num aquário de luz. Raymond arruma a bagunça, Melanie veste Lisa com uma camiseta velha que está grande demais. Prince senta na cama, a janela entreaberta, ouvindo o barulho dos carros na rua. Seus pensamentos giram em torno de duas coisas: o jeito como Lisa coloca as mãos sobre aqueles que precisam de ajuda, como se não estivesse apenas confortando-os, mas também tirando algo deles — e o caderno de símbolos que ele ainda não consegue decifrar. Ele se levanta, vai até a cozinha, toma um gole d'água e encontra Lisa lá, na mesa da cozinha, a testa franzida, os lábios entreabertos.

"O que você acha?", pergunta ele, com uma cautela incomum.

Lisa levanta o olhar, surpresa e receptiva.

“Às vezes ouço vozes. Não palavras, mais como cores. E imagens. Hoje havia um azul com gosto de sal.” Ela diz isso com a naturalidade de uma criança descrevendo sua cor favorita. Prince sentiu esse azul na praia, como se um pano os envolvesse. “E você?”, ela pergunta em resposta. É como se quisesse espelhar sua exploração.

“Acho que você pertence a este lugar”, diz Prince instintivamente, e sente uma clareza, como se traçasse uma linha divisória entre as coisas. Não porque queira ser o salvador, mas porque decidiu: este é o seu lugar. Lisa olha para ele, e em seus olhos, não há surpresa, apenas alívio. Ela coloca a mão sobre a dele, tão delicadamente que, uma fração de segundo depois, um calor o invade, como se estivesse voltando para casa.

Os dias se fundem numa série de momentos: um jantar em que Lisa, de repente, conta uma história que ninguém sugeriu; uma manhã em que ela acorda e dá nome a uma flor que só existe num livro antigo. Raymond e Melanie trocam olhares em que preocupação e amor se misturam como duas cores. Às vezes, sussurram frases em latim, como se tentassem evocar estabilidade. Prince os observa e, muitas vezes, defende um silêncio tranquilo, um silêncio que prefere manter porque as palavras nomeiam coisas que o mundo não aceita facilmente.

Certa noite, quando a cidade cintilava sob a luz vítrea dos postes e o mar se estendia como metal, eles estavam sentados na varanda. Um vizinho apareceu, um velho de pele enrugada, que sempre colecionava histórias de tempos passados. Ele ficou mais tempo do que o necessário e, quando se despediu, Lisa colocou a mão em seu braço. O homem respirou fundo, como se de repente tivesse compreendido muita coisa, e então sorriu suavemente. "Que bom", murmurou, quase inaudível. "Que bom que você está aqui."

Prince olha para seus pais, que estão sentados ao seu lado. Ele agora percebe que, enquanto o ceticismo é um escudo, a curiosidade é a chave que pode abrir portas invisíveis – portas para as pessoas, para os humores, para aquilo que o mundo ainda não se tornou por completo.

Prince fica acordado à noite. Os sons da casa, o mar agitado ao longe, os passos suaves de pessoas dormindo — tudo parece os capilares de um corpo vivo. Ele pensa em Lisa e nas coisas que ela não explica. Pensa em como ela consolou um pássaro ferido e nas mãos chorosas de seu pai. Pensa no caderno com sua espiral, em Mino, o ursinho de pelúcia, nos olhos de Melanie e Raymond olhando para ele como se o peso de uma decisão repousasse sobre seus ombros.

Por fim, ele coloca a mão sobre o coração, como se quisesse acalmá-lo. Então, levanta-se silenciosamente, vai até o quarto de Lisa e senta-se ao lado da porta. A luz do abajur projeta um círculo quente sobre a cama. Lisa dorme tranquilamente, com o caderno aberto sobre o cobertor, e Mino deitado ao lado dela como um sentinela. Prince observa por mais um instante e sussurra: "Você não está sozinha". Não é um gesto grandioso e heroico, mas uma promessa, pequena e firme como uma semente. Depois, ele volta para o seu quarto, deita-se e, pela primeira vez em semanas, dorme sem a incômoda sensação de ceticismo, mas com uma nova e terna curiosidade no estômago — a curiosidade de um menino descobrindo um mundo maior do que qualquer coisa que ele já tenha conhecido.

Capítulo 2 - Ressonâncias iniciais

O dia seguinte de aula amanhece com um céu cinzento, como se o mundo tivesse decidido pensar numa cor que desafia qualquer explicação imediata. Prince fecha a mochila com precisão mecânica, como se a ordem dentro dela estabilizasse sua confiança. Ele mal dormiu na noite passada; as palavras de Lisa ainda ecoam em sua mente, a imagem que ela projetou em sua testa — um mar turvo de vozes — como se ele a tivesse pressionado contra o ouvido como uma concha fria. Ele guarda o sentimento num bolso mental, um que só abre quando necessário.

A Rua da Escola fervilha de vida: campainhas de bicicleta, uma senhora idosa com um lençol cheio de roupa suja, risadas altas vindas do café na esquina. Lisa caminha ao lado dele, com a postura de uma criança que sente o peso do mundo mais do que outras crianças da sua idade. Ela para num semáforo, como se houvesse algo importante para ver. Prince observa enquanto ela inspira profundamente, fecha os olhos por um instante e, inesperadamente, coloca a mão na dele. É um toque leve e casual, mas carregado de afeto e um silencioso "obrigada".

Na sala de aula, a manhã transcorre normalmente: quadro-negro, boca cheia de giz, o murmúrio das conversas matinais. A professora Alvarez tem um jeito tranquilo de organizar as coisas que acalma as crianças. Ela começa com a rotina diária habitual — matemática, um pequeno projeto de leitura, teatro à tarde — mas, por baixo do murmúrio, surge outro som, um bater de asas, que Prince mal percebe porque seus olhos estão fixos em Lisa.

Lisa permanece sentada, imóvel, com as mãos no colo, e os olhos talvez um pouco mais brilhantes que o normal.

Após uma hora, ela levanta o ombro quase imperceptivelmente, como se estivesse afastando uma sensação de puxão.

A confusão começa no recreio. Duas meninas discutem por causa de uma régua emprestada; palavras voam, um rosto se contorce, um braço se levanta, um apelido é lançado. Prince ouve tudo de longe, mas para Lisa é mais do que apenas barulho — é uma mistura de expectativa, medo, vergonha e a pulsação sempre presente da dinâmica do pátio da escola. Algo começa a se agitar em seu peito: uma pressão, um nó, como se uma grande quantidade de energia descontrolada estivesse tentando se condensar em uma pequena chama.

Ela sai do pátio da escola como se atraída por um ímã: sem alarde, sem drama. Ela para na beira do pátio, onde as árvores projetam sombras, e respira. Seu rosto muda: pálido, depois um tremor, até que ela solta um suspiro e leva a mão à boca. Prince está instantaneamente ao seu lado, o mundo parece parar, seu coração bate forte e abafado. "Você está bem?", ele pergunta, sua voz com uma proteção que ele jamais imaginara ser possível.

“Eu…” ela ofega, “é como se… como se todas as vozes estivessem dentro de mim ao mesmo tempo. Elas estão me pressionando. Minha cabeça está zumbindo.” Seus olhos estão marejados, e não apenas por causa do vento de novembro. Prince não quer explicar; ele quer agir. Ele pega a mão dela e a aperta com força.

"Respire comigo", ele diz, mesmo sem saber como. Ele está aprendendo naquele momento.

Eles respiram, profunda e em sincronia. Prince conta silenciosamente até cinco, uma âncora, como lera em um artigo. O pânico se dissipa lentamente, como neblina se dissolvendo em vento. Lisa continua respirando, suas mãos agarradas aos dedos dele, e por um breve instante a estranheza natural desaparece — é como se tivessem fechado juntos uma janela, uma janela que fora inundada por imagens demais.

A professora a leva até a diretoria e gentilmente lhe oferece uma palavra de conforto. "Talvez muito tempo de intervalo, muitas impressões", diz ela com o distanciamento profissional que os professores às vezes mantêm.

Prince senta-se ao lado de Lisa e observa os adultos conversando. A Srta. Alvarez sugere que ela fale com a psicóloga da escola. "Às vezes, as crianças têm sensibilidade sensorial", explica ela. "Elas precisam aprender a lidar com isso." Parece plausível, mas Prince sabe que o mundo de Lisa é mais complexo. Ele se lembra da imagem que ela desenhou em sua testa dias atrás; sente que palavras como "sensibilidade" se aproximam da verdade, mas não a definem por completo.

Em casa, os sons são percebidos de forma diferente. Um caminhão barulhento passa pela rua, um caminhão de lixo exala seu hálito metálico, uma sirene soa ao longe — pequenas coisas inesperadas que não incomodam os outros, incomodam Lisa como espinhos. Esta tarde, um ruído inesperado de toalhas no banheiro a deixa enjoada. Ela se retira para o quarto, encosta a cabeça no parapeito da janela e espera até que o mundo recupere seu tamanho e sua paz.

Raymond ficou imediatamente em alerta máximo. "Precisamos consultar um médico", disse ele na cozinha, enquanto tentava salvar uma xícara de café.

Melanie respira fundo e liga para Therese, uma psicóloga infantil da região que trabalha com terapia lúdica.

“Terapia lúdica”, ela repete, quase como uma oração, “precisamos de alguém que trabalhe com crianças e as ajude a organizar o espaço ao seu redor”. Ela desliga, anota um endereço e liga para um colega em busca de recomendações. Suas mãos são ágeis, sua voz uma rede que busca apoio.

Naquela mesma noite, elas estão sentadas no consultório da Dra. Therese Martins, em uma sala organizada de forma que as crianças não se sintam como se estivessem sendo examinadas: almofadas coloridas no chão, prateleiras cheias de brinquedos de madeira, um canto com bichinhos de pelúcia. A Dra. Martins tem olhos que esperam pacientemente. Ela leva Lisa a sério, não faz perguntas que soem como testes. Em vez disso, oferece lápis de cor e a deixa desenhar. "Vermelho?", pergunta, apontando para um pedaço de papel. Lisa acena com a cabeça, sem pressa.

Enquanto Lisa desenha, a Dra. Martins conversa em voz baixa com Raymond e Melanie. "Algumas crianças são extremamente sensíveis a estímulos externos", diz ela. "Elas podem perceber sons como dor ou o ar como pressão." Ela explica o que são distúrbios de integração sensorial e como brincadeiras, ritmo e exercícios físicos podem ajudar o corpo a se reconectar com o mundo. Ela também recomenda descartar exames neurológicos — um EEG, talvez um breve exame neurológico. Raymond concorda com a cabeça e Melanie anota. Ambos estão aliviados por alguém estar levando-os a sério, mas também ansiosos porque os exames podem perturbar essa tranquilidade.

Prince está sentado numa pequena poltrona, com os joelhos encolhidos junto ao peito, observando Lisa. Ela está sentada no chão, pernas cruzadas, caneta na mão, desenhando espirais, linhas, uma sensação de ondas. De vez em quando, ela levanta a cabeça, seus olhos buscando os dele. Ele se aproxima, senta-se ao lado dela e, sem que ela peça, ela coloca a mão em sua testa. É um gesto pequeno e familiar, que agora faz seu coração se expandir sem aviso. Ele sente uma pressão, como se alguém o estivesse ouvindo por dentro. Então ele ouve a voz dela, não alta, mais como o som distante de um carrilhão.

“É como…”, diz ela, com a voz muito baixa, “um mar. Um mar que tem vozes. Às vezes, as vozes são redes que puxam. Às vezes, são pedras que me atingem. Nunca sei se devo nadar ou me esconder.”

Prince sente as palavras como ondas. Não é apenas uma metáfora; imagens estão realmente se formando em sua mente: um mar composto de vozes, cada onda uma conversa, uma lembrança, um som. É avassalador, e ainda assim Lisa segura delicadamente sua testa.

“Você consegue ver o mar?”, ele pergunta, e nessa pergunta está contido o toque de medo que o define.

“Às vezes”, ela responde, “mas é confuso. Não dá para ouvir direito porque todas as vozes estão falando ao mesmo tempo.” Ela pressiona brevemente, como se estivesse marcando a testa dele. “Não me incomode”, diz ela então, em silêncio, como se estivesse lhe dizendo as regras, “mas esteja aqui quando as ondas estiverem altas.”

Prince percebe que isso não é apenas um pedido. Ele leva a sério, tão a sério quanto se leva uma promessa. Ele levanta as mãos, junta-as e não diz nada, porque não há palavras que possam diminuir o oceano. Em vez disso, ele busca soluções: pergunta ao Dr. Martins o que pode ser feito, aprende exercícios de respiração e traz para Lisa um pequeno pedaço de massa de modelar para amassar quando as vozes ficarem mais altas. Melanie marca uma consulta para o EEG e Raymond liga para a seguradora.

As próximas semanas são uma coreografia de pequenos rituais. De manhã, eles tomam chá juntos, e Lisa tem um cobertor que pode usar para se enrolar quando os ruídos estão muito altos. Prince costuma sentar-se ao lado dela no ônibus para a escola, criando um silêncio entre eles como um escudo protetor. A Dra. Martins os ensina de forma lúdica a conectar seus corpos ao som: um jogo de batidas, respiração rítmica, olhos focados em um único ponto para reduzir a avalanche de ruídos.

Lisa está aprendendo a abrir pequenas janelas na maré. Ela está aprendendo que nem todas as vozes são perigosas. A cada dia de prática, o mar fica um pouco mais claro. Certa tarde, ela realiza algo que surpreende a todos: durante o recreio, ela permanece calma quando uma menina se aproxima, com os olhos faiscando de pânico por causa de uma discussão iminente. Em vez de fugir, Lisa respira fundo, olha para a menina, absorve sua energia, a organiza, e a menina expira e de repente ri, como se uma breve tempestade tivesse passado. A professora observa tudo com uma expressão de dúvida, sem conseguir discernir de imediato se é um milagre ou simplesmente o resultado de tudo o que aprenderam nas últimas semanas.

Prince observa, sentindo admiração e aquele velho e gélido medo. Ele se lembra dos dias em que sua voz soava como se o mundo fosse uma máquina distante, suas engrenagens girando despercebidas. Agora ele faz parte da máquina, suas mãos se encaixando nas engrenagens, aprendendo que a contenção às vezes é a ação mais eficaz. Ele está menos irritado e mais determinado. Seu papel está se definindo: ele não é um herói salvando o mundo como nos filmes. Ele é um guardião, uma Terra na qual Lisa pode se apoiar.

À noite, depois de uma aula, depois de um treino, depois de um dia em que respiraram mais do que falaram, eles se sentam juntos na cozinha. Raymond cozinha massa, Melanie serve vinho e Lisa desenha. Prince senta-se em frente a ela e observa as espirais em seu caderno. Ele quer interpretar as espirais, quer saber se elas podem se tornar um mapa: um mapa para o mar de Lisa, um mapa para a forma como as vozes se organizam. Ele pergunta a ela: "Se o seu mar fosse um lugar, onde você nadaria?"

Lisa olha para ele com a calma com que uma criança guia um adulto. "Nem sempre", diz ela simplesmente, "às vezes vou a uma ilha. É pequena, com uma árvore. Há uma cadeira lá. Sento-me e conto a cor das folhas." Então ela lhe mostra um desenho — um pequeno círculo, uma espiral, um ponto. Prince sente uma alegria indefinida que vem da profunda compreensão de que, por meio de imagens e gestos, é possível aproximar-se de uma realidade que ainda não se consegue expressar em palavras.

A terapia está funcionando. Lentamente — lentamente, como adubo criando raízes — Lisa está encontrando maneiras de lidar com a situação. Ela está encontrando uma maneira de se agarrar a uma âncora em meio à tempestade. À noite, Prince pratica exercícios de respiração com ela e marca o ritmo com batidas leves no ombro quando o mar se choca contra a costa do seu mundo interior. Raymond e Melanie estão aprendendo a nomear seus próprios medos e, como resultado, tornam-se mais cuidadosos com as palavras que sobrecarregam os outros com o peso do mundo. Eles estão aprendendo a ver Lisa não como um quebra-cabeça a ser resolvido, mas como uma paisagem que se desdobra quando se tem paciência.

Contudo, ao lado desse novo começo cauteloso, algo imenso permanece: a constatação de que Lisa não é apenas sensível, mas de alguma forma diferente. Os médicos que a tratam não encontram nenhuma causa patológica. O EEG não mostra nenhuma atividade epiléptica clara; os neurologistas estão perplexos, apontando para a necessidade de considerar fatores emocionais e sociais. É como se o mundo prendesse a respiração, recusando-se a rotulá-la.

Numa noite calma, quando tudo dorme e apenas a cidade sussurra com sua garoa, Prince pega seu caderno. Ele não desenha com precisão, apenas círculos, espirais, linhas, como Lisa faz. Escreve uma anotação no final: "Para Lisa. Proteja a ilha. Preserve a árvore." Então, ele fecha o caderno e olha para a porta do quarto dela. Tem a sensação de que esta vida, a missão dela, não é uma luta pontual, mas uma prática que se desenrola ao longo de anos. Respira fundo, e nessa respiração reside uma promessa: Estou com você. Vou ficar. Vou verificar como você está. Vou proteger.

Lá fora, uma onda quebra contra o cais ao longe, o som como um aplauso fraco na noite. Prince sorri suavemente na escuridão. Lisa dorme, com as mãos em volta de Mino, a respiração calma, o mar dentro dela momentaneamente imóvel. Amanhã, um novo dia começará, com a escola, com pequenas tempestades, com exercícios de respiração, com desenhos de mapas. Mas neste momento, sob a luz de um poste, o menino está pronto para ouvir o mundo que a menina carrega dentro de si — e para não a deixar sozinha.

Capítulo 3 - O Diário de uma paixão

A noite cai cedo sobre Santa Monica, como se tivesse pressa em engolir o calor e o barulho do dia. Do quarto, Prince ouve a respiração monótona dos pais, abafada como a de máquinas em modo de espera. A lua surge como um fino crescente acima do telhado. Prince permanece acordado, coberto até o peito; lá fora, o mar murmura, uma presença distante como um sopro. Seu olhar recai sobre a escrivaninha onde repousa o pequeno caderno de Lisa — está ali há dias, um pano amarelo, entreaberto, tão familiar quanto um animal. Ele já o viu muitas vezes, a capa rabiscada, a espiral impressa como um logotipo. Hoje, algo em seu estômago parece um puxão, um impulso que é mais do que mera curiosidade.

Ele sai da cama, tateia o chão frio com os pés descalços e abre a porta silenciosamente. Ninguém se mexe no corredor. Na sala de estar, a luz vermelha da televisão ainda brilha, a tela exibindo um retângulo escuro com as notícias; a gravata de Raymond pende do encosto de uma cadeira, um sinal silencioso de rotina adulta. Prince pega o caderno e vira as páginas com cuidado. Elas cheiram a lápis, um pouco a mar, ao leve gosto residual de cola que talvez tenha prendido a primeira fotografia. Ele sabe que não deveria lê-lo, não sem a permissão de Lisa — mas algo se agitou dentro dele: o desenho que vislumbrou recentemente, quando Lisa estava sentada no sofá, caneta na mão. Naquela época, fora apenas um instante; agora ele se senta com o caderno na escuridão, estudando os traços.

A primeira página é caótica: linhas, círculos, uma espiral que se repete várias vezes. Mais adiante, ele encontra a constelação. À primeira vista, lembra Órion ou a Ursa Maior, mas os pontos estão agrupados de forma diferente, conectados por arcos finos, como se não fossem estrelas, mas nós em um padrão. No centro da constelação, há uma pequena espiral, exatamente como na capa. Ao redor do desenho, Lisa escreveu frases com uma caligrafia infantil e fluida: "Se o azul estiver muito alto, saia", "Se as vozes estiverem ásperas, respire na sua mão", "Vermelho é seguro, os pais têm uma carta náutica". Prince franze a testa; as frases são como pequenas instruções, como se fossem anotações para ela mesma — ou para alguém que deveria aprender o padrão.

Seus dedos deslizam pelas páginas seguintes. Ele se depara com pequenas figuras – pessoas, linhas desenhadas em movimento. Ao lado de um boneco palito, ela escreveu: "não fuja, esconda-se na árvore". Ao lado disso, um desenho de uma casa com uma porta diferente – uma fenda estreita, uma cruz, uma espiral no meio.

Prince se pergunta se tudo isso não passa de um jogo, se Lisa está guardando um segredo que nem ela mesma entende. O silêncio na casa é denso, seus ouvidos como tambores tensos. Ele guarda o livro, aperta-o contra o peito como um tesouro precioso e se retira para o quarto. A vontade de saber mais nunca desaparece; mas ele também sabe que conhecimento significa responsabilidade.

A noite não é longa. Lá fora, um cachorro late, um carro distante ecoa fracamente, uma criança volta tarde para casa. Em algum lugar da casa, um sussurro se agita, soando a princípio como o vento. Prince se senta, escuta. Então ele ouve a voz — não uma fala alta, nem um murmúrio baixo, mas algo entre os dois, um zumbido suave, como se alguém estivesse falando consigo mesmo ou com uma boneca. Ele olha para a porta do quarto de Lisa: uma estreita fresta de luz. Cautelosamente, ele se aproxima do batente da porta e para ali, a borda do corpo pressionada suavemente contra a madeira. Ele vê Lisa na cama, deitada de lado, os olhos abertos para a escuridão. Ela murmura palavras, mas não como ele falaria. Não é uma conversa audível, mais um sussurro que não chega aos seus ouvidos, como se passasse por uma peneira muito fina.

“…azul… não barulhento… ilha…” é tudo o que ele consegue captar. As sílabas são fragmentadas, como se ela estivesse apenas pronunciando frases para não incomodar ninguém. Prince se aproxima, os joelhos ligeiramente pálidos pelo esforço, e se deita no chão, com a cabeça quase na soleira da porta de Lisa. As palavras se aproximam: “ainda… escute… reúna as vozes… como conchas… agarre e fique quieto”. A voz dela é tão suave que Prince teme que possa falhar. Ele tem a sensação de que ela está falando com alguém que não está fisicamente presente, como se ela sentisse uma proximidade que não é limitada pelo espaço. Talvez, pensa ele, seja apenas um pesadelo, talvez seja apenas uma criança murmurando. Mas algo na maneira como os lábios dela formam as palavras lhe diz que é mais do que isso.

Ele pega o celular, tremendo, com os dedos ainda inexperientes. O aplicativo de gravação está aberto, um ponto vermelho piscando como um olho. Ele coloca o aparelho no chão e aponta para o quarto de Lisa. A mensagem sinistra da gravação aparece na tela: "00:00:12". Ele prende a respiração e escuta. A voz de Lisa continua sussurrando, e ele pensa que a qualquer momento ouvirá algo, algo que poderá mudá-lo. Mas quando reproduz a gravação mais tarde, ouve apenas um chiado abafado — como se o mundo estivesse atrás de um vidro. Prince aperta o botão de pausa, encarando a tela como um juiz aguardando o veredito. Apenas pequenos picos piscam no audiômetro, nenhuma palavra. Seu coração bate forte contra as costelas.

Ele se levanta novamente, corre até a porta e a abre uma fresta. Lisa está deitada ali, com os olhos fechados, os lábios se movendo. Sua mão repousa na cabeceira da cama, os dedos levemente curvados, como se apontassem algo no ar. Prince se inclina para a frente e coloca a mão sobre a dela. Ela mal se mexe, como se aquele toque fizesse parte de sua própria ordem interna. Ela abre os olhos. "Você está acordado?", sussurra, e não há acusação em sua voz, apenas a silenciosa surpresa de alguém que não está sozinho.

“Eu…” Prince começa, mas as palavras lhe faltam. “Eu vi seu caderno”, ele finalmente diz. Ele espera ver raiva, um rubor de vergonha, um segredo revelado. Em vez disso, ele vê os olhos dela, e eles não estão assustados, nem zangados, nem assustados. Estão simplesmente claros, como vidro.

"O que você tem lido?", ela pergunta. Parece mais uma sugestão do que uma pergunta.

Prince reuniu coragem e disse: "Seu desenho... a constelação. As anotações... 'se o azul estiver muito forte, apague-se'. O que isso significa?"

Lisa puxa o caderno para mais perto, pega-o com as mãos ainda pequenas que ele agora vê, trêmulas. Ela passa o polegar sobre a página espiralada. "Não é o que você pensa", diz ela. "Não é um segredo que estou escondendo, é... um mapa." Ela ri baixinho, um som que se dissipa como névoa na cortina. "Não só para mim. Para mim e para o mar de vozes."

Prince senta-se na beira da cama, o mundo tão estreito quanto vidro. "Mar de vozes?", repete ele, como se tivesse que examinar as palavras como moedas.

“Quando muita gente está falando, o som é como água batendo em pedras”, explica Lisa. “Às vezes as vozes são amigáveis — suaves, quentes como pêssegos. Às vezes são ásperas, ásperas, como o vento quebrando vidro. Aí eu tenho que sair. Senão…” ela fecha os olhos, como se estivesse procurando o tom certo, “senão fica muito alto e eu não consigo mais respirar.”

Prince pensa nos dias em que Lisa desabava na escola. Ele pensa no funcionamento da linguagem. "Posso ajudar?", pergunta, porque um menino não pode agir de outra forma senão com ações.

Lisa balança a cabeça, mas seu sorriso é gentil. "Você pode ficar comigo. Você pode construir minha ilha." Ela aponta para um desenho — uma pequena espiral com um ponto no meio. "A espiral é uma ilha. Quando eu me sento nela, as vozes não soam mais tão altas. Você só precisa saber como desenhá-la."

É quase absurdo, a ideia de desenhar uma espiral como se estivesse tentando fechar uma janela, mas Prince pega o caderno e uma caneta e, juntos, com a luz quente do abajur sobre eles, desenham. A espiral surge lentamente, uma linha que se aproxima do centro, cada vez menor. Lisa coloca a mão sobre ela, fecha os olhos e respira fundo.

Prince percebe que o ambiente está com um som ligeiramente diferente, como se uma cortina tivesse sido fechada. As vozes ao longe — carros, vozes do corredor — perdem a nitidez. Seu coração se acalma. Por um instante, o mar fica imóvel.